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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Busca por vida e voo de drone: o que o robô da Nasa vai fazer em Marte?

Ilustração do rover Perseverance no solo marciano. O pouso é esperado para as 17:55 desta quinta (18 de fevereiro) - Nasa
Ilustração do rover Perseverance no solo marciano. O pouso é esperado para as 17:55 desta quinta (18 de fevereiro) Imagem: Nasa
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

18/02/2021 04h00Atualizada em 18/02/2021 19h18

É hoje! Por volta das 18h, o veículo Perseverance da Nasa chegará a Marte, pousando na cratera Jezero. O robô de cerca de uma tonelada seguirá os passos de seu antecessor, o Curiosity, que chegou ao planeta vermelho em 2012 e, surpreendentemente, continua em operação.

A nova missão tem como objetivo estudar a superfície de Marte e investigar a possibilidade de habitabilidade e existência prévia de vida ali.

Com um design bastante semelhante ao Curiosity, a Perseverance é como uma versão 2.0, um upgrade com instrumentos mais sensíveis e capacidade melhorada de locomoção.

Usando o mesmo sistema de energia com uma bateria nuclear — que inclusive aproveita peças sobressalentes de seu antecessor — a missão chega a Marte e começa seu trabalho após uma viagem de quase sete meses.

O rover carrega consigo sete instrumentos científicos, que vão sobretudo analisar amostras do solo marciano, investigando a sua composição e buscando possíveis sinais de vida. São espectrômetros de raios-X, câmeras de alta resolução e lasers ultravioleta que determinam propriedades geofísicas das rochas coletadas e são capazes de detectar eventuais compostos orgânicos.

Além disso, o Perseverance tem uma capacidade inédita: serão até 43 amostras coletadas em tubos e deixadas no solo marciano. Essas amostras poderão ser recolhidas e trazidas de volta à Terra por missões futuras. Resta saber se a Nasa vai conseguir enviar uma missão de resgate para os tubos nos próximos anos.

Por fim, um teste muito interessante: a missão leva também o pequeno drone Ingenuity, de menos de 2 kg. Mais que um instrumento científico, o drone é um experimento tecnológico. Se obtiver sucesso, será o primeiro instrumento humano a voar sobre um planeta que não a Terra.

Companheiros marcianos

É importante notar que o Perseverance não chega sozinho a Marte. Ele vai "acompanhado" de duas outras missões espaciais, a Tianwen-1 chinesa e a Missão a Marte dos Emirados, da Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos. Todas aproveitaram a janela de lançamento de julho e chegam ao planeta com cerca de uma semana de intervalo.

Enquanto a missão dos Emirados Árabes não realizará um pouso, levando apenas o satélite Hope (esperança, em inglês) para estudos atmosféricos e meteorológicos, a chinesa leva consigo um rover movido a energia solar, com objetivos semelhantes ao Perseverance.

O veículo chinês, no entanto, vai pousar apenas em maio. Até lá, a missão vai sobrevoar a superfície de Marte, buscando o melhor ponto de pouso.

E o Brasil? Por que não entramos nessa corrida também? Claro, na atual conjuntura econômica é difícil pensar em um investimento de quase US$ 3 bilhões (custo estimado da missão da Nasa) em um projeto científico desse porte.

Mas esse não é o único problema. Esse tipo de missão requer um planejamento prolongado, de pelo menos uma década de investimento constante.

Se quisermos buscar protagonismo científico —não apenas na astronomia, mas em todas as áreas— precisamos então pensar na ciência brasileira a longo prazo, sem a suscetibilidade a diferentes partidos ou presidentes.

A ciência deve ser um projeto de estado, e não um plano de governo.

Você pode acompanhar a amartissagem ao vivo no canal de Youtube da Nasa.