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'Foi libertador': elas mudaram de vida a partir do diagnóstico de autismo

Sabrina imagina que sua vida teria sido diferente se tivesse sido diagnosticada na infância - Acervo pessoal
Sabrina imagina que sua vida teria sido diferente se tivesse sido diagnosticada na infância Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

20/09/2021 04h00

Um dia, Michelle Garcia, de 39 anos, saiu para fazer compras no mercado que ficava na esquina da casa onde morava, em Itumbiara (GO). Ao chegar no lugar, percebeu que os donos do comércio haviam mudado e as mercadorias estavam todas guardadas em lugares diferentes. A sensação foi tão perturbadora que precisou sair dali imediatamente.

Algo semelhante aconteceu com Sabrina Nascimento, de 39 anos, que mora em Salvador (BA). Diante de uma fila para pagar uma peça de roupa, o seu desconforto foi tão grande que se sentiu enjoada e precisou sair para vomitar. As duas levaram anos até perceberem que seus incômodos não eram derivados de uma personalidade "difícil" ou "estranha", mas sim desencadeados por pertencerem ao espectro autista.

Quanto mais leves os sintomas, mais difícil o diagnóstico

A Universa, Clay Brites, neurologista e um dos autores do livro "Mentes Únicas", explica que o autismo acontece em razão de organizações anormais ou incompletas em várias regiões cerebrais. Seu surgimento pode estar associado a fatores genéticos e ambientais, e sua característica principal é gerar na pessoa um déficit na habilidade de percepção social.

Clay esclarece que o autismo pode se manifestar em diferentes níveis, medidos de acordo com o suporte que a pessoa precisa receber. "Casos moderados e severos são mais intensos e a pessoa precisa de maior auxílio, desde a infância. Por isso são mais simples de diagnosticar. Já nos casos leves, a necessidade de ajuda é menor e a família não suspeita logo de cara ou não dá a devida importância", diz.

Segundo o especialista, isso acontece principalmente entre as mulheres, já que, conforme vão se tornando mais velhas, muitas desenvolvem uma habilidade de esconder suas dificuldades em ambientes sociais.

Fingimento tem um preço

O comportamento natural de um autista pode envolver rigidez de conduta no convívio social, nas rotinas e nas regras que segue. Na prática, eles podem ter extrema dificuldade com mudanças e serem metódicos. "Uma saída de casa pode dar início a uma cadeia de pensamentos, como saber exatamente onde vai, o que precisa levar, qual caminho vai fazer, qual horário vai chegar", aponta o neurologista.

Eles podem ser hipersensíveis ao tato, audição ou paladar, evitando sons comuns para as outras pessoas, abraços, beijos ou determinadas texturas de alimentos. No convívio social, tendem a não compreender metáforas, indiretas e muitas vezes precisam de explicações literais para entender algo do que foi dito. Podem preferir ficar isoladas, muitas vezes em um cômodo só da casa, do que socializar.

"Muitas vezes, a família percebe que existe algo de diferente, mas encaram o autista como alguém com quem não se pode contar. Isso porque muitos não conseguem cumprir tarefas necessárias, que não despertam seu interesse, mas que são obrigatórias", explica. Por isso, com o passar do tempo, eles podem até se camuflar, mas podem se sentir julgados, desenvolver fobias, depressão, ansiedade e até pensamentos suicidas.

Diagnóstico é autoconhecimento

Clay percebe que o número de diagnósticos de autistas com sintomas considerados leves na vida adulta vem crescendo. "Isso acontece porque começam a pesquisar sobre suas dificuldades na internet, encontram relatos de pessoas que já foram diagnosticadas, se identificam e procuram um profissional da área da saúde", opina.

Este foi exatamente o caso de Michelle, Sabrina e Julyana. Diagnosticadas tardiamente, elas relatam o que sentiram ao receber a notícia e como o laudo transformou a relação consigo mesmas e com as pessoas ao redor:

"Não suporto as cores fortes e os cheiros do mercado"

"Aos 33 anos, tive meu segundo filho, que passou a apresentar atrasos no desenvolvimento. Mesmo atingindo a idade esperada, ele não falava e pouco interagia com as outras pessoas. Não demorou, foi diagnosticado com autismo. Depois dessa notícia, comecei a refletir muito sobre como seria seu futuro. Comecei a pesquisar e ler relatos de adultos que sofriam com o mesmo transtorno.

Michelle considera o diagnóstico um ponto de partida para o autoconhecimento - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Michelle considera o diagnóstico um ponto de partida para o autoconhecimento
Imagem: Acervo pessoal

A cada texto ou vídeo, eu me identificava com um trecho diferente. Até começar a pensar: 'Será que sou também?'. Resumidamente, sou uma pessoa literal. Quase não entendo piadas, jamais acho que uma indireta é para mim. Não sei dizer as palavras que as pessoas esperam ouvir quando me contam algo triste. Quando dava aulas, chorava quase todos os dias porque não sentia vontade de ir e, na sala dos professores, não conseguia participar das conversas. Nunca me forcei a ir nos eventos e por isso não me aceitavam bem.

Além disso, sempre tive a necessidade de me organizar. Geralmente, se estava para viajar, ficava doente uma semana antes, de tão nervosa. A rotina é muito importante para mim, a ponto de eu chorar quase todos os dias depois de treinar, porque tive uma personal trainer que costumava se atrasar.

Depois que procurei um profissional e obtive o laudo, tudo mudou, mas costumo dizer que a principal mudança foi no meu casamento. Antes, eu e meu marido discutíamos por coisas bobas, como eu não conseguir olhá-lo nos olhos, ou fingir que entendi alguma coisa quando na verdade não sei sobre o que ele está falando. Hoje, ele entende que, se digo que preciso deitar por alguns minutos durante o dia, é porque de fato preciso. Ele assumiu também as compras de mercado, porque não suporto as cores fortes e os cheiros do lugar.

O diagnóstico é libertador porque você passa a se conhecer. Há poucas semanas, comecei a fazer aulas de luta e, logo no primeiro encontro, me apresentei dizendo que tenho hipersensibilidade auditiva, pedi para que ela não colocasse música durante os treinos e que não mudasse as coisas de lugar. Parece algo simples, mas é algo que para mim faz toda a diferença".

Michelle Garcia, 39 anos, historiadora, Itumbiara (GO)

"Minha primeira reação foi ter pena de mim"

"Minhas filhas, que atualmente têm 4 anos, receberam o diagnóstico de autismo por volta de 1 ano e meio. Identifiquei nelas características minhas do passado. Como já fazia terapia, comentei da minha suspeita com minha psicóloga da época e ela me disse que, embora não fosse especialista na área, achava bem possível que eu também fizesse parte do espectro, sugerindo que eu procurasse um neurologista.

Sabrina é professora e tem hipersensibilidade em filas  - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Sabrina é professora e tem diferentes tipos de hipersensibilidade
Imagem: Acervo pessoal

Depois de passar por uma longa avaliação, com entrevistas com meu marido e minha mãe, tive a confirmação aos 37 anos. Embora as pessoas digam que é libertador, minha primeira reação foi chorar muito com pena de mim mesma, da minha infância dos anos 80. Cheguei a ter embates com a minha mãe, até entender que não era possível receber a atenção de que precisava naquela época. Então, dei uma respirada. Você se liberta, se perdoa, se entende.

Algo que melhorou muito a minha qualidade de vida foi o direito a ser preferencial nas filas. Antes, eu me sentia muito mal, mas tinha que ficar ali. Um dia, aguardando para pagar por uma roupa, cheguei a vomitar. Nas ocasiões em que tenho que esperar para ser atendida, começo movimentos de me balançar, que desencadeiam crises.

No meu trabalho, não senti muita diferença, só entendi porque, ao sair de ambientes em que preciso socializar ou com muito barulho, fico muito cansada depois. No meu casamento, ficou mais fácil compreender algumas das minhas oscilações de humor e a lidar com as brigas. Já com relação à maternidade, entendi que as crises das minhas filhas desencadeiam crises em mim, e isso não quer dizer que eu seja uma mãe ruim".

Sabrina Nascimento, 39 anos, professora, Salvador (BA)

"Perceber a mim mesma como autista foi um baque"

"Passei a vida toda sendo chamada de estranha, esquisita, burra. Na infância, eu só conversava com as pessoas da família. Com os demais, fechava a cara. Não achava que tinha que ser uma pessoa diferente, mas isso mudou conforme fui crescendo. Nas situações sociais, passei a mascarar minha dificuldade em conviver com os outros e andar com pessoas das quais eu nem gostava, mas sentia que precisava estar perto para ser bem aceita. Em função disso, desenvolvi depressão e ansiedade.

Julyana desconfiou após ver uma personagem na televisão - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Julyana desconfiou após ver uma personagem na televisão
Imagem: Acervo pessoal

Minha curiosidade em investigar sobre a possibilidade de ser autista só aumentou quando minha irmã passou a identificar em mim características muito semelhantes às da personagem Benê, de "Malhação", interpretada pela atriz Daphne Bozaski. Antes, eu achava que o autismo era sempre severo, mas depois, pesquisando na internet, tive um estalo. E então comecei a correr atrás de um diagnóstico. Como ela, não consigo manter contato visual, permanecer muito tempo em eventos sociais, ouvir determinados sons e ter contato com luzes fortes.

Perceber a mim mesma como autista foi um baque. Primeiro, fiquei muito feliz por finalmente ter uma explicação para as coisas que antes não conseguia entender. Depois, entrei em um processo de luto pelas coisas que poderia ter vivido se tivesse recebido essa notícia antes. Justamente por isso, decidi criar uma página no Instagram, na qual falo sobre o assunto e dissemino informações para mais pessoas. Hoje me cobro muito menos, até nos relacionamentos amorosos e não me forço mais a andar com quem considero tóxico".

Julyana Maia, 24 anos, bióloga, do Rio de Janeiro (RJ)

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