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Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Está tudo caro, e a culpa é do Bolsonaro: como inflação impacta mulheres?

Protesto contra o presidente Jair Bolsonaro no Dia Internacional da Mulher em março de 2020  - ROBERTO SUNGI/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Protesto contra o presidente Jair Bolsonaro no Dia Internacional da Mulher em março de 2020 Imagem: ROBERTO SUNGI/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
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Isabela Del Monde

Isabela Del Monde é feminista e advogada. Coordenadora do movimento MeToo Brasil, cofundadora da Rede Feminista de Juristas (deFEMde) e sócia da Gema - Consultoria em Equidade

Colunista do UOL

05/05/2022 04h00

Se você mora no Brasil e não é uma pessoa milionária - ou bilionária -, com certeza já sentiu que seu dinheiro está bem mais curto do que a duração dos meses do ano. Segundo o noticiário atual, "de março de 2017 a março de 2022, o real perdeu 31,32% de seu valor e poder de compra". Como não houve aumento dos salários, podemos comprar, com o mesmo dinheiro, bem menos do que podíamos cinco anos atrás.

Para as mulheres, esse cenário é ainda mais catastrófico. Primeiro, porque ganhamos salários menores do que os dos homens, o que já nos coloca em desvantagem. Segundo, porque o salário, já historicamente desigual, desapareceu por completo para milhares de brasileiras.

Você sabia que 96% dos postos de trabalho com carteira assinada fechados em 2020 eram ocupados por mulheres? 462 mil mulheres, para ser precisa, de acordo com levantamento do Ministério do Trabalho.

Confesso que nunca imaginei que estaríamos falando a palavra "carestia" em 2022. No final da década de 70 e nos anos 80, essa palavra - que significa encarecimento do custo de vida, pobreza, escassez ou desprovimento - fazia parte do cotidiano nacional.

As mulheres, novamente, eram as mais atingidas e, naquele momento, elas transformaram sua indignação no Movimento Contra a Carestia (MCC) ou no Movimento Custo de Vida (MCV), que surgiu da organização de mulheres nos Clubes de Mães, especialmente no da Zona Sul da cidade de São Paulo.

Essas mulheres reivindicavam, entre outras coisas, o congelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade e o aumento dos salários acima do aumento do custo de vida. Além disso, fizeram abaixo-assinado com mais de 1 milhão de assinaturas (incluindo a participação de crianças e pessoas não alfabetizadas), manifestações políticas e viagens para Brasília para cobrar o governo em plena ditadura.

Conhecer as suas histórias é conhecer a história de enfrentamento ao regime militar e o protagonismo que as mulheres tiveram para o retorno democrático ao país e para a estabilidade econômica a partir de 1994.

Péssima viagem no tempo

As brasileiras de 2022, infelizmente, parecem estar experimentando uma péssima viagem no tempo. Na edição especial do Radar Febraban de março de 2022, feita apenas com mulheres, a maioria das entrevistadas aponta que a inflação dos alimentos é o que mais tem impactado em suas vidas e 93% atestam que o preço dos produtos aumentou ou aumentou muito em relação ao ano passado.

O estudo também nos mostra que "predomina a percepção de que alguns dos principais aspectos econômicos irão piorar nos próximos seis meses (...) e 44% das entrevistadas acreditam que a sua vida financeira e familiar só irá se recuperar após 2022".

Mulheres contra Bolsonaro

O que pode acontecer depois de 2022, meu querido leitorado? O fim do governo Bolsonaro!

A população feminina percebeu que nossas vidas pioraram, e muito, desde 2017, com agravamento a partir de 2019: perdemos empregos e renda, sofremos mais violência doméstica e choramos as mortes das quase 700 mil vidas perdidas porque o Bolsonaro atrasou a compra de vacinas.

Tanto é assim que 56% do eleitorado feminino percebem Bolsonaro como "ruim" e "péssimo" - e entre os mais pobres esse índice vai a 76%, de acordo com a pesquisa FSB/BTG de abril de 2022. Mais uma vez, ao que tudo indica, as mulheres pobres vão ser as protagonistas reais do fim de mais um período tenebroso de nossa história.

É por conta dessa nossa capacidade de agir nos piores momentos do país que sentimos profunda indignação de ainda vermos tão poucas mulheres pobres liderando partidos e encabeçando ou compondo as principais chapas políticas.

Por um novo país

Um projeto de um novo país precisa, necessariamente, ser centralizado nas necessidades das mulheres, porque somos nós que, ao recebermos um dinheiro extra, pensamos em investi-lo em benefício da família e da economia nacional.

O Radar Febraban revelou que "caso venham a dispor de recursos extras no orçamento doméstico, 29% (das mulheres entrevistadas) disseram que comprariam um imóvel. A aplicação de dinheiro na poupança vem em 2º lugar como destino para os recursos financeiros".

Já sabemos que Jair Bolsonaro empurrou as mulheres para o fundo do poço. Agora nos resta saber o que as candidaturas concorrentes vão propor para nos catapultar para o centro da construção das políticas sociais e econômicas para um novo Brasil.