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Burnoutados Anônimos: grupo online apoia quem sofre de esgotamento

Chris Montgomery/Unsplash
Imagem: Chris Montgomery/Unsplash

Fernando Barros

Colaboração para Tilt

05/04/2021 04h00

Foi por acreditar que ninguém merece passar sozinho pela síndrome de Burnout —ou esgotamento profissional— que a publicitária e escritora Carol Miltersteiner criou o Burnoutados Anônimos, um grupo de apoio online para pessoas diagnosticadas com a doença.

Os encontros começaram em outubro de 2020 e acontecem pelo Zoom toda última sexta-feira de cada mês de forma gratuita e confidencial, com até duas horas de duração.

Neles, os participantes compartilham experiências, aprendizados e desafios diante desse tipo de esgotamento associado ao excesso de trabalho. "As pessoas geralmente têm medo de expor que tiveram Burnout. Então, no grupo, o objetivo é que elas se sintam confortáveis para contar suas histórias", diz Carol.

Carol Miltersteiner, fundadora do grupo online Burnoutados Anônimos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Carol Miltersteiner, fundadora do grupo online Burnoutados Anônimos
Imagem: Arquivo pessoal

Com a iniciativa, a escritora espera formar uma rede de acolhimento para ajudar aqueles que enfrentam a síndrome, uma doença que, além do cansaço excessivo, tem como sintomas desde problemas físicos, como enxaqueca, dor muscular e distúrbios gastrointestinais, até efeitos emocionais, como apatia, baixa autoestima, pessimismo, sentimentos de derrota e incompetência.

Carol conhece bem de perto essa realidade. Ela teve dois episódios de Burnout nos últimos anos: um em 2015, quando trabalhava com marketing digital em Porto Alegre, e outro em 2017, trabalhando na Holanda, onde vive atualmente. A publicitária também mantém uma conta no Instagram onde fala sobre a doença e outros temas relacionados ao bem-estar.

No grupo, a ideia é que cada um tenha o seu ritmo respeitado e possa se integrar às dinâmicas aos poucos.

Das duas horas reservadas aos encontros, por exemplo, os participantes podem entrar e permanecer durante o tempo em que conseguirem ou acharem mais confortável. Se a pessoa não quiser, também não precisa ligar a câmera. "Tem gente que no início fala pouco, ouve mais, mas depois se torna quase um 'monitor do grupo', dando dicas aos outros e ensinando como lidar com determinada questão", observa Carol.

O médico psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, acredita que a intenção de grupos como o "Burnoutados Anônimos" é válida, mas não substitui o acompanhamento profissional especializado.

"É interessante notar que as pessoas têm buscado se ajudar, conversar sobre o que sentem, mas reforço a necessidade de buscar o atendimento médico psiquiátrico e psicológico antes mesmo de juntar-se a este tipo de grupo", avalia.

Ele acrescenta ainda que "é fundamental buscar sempre o atendimento adequado em saúde mental, não se autodiagnosticar ou automedicar".

Zoom contra o esgotamento

Os encontros do grupo são divididos em quatro partes conduzidas e facilitadas pela fundadora, mas ela conta que essa programação é flexível. Assim, pode ser ajustada a cada mês, de acordo com a forma como os participantes se envolvem e reagem a cada encontro. A primeira parte geralmente é dedicada a um exercício de respiração e relaxamento, para que todos se ambientem e se conectem com aquele momento.

Depois, começa a rodada de partilhas, onde cada um tem um tempo determinado para contar sobre as suas vivências. Carol explica que é o momento da palavra, onde as pessoas ficam livres para falar o que precisa. "Nessa hora, também vou mediando um pouco com algumas perguntas para encorajá-las a ter um olhar generoso e otimista sobre si mesmas e não somente relatos sobre as experiências negativas", acrescenta.

Após essa troca, acontece uma dinâmica onde é proposto um exercício de escrita. Nessa parte, os participantes são convidados a imaginar sua reação diante de determinadas situações. No encontro de fevereiro, por exemplo, o exercício foi escrever um texto que respondesse à seguinte pergunta: "o que você diria para alguém que comentou que você não é mais o/a mesmo/a?".

No fim dos encontros, cada um é incentivado a se comprometer com uma ação de autocuidado até a próxima reunião. "Uma espécie de dever de casa", brinca Carol. A escritora concorda que o Burnoutados Anônimos não substitui o acompanhamento médico nem a psicoterapia, mas é uma forma de complementar o tratamento. Quem tiver interesse e quiser participar dos encontros pode se inscrever no link.

Reconhecimento, reencontro e evolução

Iris Ribeiro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Iris Ribeiro, 30
Imagem: Arquivo pessoal

Atualmente, participam do grupo pessoas de diferentes idades, profissões e regiões do país. A paulista Iris Ribeiro, de 30 anos, é uma delas. Atuando como vendedora e acostumada a trabalhar de domingo a domingo, ela recebeu o diagnóstico de Burnout em outubro do ano passado.

"Eu sempre fui muito ativa e, quando fui diagnosticada, pensei que estaria curada em no máximo dez dias. Eu não sabia o que era a síndrome. Só depois fui pesquisar e entender que é um processo", contou a Tilt.

Buscando sobre o tema na internet, Iris descobriu as postagens de Carol sobre Burnout nas redes sociais e acabou sabendo da existência do grupo. Sua primeira participação foi em janeiro deste ano e, de lá para cá, ela conta que o Burnoutados Anônimos permitiu a ela aprender com os outros participantes e se reencontrar consigo mesma.

"Às vezes, eu me perguntava se tudo que estava passando com Burnout era coisa da minha cabeça. Mas quando comecei a ouvir outros relatos semelhantes aos meus, é como se enfim as fichas estivessem caindo", avalia. Para Iris, cada encontro é uma oportunidade de troca. "É muito bom poder conversar com quem entende sua dor porque assim a gente divide dicas, um ajuda o outro e no final todos evoluem juntos."

A paulista destaca que o fato de o grupo ser virtual é um facilitador por conta da comodidade de poder participar do conforto da sua casa, além de ter a possibilidade de se conectar com pessoas de diversos lugares.

"Com isso, faço amizades, troco contatos e conheço pessoas em diferentes estágios da síndrome. O grupo tem me ajudado muito no tratamento. Como sempre digo lá, estou com Burnout, mas não quero estar com ela a vida toda", disse.

Conscientização da Síndrome de Burnout

Além do Burnoutados Anônimos, a escritora Carol Miltersteiner promove desde o ano passado a Semana Mundial da Conscientização da Burnout, um evento online e transmitido ao vivo pelo YouTube para discutir o tema com especialistas, estudiosos e pessoas que tiveram a síndrome. No ano passado, foram 300 participantes e convidados de países como Brasil, Alemanha e Holanda. Este ano, está marcado para acontecer entre 26 de novembro e 4 de dezembro.

Segundo levantamento realizado pela representante brasileira da ISMA (International Stress Management), 32% dos brasileiros têm a Síndrome de Burnout. Como os dados são relativos a 2018, os números podem ser ainda maiores. Diante disso, a doença vem ganhando cada vez mais destaque.

Até a inteligência artificial da Amazon entrou em uma ação especial de conscientização sobre o tema em parceria com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Em 9 de fevereiro deste ano, durante todo o dia, ao ser acionada com a mensagem "Alexa, tudo bem?", a IA fazia uma alerta sobre a síndrome de Burnout e seus possíveis sintomas.