PUBLICIDADE

Topo

Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como ser um homem aliado das mulheres e criar uma sociedade antimachista

Júlio Bernardo, criador do Boteco do JB, cedeu espaço em seu blog para denúncia de assédio e foi processado - Divulgação
Júlio Bernardo, criador do Boteco do JB, cedeu espaço em seu blog para denúncia de assédio e foi processado Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Isabela Del Monde

Isabela Del Monde é feminista e advogada. Coordenadora do movimento MeToo Brasil, cofundadora da Rede Feminista de Juristas (deFEMde) e sócia da Gema - Consultoria em Equidade

Colunista de Universa

11/11/2021 04h00

Ano passado, o crítico gastronômico Julio Bernardo, conhecido pelo seu projeto Boteco do JB, cedeu o espaço de seu blog —e, portanto, sua expressiva audiência— para que uma mulher relatasse, em suas palavras, os assédios que alega ter sofrido de um chef de cozinha. O texto é focado na perspectiva da relatante e não traz o nome do chef nem de seus restaurantes.

Mesmo assim, um chef de cozinha parece ter compreendido que o relato era sobre ele e que sua honra teria sido atingida com o conteúdo do texto "Dito Cujo", escrito pela Cavaleira do Zodíaco, pseudônimo escolhido pela autora do relato de assédio.

Esse chef queria que o texto fosse apagado, JB negou; esse chef queria então o nome da autora para poder processá-la, JB negou; o chef, diante da negativa da informação sobre a autoria, disse então que processaria JB por ter publicado o artigo. E assim o fez, processou um aliado de uma vítima já que não pode alcançar, novamente, aquela mulher.

E aqui eu faço um pequeno, mas essencial destaque. Homem aliado não é homem sem passado, não é homem que nunca foi machista ou que nunca teve comportamentos inadequados. Todas as pessoas são criadas e educadas em uma sociedade estruturalmente machista e, portanto, vão cometer ou reproduzir condutas de desprezo e desrespeito contra mulheres.

O que me interessa, portanto, não é conceder certificado de "homem bom" para aliados nem muito menos centrar o debate numa disputa entre homens bons e homens maus, porque, afinal, quem desenha essa linha? O que me interessa é difundir as estratégias que homens aliados podem aplicar para a construção de uma sociedade antimachista.

Seguindo. Uma ação judicial penal privada foi proposta contra JB. O processo não seguiu adiante porque o Ministério Público de São Paulo ofereceu a JB a possibilidade de pagar uma contribuição no valor de R$ 1.000 ao Fundo Municipal da Criança e do Adolescente (FUMCAD) em troca do encerramento do processo. O que, claro, foi aceito por JB porque enfrentar um processo penal é tudo, menos tranquilo.

Entretanto, o que veio à tona na imprensa e nas redes sociais foi uma sequência de desinformação, desde que era JB o verdadeiro autor do texto, que ele o escreveu porque ele e o tal chef seriam desafetos e de que JB foi condenado por mentir sobre o chef. Portanto, homens aliados, fica aqui a primeira lição: se protejam. Quem se alia às vítimas pode ser atingido pelas mesmas táticas de descredibilização e retaliação impostas às mulheres que rompem o silêncio.

Ser aliado exige disposição ao desconforto

Na minha opinião, há três grandes ingredientes que compõem um homem aliado: coragem, empatia e respeito. Coragem para romper com o pacto da masculinidade e arcar com as consequências dessa ruptura, como, por exemplo, a perda de trabalhos e redes de contatos. Empatia para se conectar com o relato e o trauma de uma vítima. E respeito para garantir a segurança e autonomia da vítima.

A partir de todas as informações que tenho sobre esse caso concreto, me sinto segura e confortável de afirmar que, nesse caso, JB foi um aliado. É de extrema importância preservar o sigilo de uma vítima quando ela assim o pede e pode custar caro.

Porém, eu acredito que vale muito a pena ser uma pessoa aliada às causas que não suas. Vale a pena para as mudanças que queremos ver no mundo, vale a pena para construir ambientes de trabalho mais justos, seguros e igualitários para todas as pessoas. Vale a pena se dedicar a uma realidade menos violenta, mesmo que no curto prazo isso custe sua zona de conforto.

A aliança exige disposição ao desconforto. Mas é um desconforto momentâneo em prol da construção do conforto permanente para pessoas que nunca puderam experimentar uma vida livre de assédio e objetificação, isto é, as mulheres. Obrigada, JB, pela aliança. Seguimos todas, todos e todes juntes!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL