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Ela era lésbica e ele, hétero: "Agora somos casados e bissexuais"

Bianca Bittencourt e o marido, Vinícius Bittencourt - Arquivo Pessoal
Bianca Bittencourt e o marido, Vinícius Bittencourt Imagem: Arquivo Pessoal

Felippe Canale

Colaboração para Universa

27/12/2019 04h00Atualizada em 27/12/2019 10h58

"Não é porque eu gosto de brigadeiro e de beijinho que sou indecisa", avisa a publicitária Bianca Bittencourt, 25. Ela e o marido, Vinícius Bittencourt, 23, são bissexuais e redescobriram suas orientações sexuais juntos -antes, ela se considerava lésbica e ele, hétero.

Bianca e Vinícius se casaram no Brasil em 2017 e hoje vivem em Vancouver, no Canadá. Há 4 meses o casal conversava numa mesa de bar quando Vinícius admitiu que era bissexual. Bianca já se via assim. Abaixo, ela conta um pouco de sua história e do casamento.

"Me descobri lésbica e depois, bissexual"

Eu saí do armário como lésbica aos 13 anos, quando me apaixonei pela minha melhor amiga. Mas ela partiu meu coração em um milhão de pedacinhos. Depois disso, eu tive o meu primeiro grande amor aos 14 anos, a Ana. Namoramos por quase 5 anos, ela sempre frequentou a casa dos meus pais, se dava bem com a minha família e até hoje somos amigas -apesar do nosso término ter sido conturbado justamente por eu ter descoberto a bissexualidade.

No final do meu relacionamento com ela, aos 19, eu acabei me apaixonando pelo nosso melhor amigo, o Douglas, e ele foi o primeiro cara que beijei na minha vida. Quando ele e eu começamos a namorar, resolvemos abrir o jogo pra Ana. E claro, ela não gostou. Este foi um período muito conturbado na minha vida, pois a redescoberta da minha sexualidade acabou revelando comportamentos da minha família e de amigos que me deixaram magoada.

Eu nunca sofri agressões físicas, me sinto privilegiada por isso, mas me incomoda o quão invisível e mal compreendida é a bissexualidade aos olhos de todos, inclusive no ambiente LGBTQIA+.

Dentro do meio lésbico existe um certo preconceito com garotas bissexuais e comigo não foi exceção. Quando percebi que sentia atração também por homens, eu acabei perdendo muitas amigas deste meio, pois até então eu era a garota que nunca havia ficado com homens e a maioria delas adorava isso.

Eu também cheguei a ouvir muitas falas preconceituosas de lésbicas com quem tentei me envolver, algumas delas diziam sentir nojo de mulheres bissexuais ou afirmavam que jamais se envolveriam comigo porque não se sujeitariam ao risco de serem trocadas por um homem.

Em relação à minha família, a minha mãe nunca se incomodou com o fato de eu ser lésbica, mas quando contei que estava apaixonada por um homem, ela me disse: "Eu sabia que na verdade você era hétero, você só namorava com mulher porque era insegura".

Outra frase dela foi "Cuidado, agora que você transa com homens, corre o risco de engravidar".

Meus sogros tentaram impedir nosso casamento

Já os meus sogros fizeram de tudo para impedir o meu casamento com o filho deles, inclusive, diziam que eu era promíscua depois que ficaram sabendo da minha orientação sexual. Nós cortamos contato com eles por diversos motivos, um deles é o fato de ambos serem homofóbicos.

O Vinícius descobriu aos 21 anos que o avô é gay e a avó é lésbica, porque os seus pais esconderam isso dele durante boa parte da sua vida. A justificativa era que o vovô morava com o mesmo homem há mais de 20 anos porque ambos eram amigos e gostavam de economizar o dinheiro do aluguel, sendo que na verdade eles são casados.

Além disso, o meu marido teve uma educação homofóbica durante a adolescência, durante a qual ele não podia ter amigos gays ou assistir a filmes ou ler livros com a temática.

Há dois anos, os tios do Vinícius resolveram contar a verdade para ele. Resumindo a história: os avós do meu marido se casaram no passado e tiveram 3 filhos. Depois disso, se descobriram gay e lésbica, se divorciaram e cada um passou a cuidar da própria vida.

Há quatro meses, o Vinícius e eu estávamos conversando num bar e começamos a nos perguntar o que era mais importante pra cada um na hora de sentirmos atração sexual por outra pessoa. Era a beleza, o jeito de se vestir, a personalidade ou o gênero?

Aí acabamos percebendo que ele nunca gostou de mulheres com características que são consideradas muito femininas, na real ele sempre esteve mais inclinado a garotas consideradas diferentes ou fora do padrão daquilo que é considerado feminino.

Aí ele também lembrou que aos 16 anos havia sentido uma certa atração por um professor do curso de inglês, mas na época ele acabou reprimindo o sentimento, já que dentro da sua criação isso era pecado. Depois do nosso casamento, a descoberta da sua bissexualidade veio naturalmente.

Sinceramente, eu não sinto diferença nenhuma pelo fato do Vinícius ser bissexual. Quando casei com ele, achava que ele era hétero e talvez ele achasse isso também, pois sempre tivemos uma comunicação muito transparente um com o outro.

O caráter e a personalidade dele continuam os mesmos, mas talvez agora exista ainda mais abertura e transparência entre nós, não somente quanto a nossa sexualidade, mas em todos os sentidos que você possa imaginar.

Quando assinamos os papéis no cartório, já usávamos nossas alianças de casados. Quanto a festa de casamento, cancelamos o evento quatro dias antes depois que os pais dele pediram aos convidados que não comparecessem à festa.

Infelizmente, parte da sociedade não entende o conceito da bissexualidade. Só porque eu gosto de brigadeiro e de beijinho, não significa que sou indecisa, mas sim que eu me apaixono pela pessoa e não pelo gênero dela. Se você não consegue entender isso, o mínimo a se fazer é respeitar a individualidade alheia, pois a sexualidade é muito mais diversificada do que podemos imaginar.

Vinícius e eu brincamos dizendo que o nosso relacionamento é 98% monogâmico. Já aconteceu de ficarmos juntos com alguém, ou somente eu com outras pessoas e também ele sozinho com outra pessoa.

Além disso, nós dois nunca descartamos a possibilidade de vivermos um relacionamento a três, mas também não é algo que estamos buscando ou planejando no momento. O mais importante é que há transparência e honestidade quando sentimos atração por outra pessoa, e somos zero ciumentos.

Não nos sentimos donos um do outro, mas somos parceiros de vida e queremos o melhor pra nós dois. Quer uma dica pro seu relacionamento dar certo? Troque o ciúme pela sinceridade e seja feliz.

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