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Por que Vênus é o último lugar em que imaginaríamos encontrar vida?

Imagem de Vênus passando diante do Sol feita pelo satélite de observação solar Hinode - JAXA/Nasa/Hinode
Imagem de Vênus passando diante do Sol feita pelo satélite de observação solar Hinode Imagem: JAXA/Nasa/Hinode
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

17/09/2020 04h00

O anúncio da descoberta de fosfina na atmosfera de Vênus agitou o mundo científico nesta semana. Esse é um dos sinais mais convincentes da possibilidade de existir vida fora da Terra, já que é difícil explicar a existência dessa molécula sem a presença de organismos vivos.

No entanto, o próprio planeta que abriga os sinais também parece surpreendente. Vênus não é exatamente o local mais ameno do Sistema Solar, com temperaturas em sua superfície que chegam a quase 500 graus Celsius, quente demais para qualquer forma de vida conhecida na Terra.

Essa temperatura acontece não pela proximidade ao Sol — Mercúrio está mais próxima da nossa estrela e nem por isso é tão quente — mas pelo efeito estufa. A atmosfera de Vênus é quase totalmente composta de dióxido de carbono, que aprisiona o calor que recebe elevando a temperatura do planeta.

Por outro lado, o próprio cientista e divulgador norte-americano Carl Sagan já havia discutido a possibilidade de vida em Vênus; não na sua superfície, mas suspensa nas camadas superiores da atmosfera do planeta. Nesse sentido, é interessante notar que a descoberta de fosfina aconteceu a uma altitude de 50 quilômetros em relação ao solo venusiano, onde a temperatura é semelhante à terrestre.

Na verdade, outros lugares no Sistema Solar pareciam laboratórios mais interessantes para os cientistas. Titã, a maior lua de Saturno, tem uma quantidade considerável de metano em sua atmosfera, o que chegou a ser considerado um possível sinal de vida no passado.

Europa, uma lua de Júpiter, também era um bom candidato. O corpo celeste pode abrigar um enorme oceano de água salgada sob sua superfície gelada, e a missão da Nasa Europa Clipper, com lançamento previsto ainda para a década de 2020, vai sobrevoar a lua e examinar com cuidado a composição da superfície para entender melhor sua estrutura.

Por fim, existe uma questão estatística. Temos apenas oito planetas no Sistema Solar, mas com os avanços tecnológicos das últimas décadas, já descobrimos 4.000 exoplanetas (planetas que orbitam outras estrelas), de uma estimativa de bilhões de planetas em toda a galáxia.

Contando com a ajuda da probabilidade, astrônomos dedicaram muito tempo nos últimos anos ao desenvolvimento de instrumentos que pudessem encontrar sinais de vidas nesses mundos distantes. Um dos melhores exemplos é o telescópio espacial James Webb, com lançamento marcado para 2021; um dos seus principais objetivos é encontrar sinais de vida na atmosfera de exoplanetas.

Por isso tudo, é uma surpresa encontrar algo semelhante aqui do lado, em um ambiente que sempre consideramos tão inóspito. Carl Sagan era realmente um pioneiro, talvez mais até do que imaginávamos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.