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Pedro e Paulo Markun

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Governos de todos os cantos já correm para garantir um lugar no metaverso

Projeto da nova capital nacional da Indonésia terá versão no metaverso, segundo ministro do Planejamento - Reprodução/ Instagram
Projeto da nova capital nacional da Indonésia terá versão no metaverso, segundo ministro do Planejamento Imagem: Reprodução/ Instagram
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Pedro Markun e Paulo Markun

Pedro Markun é hacker e ativista pelos dados abertos, pai da Maria e da Tereza e trabalha com transparência e participação política. Criou o Laboratório Hacker, o Ônibus Hacker e o Jogo da Política. É autor dos livros para crianças "Quem Manda Aqui?" e "Eleição dos Bichos", além de desenvolvedor Python, fuçador de Arduino e um entusiasta do futuro. Paulo Markun é jornalista e escritor, tem três filhos e quatro netas. Nasceu em 1952 e é jornalista desde 1971. Já fez de tudo um pouco (jornal, revista, rádio, televisão e internet), criou veículos de comunicação, dirigiu outros tantos. Agora, na casa dos 70 anos, Oculus no rosto, busca as portas de entrada para a terra prometida pela tecnologia que, espera, não será apenas dos nativos digitais.

Colunistas do UOL

16/01/2022 04h00

O metaverso parece estar percorrendo um caminho oposto ao dos computadores pessoais e da própria internet. Está conquistando manchetes e atraindo tarados pela tecnologia, especuladores, enganadores, empresas multibilionárias e até governos, antes mesmo de ser claramente compreendido e definido.

Mal comparando, o interesse e a euforia lembram —pelo que registram relatos da época— a agitação provocada pelo retorno dos primeiros navegadores, depois de "descobrirem" o Novo Mundo e suas riquezas.

Nos governos, o de Barbados avançou o sinal e promete inaugurar ainda este mês a primeira embaixada no Decentraland, um dos espaços apontados como precursores do metaverso.

Há antecedentes. Em 2014, a agência dinamarquesa de geodados colocou o mapa de todo o país no jogo Minecraft. A intenção era disponibilizar ali dados geográficos e topográficos e ajudar a divulgar os dados gratuitos para um público mais amplo e atingir especificamente as crianças.

"Dinamarca no Minecraft" instigava os professores a usar tais dados em suas aulas. Só nos primeiros meses, os dados do Minecraft foram baixados 300.000 vezes da Agência Geodata e cerca de 37.000 usuários únicos se registraram nos servidores Minecraft da agência.

Mas a experiência durou pouco: no início de 2016, a Agência Dinamarquesa de Geodata mudou para Agência de Fornecimento e Eficiência de Dados, e os links em inglês sobre "Dinamarca no Minecraft" foram removidos. Ainda é possível baixar qualquer pedaço do território dinamarquês no jogo, mas só na língua deles.

A nova onda parece maior: a administração municipal de Seul (9,7 milhões de habitantes) promete já para 2023 estabelecer um ambiente de comunicação virtual em que será capaz de lidar com várias questões —de reclamações civis a consultas jurídicas de avatares/cidadãos.

A Coreia do Sul é o quarto maior mercado de jogos do mundo e tem vários players do metaverso como Netmarble, Zepeto, ifland. Por isso, o governo não apenas apoia as inovações do metaverso e seu Ministério da Ciência e TIC estabeleceu uma "aliança do metaverso" para coordenar os esforços.

Na China, o termo metaverso estaria entre os principais memes do ano passado, segundo um centro de pesquisas de idiomas. Gigantes locais da tecnologia como Tencent e Baidu, já registraram marcas relacionadas a ele.

A gigantesca e cosmopolita Xangai (26,3 milhões de habitantes) incluiu sua réplica no metaverso no plano urbanístico quinquenal.

Outras regiões chinesas caminham na mesma direção: o governo da província de Zhejiang (57,3 milhões), onde a Alibaba tem sua sede, acena com um esforço oficial para ser um hub de novas tecnologias —entre elas o metaverso. A província de Anhui (62 milhões) e de Wuhan (11 milhões), sede do coronavírus, diria alguém mal intencionado, incluíram em seus relatórios anuais oficiais a meta de trabalhar para terem seus metaversos.

Na Indonésia, o ministro do Planejamento incluiu uma representação da capital Jacarta no plano diretor da cidade. Ele estima que em quatro meses estará tudo pronto.

Mas nem só o Oriente se mexe. O governo da Catalunha, comunidade autônoma da Espanha que inclui as províncias de Girona, Lérida e Tarragona, anunciou que vai criar seu próprio metaverso, onde pretende sediar exposições de arte, festivais e outras atividades, como campi para as universidades da região.

O responsável pelo projeto, Quirze Salomó, estima que metaversos serão usuais em três anos e onipresentes em cinco. Jordi Puigneró, vice-presidente e ministro de Políticas Digitais, acha que a presença nesses novos ambientes é a única maneira de proteger a nação e lembra que a Catalunha sempre quis estar na vanguarda da tecnologia.

É cedo para dizer se esses esforços de presença no metaverso vão resultar em algo concreto. Hoje, boa parte das ações podem ser entendidas como ação de marketing e comunicação, formas de levar informação sobre os países para novas gerações.

Mas essas novas geografias —virtuais— também podem servir para criar e reforçar identidades nacionais. Ou, ainda, propor novas cidadanias transnacionais, algo que já é proposto por nações como a Estônia, que permite pessoas do mundo todo estabelecerem uma "e-cidadania", onde você se torna um cidadão virtual da Estônia, capaz de criar empresas e negócios no país de qualquer lugar do mundo.

Junte isso com a ideia de territórios virtuais que permeia o conceito do metaverso e as possibilidades para o futuro são interessantes e com certeza algo que vamos explorar em colunas futuras.

Aqui no Brasil, apesar de sermos um dos países com maior número de horas/dia nas redes sociais e de termos um histórico ativo de participação em várias tendências virtuais, o governo segue ignorando a existência e as possibilidades do metaverso.

Algo que não surpreende em um país onde o Ministério de Ciência e Tecnologia, coordenado pelo astronauta Marcos Pontes e espaço natural para esse tipo de iniciativa, sofreu um corte de 92% das verbas desse ano.

Sem investimento e interesse por parte do poder público, ficaremos à margem desse desenvolvimento, ocupando o posto de meros consumidores de uma tecnologia que seguirá sendo desenvolvida por empresas e governos estrangeiros.

E olha que não faltam motivos para o interesse nesse novo mundo por parte do atual presidente. Vale lembrar que no Decentraland e diversos outros metaversos, a "terra" é —efetivamente— plana.