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Pedro e Paulo Markun

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quanto vale uma roupa digital no metaverso? A resposta começa a surgir aqui

Caminhamos no Distrito da Moda no Decentraland, que vai reunir várias grifes de luxo do mundo real - Arquivo pessoal
Caminhamos no Distrito da Moda no Decentraland, que vai reunir várias grifes de luxo do mundo real Imagem: Arquivo pessoal
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Pedro Markun e Paulo Markun

Pedro Markun é hacker e ativista pelos dados abertos, pai da Maria e da Tereza e trabalha com transparência e participação política. Criou o Laboratório Hacker, o Ônibus Hacker e o Jogo da Política. É autor dos livros para crianças "Quem Manda Aqui?" e "Eleição dos Bichos", além de desenvolvedor Python, fuçador de Arduino e um entusiasta do futuro. Paulo Markun é jornalista e escritor, tem três filhos e quatro netas. Nasceu em 1952 e é jornalista desde 1971. Já fez de tudo um pouco (jornal, revista, rádio, televisão e internet), criou veículos de comunicação, dirigiu outros tantos. Agora, na casa dos 70 anos, Oculus no rosto, busca as portas de entrada para a terra prometida pela tecnologia que, espera, não será apenas dos nativos digitais.

Colunistas do UOL

13/03/2022 04h00

Dentro de poucos dias - entre 24 e 27 de março, o metaverso vai sediar o primeiro grande desfile de moda. Os colunistas vão acompanhar a Fashion Week no Metaverso, com seus múltiplos desfiles envolvendo diversas marcas famosas como Tommy Hilfiger, Dolce & Gabbana e Paco Rabanne.

Mas desde logo é preciso alertar: como boa parte das coisas que envolvem o metaverso nesse momento, é difícil precisar o que é jogada de marketing e participação no 'hype' e o que é, de fato, a construção gradual de um novo espaço de interação digital global, em que muita gente enxerga o futuro das nossas relações.

Outro desafio da coluna é tentar responder aquela dúvida básica que, sabemos, aparece na cabeça da maior parte dos leitores:

"Tá, mas o que de fato vai acontecer? Como vai ser isso?"

Para tentar chegar nessa resposta é preciso, primeiro, explicar o que é o Decentraland, um metaverso aberto e descentralizado onde vai acontecer o evento.

A primeira coisa importante sobre o Decentraland é que, ao contrário dos metaversos da Meta (Horizon), da Microsoft (AltSpaceVR) ou do RecRoom, esse é um sistema aberto criado e implementado diretamente na blockchain do Ethereum. Que, por sua vez, é uma porta de entrada para fazer transações financeiras no mundo digital, em qualquer lugar e sem estar restrito a uma empresa apenas.

O Decentraland não tem um único dono, que pode mudar as regras quando bem entender. Ao invés disso, esse terreno digital composto de milhares de pequenos lotes é gerido pela própria comunidade. Suas regras de uso e conduta são decididas através do voto.

Para acessar esse mundo você precisa de uma carteira de criptomoedas, que é ao mesmo tempo o seu login e o lugar onde você armazena todos os seus terrenos, itens e até o seu próprio nome.

Caso você queira garantir a unicidade do seu nome no Decentraland, precisa registrá-lo na blockchain, a um custo aproximado de US$ 20. Mas, depois disso, ele é seu e pode ser revendido e até especulado. Da mesma forma, você pode comprar diferentes itens nesse metaverso —em especial roupas e acessórios para o seu avatar.

Uma calça jeans comum (existem 100 mil cópias) para o seu avatar custa cerca de US$1.50. Já uma calça cyber ninja rara (existem 5 mil cópias) custa cerca de US$ 12. E uma calça playboy legendária (existem apenas 100 cópias) custa cerca de US$ 36.

E aqui, você começa a se perguntar:

"Ué, mas por que eu iria pagar dinheiro por uma calça de mentira para o meu boneco virtual?"

Em outros metaversos, aliás, como o de Zuckerberg, eles nem pernas têm. Faz alguma diferença usar a calça de 1,50, a de 12 ou a calça grátis que já vem com o avatar? (Ao contrário do mundo físico, no metaverso você já nasce adulto e de roupa).

Saindo do metaverso e indo para o Shopping Uol, uma busca simples por 'calça jeans' nos mostra que a mais barata disponível custa R$ 30 e a mais cara, R$ 1.300. Isso sem falar das produzidas por grifes como as que estarão se apresentando na primeira Fashion Week do metaverso.

Alguém mais aferrado ao mundo real pode contestar o sentido de um jeans virtual para seu avatar:

"Mas quando eu compro uma calça dessas, ela existe, eu posso usar ela no meu dia a dia!"

Sem dúvida. E ainda que a gente credite 50% do preço a essa materialidade, à qualidade do material, a salários justos para toda cadeia produtiva e mesmo aos impostos, fato é que ainda existe um bom pedaço desse dinheiro que representa apenas o simbolismo virtual da marca.

É esse simbolismo que agora está sendo capturado e transacionado no metaverso.

"Mas se é uma calça digital, ela pode ser infinitamente reproduzida a custo zero, porque, no final das contas, são apenas 0s e 1s no computador!"

Verdade. E aí é que entra a importância do NFT, que já existe num nível fundamental no Decentraland.

Para recordar, Non Fungible Token é uma espécie de token imutável que funciona como um certificado de autenticidade de determinada obra ou produto no mundo digital. Reconhecido em todo o mundo e, mais importante, comercializável.

Ou seja: você até pode copiar e recriar a calça playboy legendária de US$ 36, pagando apenas o custo para inserí-la na blockchain, mas nesse exato momento, ela deixa de ser uma calça playboy legendária e passa a ser uma calça comum.

Da mesma maneira que você pode entrar numa loja da rua 25 de Março em São Paulo e comprar uma réplica de uma calça famosa, pagando uma fração do preço. De longe, se balançando ninguém dirá que não é uma legítima grife, mas você sabe que trata-se de uma cópia.

E é nesse momento que o Fashion Week se torna um evento relevante para entendermos melhor o metaverso.

O evento vai marcar o lançamento do Luxury Fashion District, um bairro no Decentraland inspirado na famosa Avenida Montaigne em Paris, reunindo diversas marcas de luxo e com uma grande passarela no meio onde vão acontecer os desfiles.

Lá estarão as lojas de marcas famosas no mundo real, como Dolce & Gabbana, Dundas e Etro, ao lado de grifes completamente digitais como The Fabricant, além de designers e artistas independentes como o FEWOCiOUS, que tem obras NFT vendidas por mais de R$ 2,5 milhões.

E voltando a pergunta original:

"Tá, mas o que de fato vai acontecer? Como vai ser isso?"

Entre os dias 24 e 27 de março será possível entrar com nosso navegador em um site —Decentraland— que vai nos levar para um mundo virtual 3D. Vamos caminhar da Praça Central até o Luxury Fashion District usando teclado e mouse e assistir, na tela do computador, dezenas de bonequinhos percorrendo uma avenida virtual com seus avatares paramentados com roupas digitais desenhadas por uma série de marcas famosas que não podem se dar ao luxo de ficar de fora desse novo mundo.

Não parece muito empolgante.

No fim das contas, se você não entende a lógica do mercado de luxo lá fora, talvez tenha dificuldade semelhante para entender o mercado de luxo no metaverso. Mas fato é que eles existem, movimentam uma quantia astronômica de dinheiro e suas tendências e movimentos impactam uma cadeia enorme.

Ou seja, ainda vamos ouvir falar muito desse assunto.