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'Bolsonaro deve comer até pedra', diz dono de lanchonete dos presidentes

Toninho prepara café, atende ao buffet cobrado à vontade. É nome no letreiro e no registro do CNPJ: "eu faço de tudo!" - Reprodução/Facebook
Toninho prepara café, atende ao buffet cobrado à vontade. É nome no letreiro e no registro do CNPJ: 'eu faço de tudo!' Imagem: Reprodução/Facebook

Marcos Candido

De Universa

18/08/2019 04h00

Uma lanchonete de um migrante do Ceará, em Moema, na zona sul de São Paulo, foi a mais procurada pela equipe do ex-presidente Michel Temer (MDB), durante o mandato dele (2016-2018). O cardápio, no entanto, não oferece nada grã-fino. Por lá, um prato executivo não custa mais de R$ 20. Se preferir, é possível pedir e levar um dos 200 marmitex servidos ao dia. Há também bufê por quilo (R$ 39) e pratos ainda mais em conta, como a costela assada (R$ 17). O mais pedido pela equipe do ex-presidente foi o kit-lanche: um misto-frio "reforçado" no pão de hambúrguer, com água mineral, refrigerante, maçã e uma barrinha de cereal. Nesse caso, o preço varia e depende do tamanho da comitiva.

O favoritismo da lanchonete Tony e Thais é atestado pelos cerca de R$ 500 mil em alimentação gastos no local, segundo notas fiscais apresentadas pelo governo anterior. O valor é três vezes maior do que o gasto no segundo estabelecimento preferido da equipe de Temer, a lanchonete Toledo, próximo ao aeroporto Santos Dumont, no Rio. A verba usada para a alimentação da equipe é pública, mas não é irregular.

Toninho (centro) curte happy hour com a turma

A Tony e Thais pertence a Antonio "Toninho" Rodrigues dos Santos, 47. Natural de Catarina, cidade a cerca de 600 km de Fortaleza (CE), ele chegou a São Paulo com 16 anos, ainda na década de 80. Trabalhou como assistente técnico de telefonia até se unir ao irmão no ramo de lanchonetes que servem desde o café da manhã até a cerveja do happy hour. A Thais do letreiro colorido é uma sobrinha. Com o trabalho da família, ela pôde estudar medicina. Está prestes a receber o diploma.

Funcionando há 14 anos, a cozinha de Toninho tem um vasto currículo político. Já alimentou, por exemplo, a equipe que recepcionou o "exímio Taro Aso", ex-primeiro-ministro do Japão e atual ministro das finanças do país. Em abril de 2017, a lanchonete foi encarregada do lanchinho de Temer durante um jantar com o rei e a rainha da Suécia. No fim do ano passado, o kit-lanche foi enviado aos funcionários que acompanharam a entrega de uma insígnia de Grã-Cruz a Temer, uma honraria concedida por empresários da indústria que apoiaram o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Apesar da hegemonia durante o governo Temer, a Tony e Thais também serviu aos presidentes anteriores. Durante o mandato do ex-presidente Lula, mais de R$ 100 mil em alimentação foram gastos ali. "O dia de maior movimento foi na época do Lula, quando veio o George W. Bush", diz. Em 2007, o ex-presidente americano passeou por um dia em São Paulo e almoçou com o então presidente petista sob forte esquema de segurança. "A gente precisou trabalhar dia e noite para atender as encomendas da equipe", diz.

Temer em pessoa nunca deu as caras, diz Toninho. O mais perto que chegou de um presidente foi no governo Dilma. "Uma vez, entreguei uma marmita no 8º Batalhão do Exército. Quando eu estava entrando, a Dilma saiu de carro." Depois do impeachment, ele acredita que as coisas não mudaram muito. "Pra mim, tiraram um e colocaram outro igual."

Toninho (centro) com camiseta da seleção brasileira, durante a Copa do Mundo - Reprodução/Picasa
Toninho (centro) com camiseta da seleção brasileira, durante a Copa do Mundo
Imagem: Reprodução/Picasa

O valor gasto com alimentação da equipe presidencial é mantido sob sigilo durante o mandato. Um ano após a troca de presidentes, os dados são liberados. Segundo o Palácio do Planalto, a verba é destinada à equipe, como agentes de segurança, tripulação de helicóptero, seguranças de aeronave e até o próprio presidente. "Sei lá se o Temer já comeu. A gente só atendia a equipe, entende? Eles encomendavam e a gente levava", explica o empresário. Temer, posteriormente, foi preso na Operação Lava Jato e solto pela Justiça. O ex-presidente Lula está preso em Curitiba.

Toninho diz que, desta vez, tem esperança de que as coisas serão diferentes. A lanchonete também recebe encomendas da equipe de Jair Bolsonaro em São Paulo. "Eu acho que o Bolsonaro deve comer meu kit-lanche.", diz. Toninho acha que o atual presidente ainda não teve tempo para fazer muita coisa. Espera que, neste governo, a vida dos pequenos empreendedores melhore. No ano passado, votou no candidato do PSL. "Ele é militar, mais selvagem. O Bolsonaro deve comer até pedra."

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