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Maquiadora negra critica post da ONU Brasil por foto associada à violência

A maquiadora paraense Amanda Pris, 29 anos, diz que não deu permissão para a ONU Brasil usar sua foto - Reprodução
A maquiadora paraense Amanda Pris, 29 anos, diz que não deu permissão para a ONU Brasil usar sua foto Imagem: Reprodução

Luciana Cavalcante

Colaboração para Universa, em Belém (PA)

23/11/2020 22h18Atualizada em 25/11/2020 12h50

A maquiadora paraense Amanda Pris, 29 anos, teve a sua imagem associada à violência no Instagram da ONU Brasil e da ONU Mulheres Brasil sem autorização. O mesmo card foi postado ontem nas duas redes e trazia a mensagem: "Em 2018, 68% das mulheres assassinadas eram negras". A foto foi retirada do primeiro banco público de imagens de mulheres negras, "Young, Gifted and Black", lançado este ano.

Só após mais de 24 horas o post da ONU Mulheres foi apagado. Já o da ONU Brasil só saiu do ar hoje à noite, mesmo depois de vários pedidos de Amanda por direct e até comentários públicos. Os dois perfis da ONU juntos têm mais de 1 milhão de seguidores.

A postagem causou espanto tanto para Amanda como para amigos, que enviaram o post para ela. "Por eu ser maquiadora e trabalhar com a minha imagem, com produção de conteúdo e influenciadora, normalmente o que as pessoas esperam é que os conteúdos atrelados a mim sejam de beleza, felicidade, bem-estar, só que dessa vez foi diferente", lamentou a maquiadora, em entrevista ao UOL.

Assim que recebeu o material, Pris comentou no post desautorizando o uso da imagem e pedindo para retirá-la. Ela também entrou em contato com a produtora do banco de imagens para que acionasse a organização.

Mas conta que foram horas de angústia, ansiedade e tristeza pelo constrangimento de passar pela situação, principalmente por ter histórico de violência contra mulher na família. A jovem, radicada em São Paulo há três anos, morava na periferia e Belém e sabe bem como é passar pelo preconceito.

"É muito dolorido porque você passa a vida toda tentando evitar que isso aconteça na sua e vida e na vida dos seus e se vê como manchete de uma notícia trágica, levando em consideração que hoje é dia 23, há três dias foi o dia da consciência negra e há quatro dias um homem negro foi morto dentro do supermercado", lamenta.

Banco de dados se pronuncia

A agência responsável pelo banco de imagens também foi contatada pela vítima para que acionasse a ONU e informou como funciona o acesso ao banco de imagens. A criadora dele, Joana Mendes, informou que o acesso é gratuito para as menores resoluções, como a que foi usada nas redes sociais da ONU.

Porém só é permitido se for dado o crédito e desde que as imagens não sejam usadas de forma degradante, o que teria ocorrido nas postagens. Mendes disse ainda que teve dificuldade de localizar o responsável pela rede social da Organização.

"Tanto eu como a Amanda pedimos por diversos meios. Tive que pedir para a uma pessoa da ONU em Brasília, que também é mulher negra, para tirar as fotos, mas isso demorou quase três horas", revela.

Para a maquiadora, mesmo após as fotos serem apagadas, a experiência nunca vai ser esquecida e será mais uma diante do cenário que vivemos.

"Estou me sentindo violada. Não é só sobre mim, é sobre todos nós. Porque não existem medidas proibitivas para que uma pessoa não seja morta num supermercado ou confundida com bandido. Independente de você ser rico ou pobre. No Brasil você não está imune de passar por preconceitos".

À reportagem, a ONU Brasil afirmou que "está buscando contato com Amanda Pris e se pronunciará posteriormente a respeito da situação".

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