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"Cannabis é feminina": brasileira é uma das 50 mais influentes no mercado

Viviane Sedola, da Dr. Cannabis - Divulgação/Marcos Credie
Viviane Sedola, da Dr. Cannabis Imagem: Divulgação/Marcos Credie

Nathália Geraldo

De Universa

13/11/2019 04h00

A empresária Viviane Sedola foi reconhecida como uma das 50 mulheres mais influentes do mercado mundial da cannabis, pela revista High Times. A publicação noticia as novidades associadas à maconha, ao uso medicinal da erva e em outras áreas, como a de cosméticos, e nesta quarta-feira (13), homenageia pesquisadoras, empreendedoras e ativistas que lutam para avançar com a pauta da cannabis no mundo.

Viviane Sedola é fundadora e CEO do Dr. Cannabis, uma plataforma brasileira lançada em 2018 que conecta pacientes e médicos que recomendam tratamento com maconha medicinal, além de oferecer suporte para quem precisa da liberação da Anvisa para ter produtos ou remédios feitos da planta.

Apesar do reconhecimento da High Times, a atuação feminina no mercado, diz Viviane para Universa, tem se reduzido — reflexo do machismo que domina a maioria dos mercados, como o de tecnologia, e indústrias com alcance global.

A dominação masculina, entretanto, é um paradoxo curioso dentro do mercado da cannabis, brinca Viviane. "A planta que dá flor, que é de onde se extrai tudo que interessa, é a fêmea. E ela existe para atrair o macho; então, quando se tira o macho de perto dela, a flor da fêmea vai crescendo, para tentar atraí-lo. Ou seja, é a abstinência reprodutiva que gera a flor", explica. "Sem contar que é a cannabis, com artigo feminino. As mulheres na indústria brincam que a cannabis é feminina".

Aplicações do negócio

O "Cannabusiness", ou o mercado da cannabis, tem basicamente três vertentes: a do uso recreativo da maconha, a da cannabis para fins industriais (cosmético, tecido, móveis) e a das aplicações medicinais.

O Dr. Cannabis, de Viviane, atua na terceira frente. "A empresa foi criada para atender ao mercado de cannabis medicinal legal do Brasil como ele é hoje: ou seja, como base no fato de que há uma resolução da diretoria colegiada (RDC) da Anvisa que diz que, em casos excepcionais, pacientes podem ser autorizados a importar individualmente produtos a base de canabidiol para se tratar".

Nesse sentido, o Dr. Cannabis dá suporte a quem busca medicamento para crianças com autismo, e até mulheres que têm cólicas fortes. "Se você tem uma cólica que derruba por dois dias, provavelmente já testou tudo que está na farmácia. O que existe no mercado tradicional provavelmente não funciona para você. E, nesse caso pode ser elegível a se tratar com cannabis medicinal. Os pacientes têm essa dúvida, e a gente acolhe desse momento até a efetivação da compra [do medicamento]".

No exterior, há ainda produtos que têm potencial para o público feminino, como para tratamento de endometriose e óleos lubrificantes para o prazer sexual. Esses, oficialmente, não podem ser comercializados no Brasil sem a liberação da Anvisa.

A média de valor dos pedidos feitos pela plataforma, segundo a empresária, é de R$ 1.200/por mês.

Para importar produtos com canabidiol no Brasil, paciente precisa de autorização da Anvisa - sand86/iStock
Para importar produtos com canabidiol no Brasil, paciente precisa de autorização da Anvisa
Imagem: sand86/iStock

Mercado cannabis

Segundo pesquisa da New Frontier Data, que emite relatórios de análise de dados e de inteligência de negócios sobre o tema, em parceria com a plataforma de pesquisa brasileira The Green Hub, poderia movimentar R$ 4,7 bilhões na economia do Brasil anualmente: o dinheiro seria oriundo do tratamento de pacientes com ansiedade, autismo, câncer, entre outras doenças, e dores crônicas.

Há um potencial de mercado. Tanto que no dia 27 de novembro, empresários, profissionais da saúde e do bem-estar e até da área de alimentos e bebidas se reúnem no chamado "Cannabusiness Summit", em São Paulo, para falar de legislação, possíveis produtos, modelos de negócio que se associem à cannabis.

Viviane é uma das curadoras do evento. Apontada como uma liderança feminina no setor, ela lamenta, entretanto, que não há muitas mulheres em posições como a sua.

"Pesquisas nos Estados Unidos, onde o mercado começou antes, por conta da liberação da cannabis em alguns estados, mostravam que 50% dos pequenos negócios associados a cannabis eram liderados por mulheres. Mas, em empresas grandes, de capital aberto, não me lembro de outras", pontua. "Em outras pesquisas, esse número vem caindo, para uma representatividade de 30% de mulheres na área".

No Brasil

Mesmo assim, Viviane se mantém como uma das referências, ao lado das 50 mulheres eleitas pela High Times. E tem acompanhado de perto as movimentações para regularização do plantio da cannabis medicinal e do registro e regulação de medicamentos no Brasil.

"Toda discussão é boa. A Anvisa está muito esclarecida quanto aos benefícios da cannabis medicinal. A proposta regulatória que eles trazem para o registro de medicamentos e para o cultivo cabem questionamentos e não sabemos se vai ser votada esse ano, e aí vai ter outra diretoria, que a gente não sabe qual será. Aí, será mais provável que o Legislativo regule", aponta.

"Mas minha principal crítica aos projetos de lei é que a parte econômica não está sendo levada em consideração. O cânhamo, por exemplo, é uma substância de cannabis com baixa concentração de THC, que serviria para o medicinal e traria um potencial econômico para o país. Ele é como se fosse a soja, em termos de mercado, é ecologicamente melhor, cresce rápido, mas isso não está sendo levado em conta".

A outra crítica de Viviane é o fato de as propostas facilitarem a importação de produtos registrados, o que "exportaria o lucro" que poderia circular entre empresas nacionais.

Em meados de outubro, a Anvisa adiou votação de uma resolução que permitiria plantio da maconha para pesquisa e fins medicinais no País e de outra que torna mais simples o registro do produto, por conta de pedidos de revisão às propostas.

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