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O que significa pesquisa para "ler" cérebros de soldados durante guerras

Marcel Lisboa/UOL
Imagem: Marcel Lisboa/UOL

Thiago Varella

Colaboração para Tilt

11/12/2020 04h00

Em uma guerra, soldados sofrem privação de sono, racionamento de comida, exaustão e tensão, entre outras consequências físicas e, sobretudo, mentais. Qualquer vacilo pode significar a própria morte ou a de companheiros. Mas cientistas estão bem perto de descobrir com antecedência se um soldado está, por exemplo, exausto ou estressado usando apenas os sinais cerebrais do combatente.

Essa pesquisa pode se desenvolver ao ponto de fazer os soldados se comunicarem sem falar uma palavra. O algoritmo simplesmente pode separar os sinais cerebrais da fala e decodificá-los. Imagina só a vantagem que um exército com uma tecnologia dessas pode ter sobre outro.

Um grupo de pesquisadores financiados pelo U.S. Army Research Office, escritório do Pentágono responsável pelas inovações do exército norte-americano, conseguiu separar os sinais cerebrais que influenciam uma ação ou um determinado comportamento daqueles que não servem para isso. Isso foi feito usando matemática avançada e um novo algoritmo.

Segundo Hamid Krim, principal responsável pela pesquisa no Army Research Office, o cérebro dá sinais de cansaço antes que a pessoa, de fato, tome uma ação. Isso pode ser percebido por um computador, por exemplo, em uma guerra, e a resposta do cérebro pode ajudar a proteger a saúde e até a vida dos soldados. "Não estamos apenas medindo sinais, mas interpretando também", afirmou Krim em entrevista ao site C4isrnet.

No experimento de laboratório, os pesquisadores monitoraram os sinais cerebrais de um macaco que tinha de pegar uma bolinha repetidas vezes. A partir daí, conseguiram separar seus sinais cerebrais que indicavam a ação de pegar a bolinha dos demais. Ou seja, a separação dos tais sinais cerebrais já foi feita, mas daí a conseguir usar isso em uma situação de guerra vai um longo caminho.

A identificação de sinais cerebrais não é algo tão novo. Pesquisas neste sentido têm sido feitas há algum tempo. Aqui no Brasil mesmo, o neurocientista Alvaro Machado Dias, que também é colunista de Tilt, já conseguiu transformar frequências cerebrais em arte lá em 2013. Usando apenas a força do pensamento, seis pessoas que vestiam um capacete equipado com eletrodos fizeram um vídeo. Tudo o que os artistas precisavam fazer era repetir o padrão de pensamento que um algoritmo transformava isso em padrões de imagem e som.

Segundo Machado Dias, a diferença agora é que um algoritmo mais avançado permite filtrar os sinais cerebrais de uma maneira muito mais precisa do que antes.

"Essa filtragem se dá em tempo real. A outra pessoa precisa usar um capacete de eletroencefalografia e, aí, é possível estimar, com uma boa dose de precisão, a probabilidade desse sujeito agir ou não", explicou.

Uma pesquisa como essa suscita duas questões. A primeira é ver como a neurociência, que já foi vista como algo esotérico até, passou a ser popular, mesmo dentro de um ambiente conservador como o militar.

"Há uma maior confiabilidade sobre a 'leitura' de pensamento. Já estamos vendo, por exemplo, acessórios sendo colocados em bancos de automóveis para ver se o motorista está concentrado enquanto dirige. A neurociência está se tornando cada vez mais 'mainstream'. É o novo normal", afirmou Machado Dias.

Mas, principalmente em relação a pesquisas militares, a segunda questão é se o uso de tecnologia nas forças armadas de países avançados aprofunda o que Machado Dias chama de assimetria do sofrimento. Isso porque pode existir uma diferença tecnológica muito grande entre dois exércitos diferentes em uma guerra, o que se pode se traduzir em poucas baixas de um lado e um número elevadíssimo de mortes do outro.

"A neurociência está se tornando 'mainstream', mas deixou de ser ligada apenas ao bem intrínseco, o bem por definição. A gente está saindo do uso em um âmbito mais clínico e entrando em áreas que o uso pode ser controverso. Já há pesquisas com exoesqueleto em campos de batalha. Os soldados podem aguentar muito mais peso, por exemplo, sem se cansar. Isso cria assimetria na guerra", frisou.

A mente é o limite

E isso pode ir além. Se já é assustador drones militares assassinando pessoas, esses aviões não-tripulados poderão, um dia, ser comandados por pensamentos. Já existem experimentos nesse sentido. Há quatro anos uma competição na Universidade da Flórida envolveu 16 pilotos pilotando drones com interfaces cérebro-computador em um percurso de apenas dez metros.

A indústria farmacêutica também está preparando drogas para fazer soldados esquecerem experiências traumáticas de guerra, segundo artigo publicado em 2014 na revista "Biological Psychiatry" por um pesquisador da Universidade de Nova York. Além disso, a Darpa, agência do Departamento de Defesa dos EUA, financia pesquisas de implantação de chips cerebrais. Há muito a se desenvolver nessa área, para o bem ou para o mal.