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Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pressão popular antimachismo impulsiona guinada de gênero na CPI da Covid

Com o dedo em riste, Simone Tebet fala com Wagner do Rosário, que a chamou de "descontrolada" - Roque de Sá/Roque de Sá/Agência Senado
Com o dedo em riste, Simone Tebet fala com Wagner do Rosário, que a chamou de "descontrolada" Imagem: Roque de Sá/Roque de Sá/Agência Senado
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Isabela Del Monde

Isabela Del Monde é feminista e advogada. Coordenadora do movimento MeToo Brasil, cofundadora da Rede Feminista de Juristas (deFEMde) e sócia da Gema - Consultoria em Equidade

Colunista do UOL

22/09/2021 04h00

Quando a CPI da Covid começou, virou o novo reality show do Brasil, do qual fui e sou público cativo. Celebro demais, inclusive, a atenção popular à Comissão, o interesse dos "amigos internautas" em colaborarem com senadores e nossa vontade de ver os responsáveis pelas quase 600 mil mortes brasileiras em decorrência da pandemia de covid-19 vindo a público.

Mas, como todo reality, houve discriminação entre os participantes. A discriminação, no caso, era baseada no gênero. Já começou pelo fato de não haver nenhuma senadora como titular ou suplente na CPI. Ou seja, elas participam, fazem perguntas, se debruçam sobre pilhas e pilhas de documentos com sua equipe, mas não têm poder decisório, não votam. O famoso trabalho feito com qualidade, porém não tão bem remunerado. Alguma mulher por aí identifica?

E, nos primeiros dias de oitivas, quando ainda estava muito pouco claro quais seriam os caminhos que se abririam aos senadores-investigadores, vimos um show de close errado. As senadoras, desde o dia 1, se organizaram para estarem presentes em todas as sessões da Comissão, mesmo com a misoginia de "colegas", como Ciro Nogueira e Flávio Bolsonaro, que chegou a afirmar que as "senadoras estavam fora da CPI, sem fazer questão de estar nela".

E bom, estando elas lá todos os dias, é claro que foram agredidas verbalmente, enfrentaram a sistemática prática de homeminterrupção e, um clássico, eram chamadas de bravas e nervosas sem qualquer cerimônia quando apenas estavam falando; claro, suas ideias e linhas de argumentação também eram usurpadas na cara dura por seus "colegas".

Na minha opinião, a guinada quanto às questões de gênero se iniciou por conta de conquistas do movimento feminista, que tem ensinado há uns bons anos para toda a sociedade o que são e o que significam essas discriminações que as senadoras estavam vivendo.

A enorme atenção popular que estava concentrada nos trabalhos da Comissão passou a ser fonte de pressão antimachista, e as senadoras mostravam cada dia mais a união da bancada de mulheres.

Soma-se a tudo isso o fato de que foi a senadora Simone Tebet (MDB), e apenas ela, quem conseguiu extrair do Deputado Luis Miranda (DEM) o nome daquele deputado sobre o qual o Presidente disse que não poderia fazer nada a respeito sobre o esquema da Covaxin porque era esquema dele. O Deputado Ricardo Barros (PP), apenas o líder do Governo na Câmara.

Na minha percepção de espectadora fiel da CPI, foi, portanto, a soma da pressão popular antimachista com a descoberta obtida pela senadora Simone, a qual, acredito, só foi possível porque ela soube acolher e dialogar com os receios do deputado Luis Miranda com a revelação daquele nome. Isso consolidou a guinada de gênero da CPI e as mulheres passaram a ser respeitadas pelos colegas e pela população. Afinal, elas estavam ali todos os dias, sem serem obrigadas a tanto, e mostrando um trabalho de extrema qualidade.

Ontem (21), porém, o machismo voltou a dar o ar da graça, encontrando na senadora Simone seu alvo. Assim que comecei a acompanhar os trabalhos, já fiquei completamente chocada pois tinha acabado de ouvir o depoente, Wagner do Rosário, atual Ministro-Chefe da Controladoria-geral da União (CGU), sugerindo que a senadora Simone se calasse até o seu momento de inquiri-lo. Fiquei tão desacreditada que até fui confirmar no grupo de WhatsApp dos amigos se eu havia entendido certo e sim, tinha.

E, pois bem, ao final da inquirição conduzida por aquela mesma senadora, o depoente mandou que ela lesse novamente os documentos, numa aparição de outro clássico misógino, o palestrinha ou mansplaining (que mulher nunca ouviu de um homem que "veja bem, você não entendeu, vou te explicar direito"?). Ao perceber a misoginia, a senadora lhe respondeu que não era sua obrigação ler os tais documentos, mas que ela o teve que fazer porque o depoente não cumpriu com suas obrigações de impedir a corrupção no governo federal.

Sem qualquer hesitação ou constrangimento, o Ministro-Chefe da Controladoria-geral da União disse com todas as letras: "A senhora está descontrolada".

Mas, dessa vez, a maioria masculina ao redor, finalmente, fez o certo: apontaram o machismo, o denunciaram em seus microfones, se levantaram até a mesa da Presidência da Comissão, que foi suspensa.

A senadora Leila Barros (Cidadania) passou uma belíssima e deliciosa descompostura no senador governista Marcos Rogério, que, mesmo diante da misoginia explícita acontecendo na sua frente, quis entrar no papo furado de "os dois lados se excederam".

Ontem, na CPI, o machismo e a misoginia não compensaram. A discriminação cometida pelo depoente contra a senadora Simone, e todo seu comportamento de deboche ao longo de toda a oitiva, lhe renderam a troca da condição de testemunha para investigado. Pode levar!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL