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"Cobra Kai": Os valentões dos anos 80 sobreviveriam no mundo atual?

Cobra Kai: Antes e depois de astros de Karatê Kid vai chocar fãs; veja - Reprodução / Internet
Cobra Kai: Antes e depois de astros de Karatê Kid vai chocar fãs; veja Imagem: Reprodução / Internet
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

21/09/2020 04h00

Por indicação da amiga Fhoutine Marie, minha consulta oficial e extraoficial para assuntos políticos e cinematográficos, fui conferir a série "Cobra Kai", que entrou recentemente no catálogo da Netflix.

A série imagina, 35 anos depois, o que teria acontecido com os personagens de "Karatê Kid" em um mundo que se esfola dentro e fora das redes entre esquerda x direita, "globalistas" x nacionalistas, politicamente correto x incorreto, extremistas x defensores da civilização. Essas e outras dualidades, de forças não necessariamente equivalentes, não são exatamente temas de embate na série, mas elas circulam por lá como alma penada.

"Karatê Kid", para quem não conhece (alô, centennials), é o clássico da Sessão da Tarde que forjou uma geração no maniqueísmo mais precário.

Contava a história de um jovem tímido criado por uma mãe solo que é perseguido pelos valentões do bairro e da escola até ser acolhido por um mestre de caratê, o senhor Miyagi.

Entre pitadas de sabedoria e limpeza de todo tipo de vidraça (entendedores entenderão), Daniel Larusso, ou Daniel San (Ralph Macchio), aprende a arte da autodefesa e uma moral da história: vence quem bate por último. Não importa o quanto a gente apanhe. (Ao fim deste spoiler, e dos filmes que vieram na sequência, é possível ainda ouvir o Peter Cetera cantando que ele é o homem que lutará por sua honra).

Corta a cena.

Nos dias atuais, o valentão da história, interpretado por William Zabka, tem a chance de contar a sua versão dos fatos. Ele ainda tenta se reerguer do pontapé na cara que tomou na última luta com Larusso. Está sozinho, endividado, bêbado e às turras com a ex-companheira e o filho que não criou. É o que se espera de qualquer vilão.

A surpresa é que o doce Larusso também virou um típico valentão, só que dos negócios. Dono de uma concessionária de carros de luxo, ele se tornou um empresário tão inseguro e competitivo que chega a ser desleal. O velho campeão de caratê vê o troféu empoeirar diante do desprezo do filho, que não sai do videogame, e da autossuficiência da filha, que não aceita o controle do pai nem dos brigões da escola.

No tatame da vida adulta, vencedores e fracassados digladiam em outras linguagens. Larusso é a classe ascendente que sobe na vida e usa todos os artifícios para se manter onde está, inclusive a humilhação.

Johnny Lawrence não envelheceu melhor. Chucro, ele é o típico representante de uma ala que obrigou uma geração inteira de filhos a fazer terapia porque os pais achavam que terapia era frescura, como definiu um meme recente.

Ele tenta conquistar a atenção do filho, rebelde com causa, enquanto reinaugura a velha academia onde aprendeu a lutar. Só que aquela academia, "Cobra Kai", era uma das maiores usinas produtoras de bullying da história do cinema e da educação pela pedra.

Lawrence precisa se reconectar com o passado sem necessariamente reproduzi-lo ao retomar o empreendimento.

É aqui que as coisas se enroscam. Estamos em 2020, afinal.

Estúpido, preconceituoso, arrogante e cheio de verdades, Lawrence toma uma surra das ironias da vida ao perceber que seu público-alvo não são mais os valentões da rua. São justamente as vítimas dos valentões, e os valentões de agora são quase todos playboys de uma escola segregada, como toda escola de filme americano, entre jovens ricos e populares e... fracassados.

Se a série acompanhasse as eleições americanas, o antigo vilão certamente seria o eleitor que coloca na janela o adesivo "America First". Falta combinar com a realidade, que ironicamente o transforma em tutor de um jovem latino sem confiança e alvo de bullying frequente. É por esse jovem que passa a sentir uma paterna compaixão, palavra que aprendeu a riscar da própria cartilha ao longo da vida.

A princípio a estratégia do terror funciona, mas ele não demora a perceber que, para a geração atual, hiperconectada e pouco disposta a aceitar hierarquias a priori, não faz sentido pagar academia para ser humilhado diante dos colegas.

Como todo adulto problemático, Lawrence tem uma dificuldade para perceber que as humilhações sofridas na infância e adolescência não forjaram seu caráter, mas sua insegurança e incapacidade de viver socialmente.

Ao mesmo tempo, passa a ser um ponto de segurança na formação de jovens que precisam aprender, sem espernear, que a vida é dura e precisa seguir sem melindre, mesmo quando machuca.

A indiferença do mestre diante de narizes e ossos quebrados dos alunos talvez seja o ponto mais distante entre o mundo onde se forjou e o que se quer superprotegido de qualquer frustração.

Larusso, por sua vez, fatalmente seria identificado com grupos ideológicos que já decretaram a própria superioridade moral e, de cima, mal disfarçam o desprezo por quem agora chama de "bárbaros". Sem quimono, ele é a fragilidade masculina que mal cabe no terno. Como seu algoz.

Se em 1985 os lutadores provocavam suspiros na plateia, agora são uma máquina de decepção e repreensão dos filhos e mulheres da história.

Aqueles jovens envelhecidos estão órfãos novamente. Numa das melhores cenas da série, Larusso vai à lápide do velho mestre lamentar que não se tornara um velho sábio como ele. Fica em dúvida, como todos os adultos espectadores, se o velho Miyagi realmente sabia o que fazia ou só fingia enquanto dizia.

Em cada cena, são ainda as crianças abandonadas e acolhidas por outras referências simbólicas tentando se reinventar como pais em um mundo que já não reconhecem nem reconhece seus feitos, inclusive no cinema.

Na infância ou na vida adulta, não é o valentão que causa terror. É o desamparo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL