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OPINIÃO

Lá vem o asteroide e tudo bem: por que notícias de ciência geram alarmismo?

Imagem de tempestade solar registrada por sonda da Nasa Imagem: Nasa/ SDO/ AIA
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Thiago Signorini Gonçalves

03/02/2022 04h00

Quando podemos esperar uma tempestade solar? Um estudo recente liderado por Chiara Paleari, da Universidade de Lund, na Suécia, mostrou que uma das tempestades mais violentas da história aconteceu há 9200 anos. Surpreendentemente, o evento aconteceu durante um mínimo do ciclo solar.

Os cientistas analisaram a quantidade de isótopos de berílio e cloro no gelo da Groenlândia e da Antártida. Essas variantes dos átomos mais comuns são produzidas pela incidência de raios cósmicos, e métodos de datação mostram com precisão o momento em que foram produzidos. Com quatro vezes mais isótopos produzidos nestes anos, a explicação mais provável é uma tempestade solar.

No entanto, o fato de que isso tenha acontecido durante um mínimo solar surpreendeu os pesquisadores.

Sabemos que o Sol tem um ciclo de 11 anos, com variações periódicas da sua atividade magnética. As tempestades são causadas por instabilidades no campo magnético e subsequente emissão de plasma solar, e por isso esperaríamos que as piores tempestades acontecessem em períodos de máxima atividade.

Quando o jornalismo científico exagera

Algumas notícias sobre esse resultado ressaltaram os riscos associados às tempestades, e como a descoberta enfatiza a imprevisibilidade desses eventos.

É verdade que um tempestade solar mais intensa pode nos afetar de forma mais grave. Em 1859, por exemplo, ocorreu o evento de Carrington, a tempestade mais violenta da era moderna já registrada. Foram registradas faíscas e incêndios em diversos sistemas de telégrafo.

Hoje, com a extensa rede elétrica e de telecomunicações das quais dependemos, o estrago causado por um evento semelhante poderia ser grande, com apagões e queda de internet em todo o globo.

No entanto, eu não diria que essa nova pesquisa deva nos alarmar.

É, sim, um resultado inesperado, mas isso não significa que devemos nos preparar para uma catástrofe mundial a qualquer momento.

O problema aqui, a meu ver, é a necessidade de reportar resultados científicos através do seu impacto cotidiano imediato.

Como a astronomia pode parecer distante para muitos, a solução é demonstrar como isso pode nos afetar.

É o mesmo com os asteroides, com manchetes que mencionam pedras gigantes que poderiam nos exterminar passando "próximas" à Terra.

O que é explicado apenas depois, no entanto, é que essa proximidade pode ser de dezenas de vezes a distância da Terra à Lua, por exemplo, e não representar qualquer perigo de colisão.

Ainda assim, não quero culpar jornalistas pelo alarmismo. Afinal, há sempre um lado positivo em ter a oportunidade de discutir a astronomia na imprensa. O problema aqui, mais profundo, é uma visão generalizada de como a ciência deve ter uma aplicação prática.

O público hoje, muitas vezes, rejeita a ciência básica como sendo inútil, e vê apenas a importância da pesquisa científica quando produz resultados práticos, imediatos.

Infelizmente, essa é uma visão enviesada da ciência, e que descarta o valor da ciência como forma de compreender a natureza e suas origens, e nosso lugar no universo.

A única solução é comunicar, mais e mais. Mostrar à sociedade como estamos sempre descobrindo mais sobre o universo, as estrelas, as galáxias, e compartilhar o fascínio por essa área de estudo.

Para que não pensem que a astronomia é simplesmente o estudo do que pode vir do espaço para nos exterminar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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