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A vida sexual de mulheres com deficiência: campanha quer quebrar tabu

Jessica Messali - Dario Matos/Divulgação
Jessica Messali Imagem: Dario Matos/Divulgação

Jessica Arruda

Colaboração para Universa

03/12/2019 04h00Atualizada em 03/12/2019 11h39

A expressão "Amor Fati" em latim significa, ao pé da letra, "amor ao destino". Em uma interpretação mais ampla (e filosófica), vai muito além disso: está relacionada ao amor à própria jornada, aceitando todos os acontecimentos e percalços como parte de sua história, da vida e do crescimento espiritual. Não à toa, este foi o nome escolhido para a campanha que começa hoje, Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, que traz relatos de experiências sexuais de seis mulheres com deficiência em um mini-documentário e um ensaio fotográfico.

Para essas mulheres, o conceito de preliminares no sexo é diferente quando comparado ao que é cultuado pelo senso comum. O despertar das sensações pode estar num gesto. "Hoje o sexo começa no olhar, no toque nas minhas costas, no toque no cabelo. Hoje o sexo é mais amplo", diz a triatleta paraolímpica Jessica Messali. Como o espectro sensorial muda, o contato sexual se torna muito mais amplo.

"Preliminar é Whatsapp, é mandar uma cartinha...isso é preliminar. A partir do momento que tem o toque já é sexo. No corpo de uma mulher cadeirante, qualquer toque pode ser um ponto de ebulição", diz Tabata Contri, consultora de inclusão. "Quando me perguntam como é fazer sexo sem estar vendo eu falo para as pessoas que é só ter um pouco de ousadia, colocar uma venda e experimentarem por elas mesmas ou simplesmente desligar a luz, porque isso é fácil de experimentar e ter uma experiência diferente", acrescenta a jornalista Bárbara Barros.

A ação realizada pela plataforma "Meu Corpo é Real" quer auxiliar pessoas com deficiência a se conectarem com o corpo e promover a autoaceitação. Além de informar, a proposta também quebra os tabus ainda existentes sobre a sexualidade de mulheres com deficiência.

"Somos assexuadas para o mercado"

Ao longo da campanha, depoimentos como o da jornalista Bárbara Barros trazem à tona o assunto que raramente é conectado com pessoas que têm alguma deficiência. "Somos assexuadas para o mercado", diz ela. "Geralmente são dois extremos: eu acho que a sociedade não relaciona sexo com deficientes. Tem essa visão de pessoas assexuadas, seres inocentes e infantis que não têm desejos. E por outro lado existem os Devotees, que é um fetiche, uma tara pelo corpo deficiente", explica Bárbara.

Michele Simões, estilista e consultora de imagem que idealizou o projeto, explica que o objetivo da campanha é mostrar que pessoas com deficiência não só podem exercer muitos papéis, como também sentir prazer e amor pelo próprio corpo. "Estamos abrindo as cortinas para trazer o tema à tona e apresentar a história de mulheres que se amam e são donas de suas próprias jornadas. Não queremos protagonizar a deficiência, mas torná-la parte da narrativa."

Para Michele, o "Amor Fati" contrapõe as associações que parte da sociedade faz ao relacionar deficiência à infelicidade ou à ideia de que vivem em busca de "cura". "Estas pessoas são complexas e diferentes como qualquer outra e, por isso, queremos dar voz a temas que são muito importantes como, por exemplo, a sexualidade", conta.

Antes de deficientes, pessoas

Ravelly Santana - Dário Matos/Divulgação
Ravelly Santana
Imagem: Dário Matos/Divulgação
Após a formatura no curso de Moda pela Universidade Estadual de Londrina, em 2006, Michele Simões se mudou para São Paulo, onde passou a trabalhar como estilista em uma confecção e consultora de estilo. Poucos meses depois, sofreu um acidente de carro grave: foram mais de 90 dias no hospital e a perda permanente dos movimentos abaixo do tórax.

A designer de moda alta e magra, que atendia em cheio aos padrões estéticos da área em que atuava, de repente se viu passando por um processo de readaptação ao seu próprio corpo em uma cadeira de rodas. Foi preciso desconstruir tudo o que ela já conhecia e começar de novo. E neste caminho de autoconhecimento e aceitação, Michele entendeu que a moda era muito mais sobre pessoas do que apenas peças de roupa. "Entendi que a moda poderia abarcar novos corpos e ser uma aliada na construção de novas narrativas sobre as pessoas com deficiência", acredita.

Meu corpo é real

A plataforma "Meu Corpo é Real", iniciada por Michele em 2016, nasceu com o propósito de desconstruir estigmas e informar, desenvolvendo ações para promover inclusão entre consumidoras com deficiência e as marcas. A ideia é divulgar o assunto com um olhar diferente, levando às pessoas temáticas muito além da rampa, do provador e do banheiro acessível. Mostrar que existe, sim, um processo de adaptação aos novos corpos, mas que é preciso romper padrões e entender a moda também como um meio de inclusão.

Raissa Machado - Dário Matos/Divulgação
Raissa Machado
Imagem: Dário Matos/Divulgação
"O objetivo da plataforma é mudar a velha pergunta que fazem a uma pessoa com deficiência sobre 'o que aconteceu com você?' para 'qual a cor do seu batom?' ou 'de onde é essa sua blusa?'. Queremos ser ponte para que essas pessoas possam existir antes de suas deficiências, com a oportunidade de escrever e contar suas próprias histórias, usando o estilo como ferramenta para abrir esses espaços", acredita Michele.

Com a campanha "Amor Fati", o minidocumentário e o ensaio fotográfico criados pela plataforma "Meu Corpo é Real", a estilista espera impactar ainda mais pessoas por meio da informação, iniciando um diálogo de conscientização. "Este recorte sobre o tema traz histórias de mulheres que se apropriaram de seus corpos e se permitem ser protagonistas de suas próprias vidas e prazeres", afirma.

O documentário foi feito em parceria com a filmmaker Lívia Cadete, com produção dos recursos de acessibilidade realizada pela Sondery e seus parceiros. O projeto também conta com fotos de Dário Matos, o styling de Isadora Diógenes, a maquiagem de Taísa Lira e a direção de arte de Sofia Stipkovic.

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