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Bora fazer um RG sideral: quem é que dá nome para as estrelas?

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Imagem: Pixabay
Tiago Jokura

Tiago Jokura é jornalista e, portanto, curioso profissional. Passou os últimos 15 anos respondendo as dúvidas mais complexas e inusitadas dos leitores na mídia impressa ? na tentativa infinita de explicar como o mundo funciona com clareza e bom humor. Agora, continua essa saga aqui no UOL. Mande sua pergunta cabeluda que ele faz questão de pentear.

16/03/2020 04h00

Pergunta de Lívia Deorsola, de São Paulo (SP) - quer enviar uma pergunta também? Clique aqui

É uma longa história, Livita. Tudo começou bem espalhado no tempo e no espaço, assim como as estrelas pelo Universo. Na Antiguidade, cada povo nomeava o céu que via (porque em cada parte do planeta ele é diferente) da maneira que bem entendesse, agrupando estrelas à vontade e até batizando algumas formas que enxergavam no vazio entre elas. Quem registrou e sistematizou os nomes dessas estrelas e grupamentos estelares fez com que eles se perpetuassem e se popularizassem, como foi o caso dos babilônios, sumérios e, sobretudo, dos gregos.

Nomes populares até hoje, como Andrômeda, Cassiopeia e Órion (constelação que abriga a Betelgeuse, estrela que pode explodir em breve), são heranças das observações dos gregos, compiladas por Ptolomeu no tratado matemático-astronômico Almagesto, publicado no século 2. A obra do grego listava 1.022 estrelas e 48 constelações, incluindo a Ursa Maior, que é um bom exemplo de como cada povo lia as estrelas do seu jeito. O conjunto formado pelas sete estrelas mais brilhantes da constelação, descrito pelos egípcios como o pernil de um boi, era chamado de "Carro de Odin" pelos nórdicos, de "Os Sete Sábios" pelos indianos, de "Caçarola" na França e de "Arado" na Inglaterra.

De lá para cá, várias catalogações surgiram, incluindo as do alemão Johann Bayer (1572-1625) - que, por meio de seu atlas Uranometria, de 1603, mapeou toda a esfera celeste conhecida - e do britânico John Flamsteed (1646-1719), fundador do Observatório de Greenwich. O francês Jérôme Lalande (1732-1807) e o americano Benjamin Gould (1824-1896) também deram contribuições relevantes para a catalogação estelar. São tantos olhares, através de tanto tempo, que o que não falta hoje são variados documentos nomeando as estrelas, cada um com o seu critério (tipo de estrela, intensidade do brilho e coordenadas são alguns deles). Por causa dessa profusão de listas, não é raro que estrelas estejam registradas com mais de um nome, figurando em vários catálogos.

"Hoje em dia, quem dita as regras sobre como nomear a estrelas é a União Astronômica Internacional (UAI)", afirma o astrônomo Ricardo Ogando, do Observatório Nacional. Essa sociedade científica, fundada em 1919, é a responsável por reunir e padronizar os nomes não só de estrelas, mas de planetas, de aglomerados estelares, de luas, de asteroides, de cometas e até de crateras, de montanhas e de outros acidentes geográficos situados em corpos celestes. Aliás, em 1922, a UAI somou mais 40 constelações às 48 de Ptolomeu, estabelecendo as 88 atualmente reconhecidas.

Mas não pense que o trabalho da UAI é criativo como o da Polícia Federal brasileira nomeando suas operações - lembra da "Operação Galáticos"? No caso dos RGs siderais, as identificações estão mais para sopas de letrinhas. Considerando apenas as estrelas, são duas as maneiras de identificá-las. Para os leigos, cada uma tem seu nome popular (ou vários, que a UAI está tentando padronizar). Para os astrônomos, por sua vez, elas atendem pela "designação": um código alfanumérico que pode informar suas coordenadas de localização ou se elas têm uma companheira, por exemplo. "É importante lembrar, porém, que como são bilhões de estrelas já observadas, é impossível dar um nome próprio, como Sirius ou Aldebaran, para todas elas", diz Ogando.

Para colocar ordem nos nomes populares, a UAI reuniu, em 2016, um comitê de astrônomos, o Grupo de Trabalho para os Nomes de Estrelas (WGSN, na sigla em inglês). O objetivo era universalizar as grafias dos nomes já existentes e definir novos nomes para estrelas recém-descobertas.

O WGSN estabeleceu alguns parâmetros para os novos nomes, dos quais destaco alguns:

  • Ter entre 4 e 16 letras (quanto mais curto melhor);
  • Evitar nomes de pessoas (a não ser que a importância histórica do sujeito para o mundo justifique)
  • Não ser ofensivo nem conter teor comercial;
  • Não remeter a nenhuma atividade política ou militar.

Por ocasião de seu centenário, a UAI decidiu ficar mais pop em 2019 e promoveu uma votação popular para que 79 países nomeassem, vejam só, um minissistema cada, composto por uma estrela e um exoplaneta que a orbitasse. No Brasil, os vencedores de uma enquete online, aberta ao público, foram Tupi (para a estrela HD23079) e Guarani (para o exoplaneta), deixando para trás outras referências indígenas, como Tupã e Jaci, e literárias, como Capitu e Bentinho (de "Dom Casmurro"), Macunaíma e Muiraquitã (de "Macunaíma"), Riobaldo e Diadorim (de "Grande Sertão: Veredas") e Ceci e Peri (de "O Guarani").

Essa iniciativa também faz parte de uma política da UAI para que haja mais diversidade linguística nos nomes das estrelas, reforçando, simbolicamente, que cada povo tem um céu particular para chamar de seu. A ideia da entidade é que idiomas não contemplados na lista de estrelas batizadas sejam incluídos ao longo do tempo.

Por fim, a UAI adverte, por meio de seu site, que a entidade não endossa a prática, adotada por algumas empresas picaretas, de vender registros de nomes para determinadas estrelas. Se vierem com esse papo para o seu lado, não aceite. O céu é de todos.

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