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Avião decola nos EUA com combustível feito de óleo de cozinha usado

Primeiro avião a decolar com passageiros usando combustível sustentável - United Airlines
Primeiro avião a decolar com passageiros usando combustível sustentável Imagem: United Airlines

Juliana Stern

Colaboração para Tilt, em São Paulo

01/12/2021 17h22

A empresa aérea norte-americana United Airlines realizou nesta quarta-feira (1º) o primeiro voo com passageiros sem usar combustíveis fósseis no país. No lugar, a empresa usou um combustível feito a partir de substâncias como óleo de cozinha usado e outras gorduras.

A iniciativa se torna um marco na história na aviação por ser a primeira a levar passageiros usando apenas combustível de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês, que se refere a Sustainable Aviation Fuel). As informações são do site Fast Company.

Partindo do Aeroporto Internacional O'Hare, em Chicago, para Washington (D.C) com 100 passageiros, a aeronave United 737 MAX 8 foi abastecida com 500 galões de SAF em uma de suas turbinas e a mesma quantidade de combustível convencional no outro motor para provar que não há diferenças operacionais entre os dois.

Atualmente, a regulação dos Estados Unidos só permite o abastecimento com misturas de combustíveis sustentáveis até, no máximo, 50% do total utilizado pela aeronave.

A ciência por trás do combustível sustentável

O combustível do voo de hoje, produzido pela empresa World Energy, é feito a partir de gorduras, óleos de cozinha e graxas e misturado com compostos sintetizados chamados de aromáticos que normalmente são feitos de combustíveis fósseis, mas neste caso derivados de açúcares vegetais.

Segundo a empresa, quando os primeiros combustíveis de aviação sustentáveis foram produzidos, eles precisaram ser misturados com combustíveis à base de petróleo para ter a composição química certa para atender aos padrões da indústria. Mas isso não é mais o caso por conta dos novos aromáticos à base de plantas.

O uso desses SAF reduzem as emissões de gases do efeito estufa em até 80% em comparação com os combustíveis de aviação normais.

"Este é um marco importante que demonstra que o futuro deve ser voar de forma sustentável", diz Lauren Riley, diretora administrativa de Assuntos Ambientais Globais e Sustentabilidade da United Airlines, em entrevista para o portal Fast Company.

Hoje, segundo a executiva, 98% das emissões de gases de efeito estufa nas operações da United Airlines são provenientes do consumo de combustível para jatos.

"A transição para o uso de combustíveis alternativos, como o combustível de aviação sustentável, é muito importante, porque diminui drasticamente o total de emissões dos voos", afirma Riley.

Como funciona

Em vez de ser refinado a partir do petróleo, o SAF é produzido a partir de matérias-primas sustentáveis e é muito semelhante em sua composição química ao combustível fóssil tradicional.

Assim como os usados pela empresa World Energy, os principais ingredientes primários são óleos de origem biológica usados —óleos vegetais, por exemplo —, gorduras residuais de animais ou plantas e resíduos sólidos de residências e empresas, como embalagens, papel, tecidos e restos de alimentos que, de outra forma, iriam para aterros sanitários ou incineração. Outras fontes potenciais incluem resíduos florestais e de agricultura.

Para produzi-lo, a matéria-prima, como o óleo vegetal, por exemplo, é submetida aos processos de craqueamento —também referido como pirólise— e hidroprocessamento, em que moléculas orgânicas complexas são quebradas em moléculas mais simples sob condições de alta temperatura e pressão.

Ao final são obtidos hidrocarbonetos leves e de cadeia curta, chamados SPK (sigla em inglês para querosene parafínica sintética), enquanto consegue eliminar contaminantes do combustível, como enxofre, nitrogênio ou metais pesados.

Futuro sustentável

A tecnologia já evoluiu, mas ainda existem alguns obstáculos para que todos os voos passem a usar SAF, a começar pela regulação. Nos Estados Unidos, é exigido das companhias aéreas que usam combustível de aviação sustentável que se limitem a usar uma mistura com 50% de combustível fóssil, como mencionado no início desse texto.

Uma permissão especial foi dada para o voo da United, mas impunha que um dos motores tivesse sido abastecido com combustível de jato regular, mesmo que não fosse usado.

Outro desafio é que as empresas ainda podem ter problemas com a demanda e oferta. De acordo com a diretora da United, a quantidade de combustível sustentável que a companhia tem disponível é "muito menos que 0,1% do nosso suprimento de combustível, e somos os líderes de mercado", diz Riley. "Portanto, não há o suficiente agora, e isso é inaceitável".

A companhia aérea, entre outras, está pressionando por uma nova política federal nos Estados Unidos em busca de incentivos fiscais para a produção e uso de combustíveis alternativos. Para Riley, isso daria um sinal de longo prazo aos produtores para aumentar a produção.

Ainda segundo a executiva, outras possibilidades para a aviação sustentável serão combustíveis sintéticos em vez de biocombustíveis. Aviões elétricos ou que funcionam a base de hidrogênio também estão em desenvolvimento, mas essas soluções só servirão para rotas mais curtas. "A realidade é que, pelo menos de onde está a tecnologia agora, hidrogênio e eletricidade serão mais úteis em nossos voos de curta distância. Ou seja, distâncias regionais", diz Riley.