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'Nunca falou de racismo': jovens negras falam de relação com pais brancos

Bruna Barbosa

Colaboração para Universa, de Cuiabá (MT)

10/09/2021 04h00

"Por mais aliado que eu seja, nunca vou sentir na minha pele o que é ser discriminado por conta da cor da minha pele" afirma Bruno Gagliasso no terceiro episódio de 'Preto à Porter', série de UOL, ao ser questionado sobre como é ser um pai branco de duas crianças negras. Ele e a esposa Giovanna Ewbank adotaram Titi, de 8 anos, em 2016 e Bless, de 6, em 2019, ambos nascidos no Malawi. "Sei que o racismo vai atravessar a vida dos meus filhos em algum momento. O melhor que posso fazer é fortalecê-los para essas situações. Mas ainda estou aprendendo como", conta Bruno, que também é pai de Zyon (1).

Se Bruno hoje ainda está aprendendo como lidar, imagina como era o debate sobre racismo em famílias birraciais décadas atrás. Assim como Titi, Noelisa, Isabela e Kayane são negras e têm pais brancos. Mas, a identificação enquanto mulheres negras e sobre as lutas antirracistas só aconteceu por consequência externa. Foi quando tiveram acesso à escola e universidade que compreenderam as dificuldades de ser mulher e negra no Brasil. Com o conhecimento que adquiriram, tentam mudar a cabeça dos pais sobre o tema, tarefa que, segundo elas, nem sempre é fácil. Veja os depoimentos a seguir:

"Consciência do meu pai sobre o racismo veio junto com a minha"

Noelisa Andreola, 25 anos, Cuiabá (MT), jornalista, filha de Ademar Andreola, de 63 anos  - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Noelisa e o pai, Ademar: depois de ela entrar em contato com questões raciais, passou a explicar a ele sobre racismo
Imagem: arquivo pessoal

"Nunca tive essa conversa sobre racismo na minha família por parte de pai. Também demorei para entender o que era racismo. Só depois que tive conhecimento dos movimentos sociais, entendi que o que tinha sofrido na infância e adolescência era racismo. Não era algo que era de conhecimento do meu pai, um homem branco e de olhos verdes.

Comecei a identificar essas situações depois de ficar mais velha: morei muito tempo em Curitiba com ele. Uma vez, fui comprar um celular e a vendedora perguntou: "A sua esposa prefere qual?". Sendo que eu tinha 13 anos, sabe? Já passei situações também de chegar em uma loja e a pessoa falar tudo, menos que ele era meu pai.

Quando ia visitar minha família no interior do Rio Grande do Sul, questionavam como eu sou "uma Andreola", nosso sobrenome, de cor escura, porque seria impossível uma descendente de italianos ter minha cor. Nunca tinham visto alguém da minha cor, e olha que não sou negra retinta.

A consciência do meu pai sobre o racismo veio junto com a minha, quando comecei a debater com ele essas questões: por que eu já fui enquadrada pela Polícia Militar sem motivo algum? Por que entrei em lojas com amigas brancas e não fui atendida - e isso não aconteceu só uma vez, foram centenas -, sendo que quem trabalhava e tinha poder de compra era eu e não elas?

Essa consciência só veio com o passar dos anos, depois que comecei a estudar e conversar com ele sobre o assunto." Noelisa Andreola, 25 anos, Cuiabá (MT), jornalista, filha de Ademar Andreola, de 63 anos

"Sempre foi uma luta fazer meu pai reconhecer minha negritude"

Isabela Ribeiro da Silva, 20 anos, Fortaleza (CE), estudante, filha de Nilberto bezerra da Silva, 52 anos - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Isabela tenta explicar aos pais, Nilberto e Maria da Conceição, conceitos de racismo estrutural
Imagem: arquivo pessoal

"Meus pais vieram do sertão, somos todos do interior do Ceará e é bem difícil eles enxergarem o preconceito que existe no dia a dia. Principalmente meu pai, que sempre vi como incapaz de enxergar algo além da bolha de privilégio que está em volta dele. Minha relação com o meu pai nunca foi muito boa. E, embora seja bem presente, também nunca conversou comigo sobre racismo.

Um dos modos em que o racismo trabalha atualmente é na forma velada, que é mais difícil de se identificar. Sempre que apontamos algo, é visto como vitimismo. Isso sem contar na maneira que os cidadãos do nosso país custam a entender a sua identidade racial e que são lidos socialmente.

Sempre foi uma luta fazer meu pai reconhecer a minha negritude. Ele também nunca demonstrou preocupação com a possibilidade das pessoas serem racistas comigo ou com a minha mãe, que é negra.

Ela tem conhecimento de que é negra, mas sempre foi complicado fazê-la entender que algumas coisas que aconteceram com ela foram frutos do racismo, já que, se você não é engajado nessa causa socialmente, por vezes é bem difícil identificar quando está sofrendo alguma injúria racial.

Eu já tinha conhecimento sobre minha etnia, mas o processo de me entender como mulher negra veio no ensino médio, quando comecei a frequentar debates sobre algumas pautas sociais. Depois disso, comecei a estudar bastante a respeito e me engajei na luta definitivamente.

A família do meu pai é inteiramente branca de olhos claros e quando chega em mim ela começa a escurecer. Então, desde que nasci, escuto as pessoas pontuarem isso. Nunca vi essas afirmações como preconceito, é apenas a realidade. Mas também acredito que isso aconteça pois não sou negra de pele retinta. A miscigenação me fez ter um tom de pele negra mais claro, então, muitas vezes sou vista como 'morena' ou 'parda'.

Para mim, os termos disfarçam o preconceito que sofri ou que ainda vou sofrer, já que é complicado para as pessoas entenderem o conceito de colorismo e que eu sou uma pessoa preta. Até por isso, é difícil para meu pai reconhecer minha negritude.

Acredito que se minha mãe fosse branca e meu pai negro, haveria mais possibilidades de preconceito pelas diferenças nos tons de pele, já que passo muito mais tempo com ela. Mas como a situação é o contrário, quase não consigo me lembrar de alguma injúria racial que tenha sofrido por outra pessoa na presença do meu pai, além de comentários de racismo estrutural vindo dele mesmo - eu sempre procuro corrigir, para melhorar nossa convivência e evitar mais conflitos.

Sou a única em casa que está engajada com essas pautas sociais e é complicado fazer eles entenderem ou se importarem. Eles são mais velhos, de uma época em que o preconceito era mais aceito. Então, se eu reclamar, especialmente com o meu pai que é branco, parece besteira." Isabela Ribeiro da Silva, 20 anos, Fortaleza (CE), estudante, filha de Nilberto bezerra da Silva, 52 anos

"Nunca conversamos sobre racismo"

Kayane de Oliveira Krummennauer, 25 anos, Cuiabá (MT), estudante, filha de Edson Krummennauer, de 50 anos - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Edson, pai de Kayane, não entende as lutas raciais da filha negra, mas apoia
Imagem: arquivo pessoal

"Todas as pessoas que me conhecem primeiro e depois veem meu pai, perguntam a ele ou a mim, se tomam coragem, se sou adotada. Nós sempre respondemos a isso em tom de brincadeira. A verdade é que não somos nada parecidos fisicamente.

Só depois que conhecem minha mãe, entendem a nossa diferença. Não sou a única negra da família por parte do meu pai, mas não posso dizer que somos maioria.

Sou a única filha do meu pai e nós somos muito próximos, mas nunca chegamos a conversar sobre o racismo.

Entendi que por mais que tenha um sobrenome alemão, não pertenço àquele grupo. Por sua vez, meu pai não entende de verdade as minhas lutas enquanto mulher e negra, mas sempre me apoiou

Minha família nunca debateu racismo, porque nunca foi um problema para eles. Duvido que alguma vez queiram conversar sobre isso. Por isso, fui entender o que a diferença de cor significava quando cheguei ao ensino médio." Kayane de Oliveira Krummennauer, 25 anos, Cuiabá (MT), estudante, filha de Edson Krummennauer, de 50 anos

"Eu sou neguinha?": 'Preto à Porter', série de UOL, investiga as cores do brasileiro. Assista:

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