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Facebook parece que não sacou a gravidade do boato no WhatsApp e não reage

Mark Zuckerberg foi convidado a participar de sabatina, maas recusou o convite - Gabriel Sainhas/AFP
Mark Zuckerberg foi convidado a participar de sabatina, maas recusou o convite Imagem: Gabriel Sainhas/AFP

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

27/11/2018 13h11

Já existem várias provas de que o WhatsApp tem sido extremamente usado para espalhar notícias falsas. No Brasil, o aplicativo foi amplamente usado para propagar boatos durante as eleições deste ano— os brasileiros foram impactados por mais de 4,8 milhões de informações falsas compartilhadas principalmente via WhatsApp.

Só que parece que o Facebook, dono do serviço de mensagens há quatro anos, ainda não tem ideia da gravidade do problema e como lidar com ele. Essa foi a impressão dada por Richard Allan, vice-presidente de soluções de políticas do Facebook, durante sabatina realizada nesta terça-feira (27) no Parlamento britânico que reuniu políticos de nove países.

O encontro foi organizado para que o Facebook pudesse esclarecer dúvidas de como a rede social tem combatido o grave problema da disseminação de notícias falsas. Mas o uso do WhatsApp acabou fazendo parte da audiência.

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O deputado brasileiro Alessandro Molon (PSB), que foi relator do Marco Civil da Internet, foi o representante do Brasil na audiência de hoje. Um de seus questionamentos foi sobre o que a empresa está fazendo para prevenir que o WhatsApp seja usado para disseminação em massa de notícias falsas.

Em resposta, Richard Allan não disse o que a empresa tem feito ou pretende fazer, mas afirmou que a relação do aplicativo com a integridade de eleições ainda está sendo construída.

"Estamos agora construindo o WhatsApp ao pensar em integridade nas eleições. Eu acho que precisamos de uma discussão aberta sobre isso. Tem algo diferente entre a regulamentação que afeta espaços públicos [como as páginas do Facebook que são públicas] e outra que regulamenta conversas privadas entre duas pessoas ou em pequenos grupos", comentou.

"Acho que tem novos desafios que precisamos olhar, mas não queremos que nenhum de nossos serviços sejam usados para esse comportamento manipulador. Nós queremos que as pessoas se comuniquem abertamente, não queremos nossos serviços sendo manipulados de forma inapropriada", concluiu.

O deputado brasileiro também aproveitou para perguntar o que o Facebook em si tem feito para impedir a manipulação ilegal de eleições.

Sobre isso, o executivo do Facebook destacou que a rede social pretende impedir que o seu algoritmo recompense conteúdos sensacionalistas, por exemplo. Além disso, lembrou que a empresa tem parceria com checadores de fatos. "Se um conteúdo é marcado como falso, sua distribuição é reduzida", lembrou.

Zuckerberg não foi mesmo

A ausência de Mark Zuckerberg, executivo-chefe do Facebook, no encontro com os políticos dos nove países mais do que evidenciada nesta terça.

Uma cadeira foi reservada especialmente para o fundador do Facebook. No entanto, ele não compareceu.

A recusa de Zuckerberg em aceitar o convite do Parlamento britânico para o grande encontro internacional foi feito na última semana. Mas parece que os legisladores tinham esperança de que o executivo comparecesse. Ou não.

Talvez a decisão de manter uma cadeira para Zuckerberg pode ter sido feita com o objetivo de reforçar que a recusa não pegou muito bem. Vai saber.

O ponto é que Richard Allan, vice-presidente de soluções de políticas do Facebook, foi enviado em seu lugar para responder a duras perguntas feitas pelos participantes.

O executivo chegou a pedir desculpas pelo não comparecimento de Zuckerberg, afirmando que a decisão "não era ótima".

Charlie Angu, vice-presidente do Comitê de Acesso à Informação, Privacidade e Ética do Canadá, afirmou que estava "profundamente desapontado" com a ausência, bem lembrou o site Business Insider.

Conversas criptografadas, bolhas e grupos, boatos enviados por amigos, planos de 3G: tudo isso transformou o WhatsApp no vilão da eleição

Entenda

Como foi a audiência

A audiência realizada no Parlamento britânico foi marcada para discutir a gravidade das notícias falsas e o que o Facebook tem feito para impedir que elas sejam disseminadas.

Ao todo, 24 representantes da Argentina, Brasil, Canadá, Irlanda, Letônia, Cingapura, França, Bélgica e Reino Unido participaram do encontro. Eles puderam fazer várias perguntas ao executivo da rede social. Muitas delas se debruçaram sobre o uso do Facebook para a propagação de informações falsas.

O que um biquíni tem a ver com o caso?

Um aplicativo chamado Pikini, que permitia encontrar fotos de pessoas usando biquínis, se tornou o centro de mais uma polêmica envolvendo o Facebook neste ano. O fundador da extinta empresa norte-americana Six4Three, criadora do bizarro programa, foi obrigado a entregar documentos confidenciais da rede social ao Parlamento Britânico dias antes da audiência de hoje.

O conteúdo dos documentos não foram divulgados, mas a suspeita é de que eles contenham revelações importantes sobre as decisões do Facebook em relação aos dados e a privacidade dos usuários da rede social diante do escândalo da Cambridge Analytica, quando dados de 87 milhões de pessoas que usavam o Facebook foram usados indevidamente para propaganda eleitoral personalizada - inclusive durante a eleição de Trump, e do Brexit? Isso deve voltar ao debate.

Além disso, eles teriam cópias de emails confidenciais trocados entre os principais executivos do Facebook, incluindo o de seu fundador Mark Zuckerberg.

A apreensão dos documentos internos do Facebook pelo Parlamento britânico causou um certo desconforto para a rede social, que formalizou um pedido para que o conteúdo dos arquivos não seja divulgado ao público, já que eles estão em segredo de Justiça.

Apesar disso, Damian Collins, responsável pela comissão do Parlamento que organizou a audiência com o executivo do Facebook, defende que os documentos e que qualquer decisão sobre isso deve se basear em leis britânicas, e não na dos Estados Unidos. De qualquer forma, o conteúdo não foi revelado durante o encontro de hoje.