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Matchs sem humanos: programadores usam IA para automatizar Tinder

Marcel Lisboa/UOL
Imagem: Marcel Lisboa/UOL

João Paulo Vicente

Colaboração para Tilt

01/05/2020 04h00Atualizada em 25/06/2020 12h44

Imagine a cena: você dá um belo match no Tinder, começa uma conversa interessante e encontra a pessoa ao vivo. Só aí descobre, no entanto, que você estava interagindo com um robô nas duas primeiras etapas dessa história.

(Em época de coronavírus, vale ressaltar que a terceira etapa também não deveria sair da ficção.)

Se esse cenário é incômodo ou não, vai depender da opinião de cada um, mas ele já é realidade. Conforme a inteligência artificial substitui os humanos nas atividades do dia a dia, alguns programadores têm dado um passo além: terceirizar para algoritmos as curtidas em apps de paqueras.

Grosso modo, os algoritmos são treinados com um grande banco de dados com fotos de pessoas que interessam o usuário. A partir daí, a inteligência artificial compreende o perfil de interesse e passa a curtir ou não os perfis do aplicativo com base nisso. Em alguns casos, há até programas que iniciam a conversa por conta própria.

"Para um especialista, não é tão complicado desenvolver isso. Tem várias técnicas já prontas em que é possível fazer pequenas alterações e chegar nesse tipo de resultado", explica Eric Oakley, especialista em inteligência artificial e cofundador da OPD, consultoria que desenvolve soluções para o mercado.

"Existe uma técnica chamada 'transfer learning', por exemplo, que já é treinada em reconhecer imagens e está disponível. Basta adaptá-la para um problema, como decidir se uma pessoa casa com suas preferências sou não", diz ele.

As máquinas também paqueram

Tentativas de automatizar o Tinder são antigas: ainda quando era recém-lançado, era fácil encontrar aplicações que curtiam todos os perfis com que um usuário cruzava.

Essa prática subiu de patamar com Bernie IA, lançado em meados de 2016. Desenvolvido por um programador chamado Justin Long, Bernie usava inteligência artificial para ir além das curtidas indiscriminadas e dar a máquina o poder de fazer uma seleção a partir do gosto do seu criador.

No site do projeto, Justin disse que em 2014 estava frustrado com a dificuldade de dar matchs, por isso decidiu automatizar o processo de encontrar um amor. E, deu certo: ele achou uma namorada com o Bernie IA. Além disso, abriu o código do programa, o que permitiu a outros programadores fazerem suas próprias versões.

Jeffrey Li, criador de uma dessas versões, contou ao portal Mashable uma razão semelhante para tomar essa decisão: estava entediado e não conseguia dar match com ninguém. Enquanto isso, mulheres amigas de Li viviam mergulhadas neles.

Na verdade, essa percepção é endossada por uma pesquisa de 2016 que mostra como mulheres têm 25 vezes mais matchs do que homens em apps como o Tinder —o que talvez explique porque todos os pessoas interessadas em automatizar o uso da plataforma sejam homens.

De qualquer forma, Li programou seu bot para curtir 100 pessoas por dia. Em uma semana, ele conseguia cinco matchs. No fim das contas, desistiu da ideia. Mas o código do TinderAutomation, como batizou o programa, ficou no GitHub. Comentários recentes, no entanto, dão a entender que ele já não funciona mais.

"Você precisa controlar a tela de algum jeito. Existem emuladores, por exemplo, que simulam o aparelho celular no computador e aí você automatiza como se literalmente tivesse uma pessoa usando o aplicativo", afirma Eric.

A obsessão pelo Tinder

O Tinder é o app preferido na maior parte dos casos de automação por dois motivos: ele é o serviço de relacionamento mais popular —ou pelo menos o mais famoso. E sua interface simples favorece o uso da inteligência artificial.

Há, quem não fique satisfeito em terceirizar uma curtida e vá além, ao usar chatbots para também terceirizar a conversa com seus crushes.

O desenvolvedor Robert Winters disse ao Mashable que chegou a manter 200 conversas por meio de chatbot ao mesmo tempo. Para isso, usava árvores de conversação —uma técnica simples em que a conversa segue uma linha mais ou menos pré-definida. O Tinder acabou o banindo.

"A ideia é ter uma lista de cantadas padrões, por exemplo, selecionadas aleatoriamente, trocar três ou quatro mensagens e passa número de WhatsApp, alguma coisa assim", diz Eric.

Há possibilidade de criar conversas mais complexas a partir de NLP (sigla em inglês para Processamento de Linguagem Natural), um conjunto de técnicas usado, por exemplo, em softwares que completam de forma automática frases que uma pessoa começa a digitar.

"No caso do Tinder, não imagino que você vá querer usar algo assim porque as respostas poderiam ser muito imprevisíveis. São frases bem escritas, mas sem contexto ou sequência lógica. Para que te substitua com alguma eficácia, você teria que treinar o modelo com um volume muito grande dos seus próprios dados e conversas", explica.

E eu com isso?

Thiago Ferreira Lion, doutor em filosofia na Unifesp e que prepara um livro sobre como a digitalização da vida afeta a produção e política, escreveu um ensaio em que situa os aplicativos de paquera em um processo de atomização da sociedade.

"A atomização aparece mais como fruto do desenvolvimento do mercado em todas as áreas da vida. A forma tradicional da família se dissolve e todos agora devem trabalhar, ter sua própria conta bancária, formando uma subjetividade mais individualista e atomizada, isso é, menos conectada via relações tradicionais e mais via a impessoalidade do mercado", diz.

Para ele, a automação do Tinder com inteligência artificial não enfraqueceria os laços entre as pessoas, Mas há a possibilidade de que um dos lados se incomode com esse cenário.

"Para além da perspectiva distópica que nos vem à cabeça com a imagem de bots conversando uns com os outros, essa automatização me parece mais um resultado do nível de atomização e impessoalidade que chegamos, mas que opera quase que como um protesto contra ele", explica.

Ele traça um paralelo com a saúde: seria preferível ter um sistema universal eficiente do que ser obrigado a escolher entre dezenas de opções que não atendem à necessidade real de uma pessoa.

"A satisfação não está simplesmente na ampla e irrestrita liberdade de escolha, mas na disponibilidade de algo que de fato as satisfaçam", continua Thiago.

Por outro lado, uma das críticas a esse modelo é comum: a criação de vieses de escolha. Ao terceirizar para o programa as curtidas, é provável que ao longo do tempo os parceiros escolhidos se tornem homogêneos.

"Nossos interesses e desejos mudam com o tempo, enquanto a matemática reafirma com base em acontecimentos passados", diz o pesquisador. "Quando nos interessamos muito por algo ou alguém, se é para essa coisa realmente capturar nosso interesse, ela tem que ser algo de novo e não uma mera repetição do que já foi. Nesse sentido essa automatização me parece reforçar o distanciamento inicial e a 'mágica' que permeia os encontros fortuitos."

Não tá fácil nem no Tinder. Pelo menos, por enquanto, o coronavírus está aí para adiar por alguns a hora de encontrar os matchs. Sejam eles reais ou robôs.