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Primeira brasileira a chegar ao topo do K2: "Só pensava em continuar viva"

Camila Brandalise

De Universa

05/08/2019 04h00

De cada cinco pessoas que tentam chegar ao cume do K2, uma morre no caminho. Com 8.611 metros, a montanha localizada na fronteira entre o Paquistão e a China é a segunda mais alta do mundo, atrás apenas do Everest. Mas altura não é tudo. A instabilidade climática, os paredões gigantescos, avalanches imprevisíveis e inclinação intensa fazem do K2 a montanha mais perigosa do mundo. Até hoje, apenas 400 pessoas -- sendo 20 mulheres -- alcançaram o seu topo. Uma delas é Karina Oliani.

Aos 37 anos, a médica e atleta paulistana, se tornou a primeira brasileira a alcançar o topo do K2, em julho deste ano.

A história com esportes radicais vem de longe. Com 17 anos, ela foi bicampeã brasileira de wakeboard, tricampeã na categoria Open em Snowboard e recordista em mergulho livre (apneia). Aos 19 anos, começou a escalar montanhas - já subiu o Everest duas vezes. Tem licença da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) para atuar como piloto privado de helicóptero e foi a primeira médica brasileira a se especializar em medicina de emergência e resgate em áreas remotas. Escalar montanhas também é uma profissão para Karina: a expedição ao K2, por exemplo, teve patrocínio de cinco empresas, de marca de carro a grife de moda.

"Quando cheguei ao Paquistão, 45 dias antes de começar a escalada, encontrei alpinistas profissionais e muito fortes que já tinham ido uma, duas, três vezes e não tinham conseguido chegar ao cume", conta. "Aí pensei: 'E comigo, como vai ser?'"

Ela conta na entrevista abaixo:

Como você se preparou para essa escalada?
Eu cheguei ao Paquistão há quase dois meses. Por causa da altitude, é preciso realizar muitos ciclos de subida e aclimatação. São apenas 14 montanhas no mundo que têm mais de 8 mil metros de altura. A gente subia até um ponto, onde seria um acampamento, deixava os equipamentos, descia para o acampamento de baixo, esperava algumas horas para o corpo se recuperar e, então, subia de novo.

Por que o K2 é considerada a montanha mais perigosa do mundo?
Por conta do desafio da natureza. Tem muitos blocos de gelo que podem despencar a qualquer momento, pedras rolando e muita avalanche. Os trechos de escalada são mistos, tem rocha e gelo, o que exige uma enorme precisão técnica. A gente sobe a uma altitude extrema carregando mochila pesada, com equipamento, em uma temperatura extrema [a média é -25Cº].

Quais foram as maiores dificuldades nesses cinco dias de subida?
Em vários momentos senti minhas mãos e meus pés congelarem, o vento estava um absurdo, minhas costas estavam destruídas por causa da mochila pesada. Os músculos começam a ficar extremamente cansados e chega um momento em que o oxigênio não é suficiente nem para digerir o que comemos. Não é uma altitude normal para o corpo humano -- é preciso saber lidar o tempo todo com a dor e o desconforto.

Em algum momento você achou que não conseguiria?
Quando já estávamos próximos ao cume, toda a expedição teve que voltar à base da montanha por causa de uma avalanche. Já tinha ouvido que nesta temporada estava impossível escalar o K2. Nesse momento eu realmente achei que não daria certo. Tive que lembrar a mim mesma o quanto era meu sonho escalar essa montanha. Dos 120 montanhistas presentes, apenas 15 ficaram para tentar de novo.

O que passava pela sua cabeça durante a escalada?
Pensava em como a vida é preciosa e em como precisamos de tão pouco para sobreviver. Naquele momento, nossa maior necessidade é conseguir continuar vivo. Também me perguntava muito o motivo de eu estar ali.

E chegou a uma resposta?
Eu gosto muito do que eu faço. Escalar montanhas é uma metáfora da vida. Quando a gente olha para cima, parece que será impossível alcançar o topo. Mas aí vamos pouco a pouco, um passo depois do outro, até atingir a meta. A vida é assim: às vezes parece que jamais atingiremos nossos objetivos, mas com calma, disciplina e determinação, sempre é possível.

Que outras coisas te dão prazer?
Gosto de sair para dançar e viajar com meu marido, Marcelo, com quem sou casada há 10 anos. Ele veio comigo ao Paquistão, inclusive, mas ficou no acampamento base.

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