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Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulheres na política: menos corrupção, menos morte de crianças e mais saúde

Jacinda Arden, primeira-ministra da Nova Zelândia: recorde de popularidade por ação rápida durante a pandemia  - Getty Images
Jacinda Arden, primeira-ministra da Nova Zelândia: recorde de popularidade por ação rápida durante a pandemia Imagem: Getty Images
Isabela Del Monde

Isabela Del Monde é feminista e advogada. Coordenadora do movimento MeToo Brasil, cofundadora da Rede Feminista de Juristas (deFEMde) e sócia da Gema - Consultoria em Equidade

Colunista de Universa

26/05/2021 04h00

Uma pesquisa publicada em 2018 no "Journal of Economic Behavior & Organization", realizada por Chandan Jha e Sudipta Sarangi em 125 países, revelou que governos com mais mulheres têm menores índices de corrupção. Um dado que nada tem a ver com a genética, apenas com o fato de que as mulheres, ao ocuparem cargos políticos, formulam políticas públicas que, efetivamente, melhoram a saúde, a educação e o bem-estar.

Mesmo com acesso a poder, algo que, em um primeiro momento, nos faria pensar que elas poderiam se tornar tão corruptas como os homens, isso não acontece. O estudo sugere que é justamente porque as mulheres buscam agir e construir políticas diferentes e de efetiva mudança que a corrupção não aumenta quando elas acessam o poder.

Em 2020, foi publicado na revista "Health Affairs" estudo realizado por pesquisadoras da UFBA (Universidade Federal da Bahia), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), da Universidade de Los Andes, na Colômbia, e pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) que revelou que a mortalidade infantil é menor no Brasil em todas as cidades geridas por prefeitas, independentemente de suas ideologias políticas. Entre 2000 e 2015, a taxa de mortalidade nos 3.167 municípios analisados caiu de caiu de 25,1% para 13,6% enquanto a participação feminina nessas prefeituras foi ampliada de 4,5% para 9,7%.

Já no que diz respeito ao enfrentamento da pandemia de covid-19 e à preservação de vidas, não é mais novidade que os países liderados por mulheres, como a Nova Zelândia, da primeira-ministra Jacinda Ardern, e a Alemanha, de Angela Merkel, tiveram resultados muito melhores: as pessoas se contaminaram e morreram menos e puderam contar com várias políticas públicas de contenção da crise, como testes em massa, rastreio de contato, auxílio emergencial digno, acolhimento a crianças etc.

Esses dados não são explicados pela biologia, mas sim pela cultura. Somos criadas para o cuidado, desde pequenas. Simulamos a maternidade quando brincamos de casinha, ao passo que os meninos estão simulando guerras e conflitos brincando de "lutinha" ou com brinquedos que lembram ou imitam armas. É óbvio que as linhas educacionais de cada gênero vão ter resultado direto em como mulheres e homens compreendem e agem sobre o mundo. Alguma mulher que está lendo esse texto foi ensinada a pensar em si em primeiro lugar ou em todo mundo antes e por último em si?

Isso, obviamente, traz malefícios profundos para nossa autoestima, porém também forma pessoas menos individualistas que, ao ocuparem a política, são mais preocupadas em deixar a vida de todos, e não apenas a sua, mais confortável e, por isso, seria incrível se todas as pessoas, e não apenas meninas e mulheres, fossem educadas para o cuidado com outras bem como para o autocuidado.

A tendência, portanto, é que quando estamos em cargo público, como vereadoras, deputadas e senadoras dediquemos nossos esforços para melhorar o que nos prejudica historicamente. Sabemos o peso, por exemplo, o que é ser a principal responsável pela criação de crianças e, justamente por isso, trabalhamos muito mais por escolas de qualidade. Quando melhora para mulheres, melhora para crianças e idosos, já que seus cuidados costumam, injustamente, ficar quase exclusivamente sob nossa responsabilidade.

É triste já termos acesso a esse tipo de dado de como mais mulheres na política resulta em uma vida melhor e, ainda assim, termos, por exemplo, uma CPI da Covid, para investigação de responsabilidades na condução da pandemia no Brasil, que não conta com nenhuma senadora como titular ou suplente. As mulheres foram as mais atingidas pelas escolhas de gestão da pandemia do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e, mesmo assim, não podemos falar por nós. Mais uma vez e, dessa vez, no século 21.

Esse cenário apenas vai mudar quando tivemos mais mulheres na política. Você se irrita, pula na cadeira quando ouve um senador pedindo calma a qualquer senadora que diga um mero "bom dia" na CPI da Covid? Parte da solução está nas suas mãos: em 2022, vote em mulheres para o Legislativo federal — e, se seu título eleitoral não for da cidade em que mora, lembre-se de transferi-lo e de regularizar quaisquer pendências na Justiça Eleitoral!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL