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Como seria se todos usássemos o celular ao mesmo tempo em São Paulo?

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

22/12/2020 04h00

Quando foi a última vez que você utilizou o celular para uma ligação convencional? Aquela feita pela rede de telefonia e não por meio de um app como o WhatsApp?

Dependendo do caso, essas ligações acabam tendo uma qualidade melhor de voz e som. Por outro lado, elas também estão sujeitas a interferências. A qualidade pode cair bastante, especialmente em áreas muito povoadas ou com grande fluxo de pessoas.

Mas por que isso ocorre? E mais: o que aconteceria se todas as pessoas de uma cidade como São Paulo resolvessem fazer ligações ao mesmo tempo (para outro lugar, obviamente)?

Espaço para todos?

Em termos básicos, se todos os usuários de celular de uma cidade resolvessem usar seus aparelhos para fazer ligações ao mesmo tempo, tudo dependeria do tipo de cobertura e rede utilizada.

A explicação é que, enquanto todos ficassem dentro de uma rede 4G, a tendência é que a largura de banda do sistema fosse capaz de acomodar o fluxo de dados decorrente das chamadas de voz, que ocupam muito menos banda do que o uso de internet móvel.

Em países como o Brasil, onde há redes de tecnologia antiga, como o 3G, ainda em operação, há uma certa vantagem, já que em caso de falha do 4G — ou ausência de cobertura —, o sistema de gerenciamento da rede móvel é digital e acaba migrando a conexão para essa rede mais antiga, que funcionaria como uma espécie de backup.

Caso haja uma falha generalizada no 4G, no entanto, as redes mais antigas poderiam sim formar um gargalo mediante um grande número de solicitações. Neste caso, os usuários provavelmente encontrariam situações nas quais a ligação simplesmente não completaria. Sabe quando digitamos o número, apertamos o "botão verdinho" e após um tom a chamada simplesmente não completa? Ou então, dependendo da rede, tudo que ouvimos é alguma mensagem como "A rede está indisponível, tente mais tarde? É por aí.

De qualquer maneira, esse cenário de rede congestionada só passaria a funcionar normalmente uma vez que as solicitações cessem — ou diminuam consideravelmente, deixando "vagas" na rede disponíveis.

Resumo: até que boa parte das pessoas parassem de tentar ligar, a rede em si não retornaria ao normal.

Vagas contadas

O motivo para isso está em um conceito: dimensionamento. Sendo assim, o sistema de uma cidade com 50 mil habitantes vai comportar menos usos simultâneos do que uma cidade com um milhão de pessoas, por exemplo.

Ainda assim, isso não quer dizer que a rede da cidade menor do exemplo acima comportaria 50 mil ligações simultâneas. Como forma de otimizar custos, uma rede de telefonia é criada tendo por base modelos estatísticos de uso de um local. Cada empresa, claro, utiliza padrões distintos, mas a ideia principal é unir o útil — uma rede que atenda à demanda local — ao "financeiramente agradável", criando uma estrutura que seja eficiente, mas o mais enxuta e barata possível.

E isso não é exclusividade do Brasil: trata-se de um padrão mundial.

Com o 4G, isso é mais sentido no uso de internet móvel, já que a demanda nesse tipo de uso é consideravelmente maior. Só que ao invés de existir um "travamento", como no caso das ligações, uma grande quantidade de acessos de dados em uma rede saturada acaba causando outro efeito.

Com dados é diferente

Se a sobrecarga de uma rede móvel inviabiliza o serviço de voz, o tráfego de dados nessa condição passa por um processo diferente.

O motivo para isso é a forma como esses dados são transmitidos: eles são quebrados em várias partes (pacotes), transmitidos e depois "reconstruídos" para formar informações como uma página de internet.

Então, em um momento de sobrecarga, é comum que a velocidade de conexão no caso dos dados caia consideravelmente antes de haver uma interrupção total do serviço.

O 5G vai ajudar?

Não diretamente. Na verdade, o 5G não foi criado para resolver um suposto problema de qualidade ou quantidade de chamadas de voz que uma rede pode suportar. Ele possibilita o uso de tecnologias que demandam um fluxo mais intenso de dados, especialmente quando falamos de comunicação entre máquinas.

A questão é que, uma vez que seja utilizada para redes móveis, a tecnologia 5G também permite mais velocidade e maior número de conexões simultâneas. Dessa forma, ainda que indiretamente, serviços de telefonia móvel seriam beneficiados, especialmente na velocidade de transferência de dados.

Fontes:

Marcio Mathias, professor do departamento de Engenharia Elétrica da FEI;
Julian Alexienco Portillo, engenheiro de telecomunicações e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica