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Pedro e Paulo Markun

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ainda pouco compreendido, NFT poderá render (muito) dinheiro no metaverso

Obra digital chamada "Stomp Patrol 3029" foi leiloada na plataforma Foundation. Criada por Lestron, ela foi arrematada por Chris Torres - Reprodução/ Foundation
Obra digital chamada "Stomp Patrol 3029" foi leiloada na plataforma Foundation. Criada por Lestron, ela foi arrematada por Chris Torres Imagem: Reprodução/ Foundation
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Pedro Markun e Paulo Markun

Pedro Markun é hacker e ativista pelos dados abertos, pai da Maria e da Tereza e trabalha com transparência e participação política. Criou o Laboratório Hacker, o Ônibus Hacker e o Jogo da Política. É autor dos livros para crianças "Quem Manda Aqui?" e "Eleição dos Bichos", além de desenvolvedor Python, fuçador de Arduino e um entusiasta do futuro. Paulo Markun é jornalista e escritor, tem três filhos e quatro netas. Nasceu em 1952 e é jornalista desde 1971. Já fez de tudo um pouco (jornal, revista, rádio, televisão e internet), criou veículos de comunicação, dirigiu outros tantos. Agora, na casa dos 70 anos, Oculus no rosto, busca as portas de entrada para a terra prometida pela tecnologia que, espera, não será apenas dos nativos digitais.

12/12/2021 04h00

Escrever esta coluna é desafiador, até porque o novo mundo traz consigo conceitos e termos sobre os quais pouco sabemos ainda e que, por não serem de uso corrente, geram espanto e incompreensão. Um bom exemplo são os NFTs (Non Fungible Token).

Para compreender do que se trata seria preciso entender uma série de outras tecnologias, tais como 'blockchain' e 'smart contracts' que, por sua vez, normalmente pedem outras explicações —aqui no Tilt mesmo existe um podcast sobre o assunto para quem quiser se aprofundar.

De uma maneira geral e superficial, basta entender que os NFTs são tokens que designam a propriedade exclusiva de um ativo digital.

Por exemplo, recentemente o artista digital Chris Torres, criador do meme animado Nyan Cat, remasterizou sua obra e cunhou (termo usado para a criação de um NFT) um NFT que foi colocado em leilão na plataforma de criptoarte Foundation. Arrecadou incríveis R$ 3,19 milhões. Mas o comprador da obra de arte não comprou realmente a imagem que se encontra reproduzida logo aqui abaixo.

O que foi adquirido é o token que mostra que o comprador é o novo dono da imagem original.

Para a maioria das pessoas, o conceito ainda não faz muito sentido. Quem se importa em saber qual é o verdadeiro dono de um ativo digital, que qualquer pessoa pode ter ou ver gratuitamente?

Se você não pode excluir ninguém de ter a imagem, por que comprá-la em primeiro lugar?

Embora haja uma certa histeria coletiva envolvendo o mundo dos NFTs, o conceito ainda é muito mal compreendido pelo mainstream.

Nenhuma metáfora parece suficiente para explicar do que se trata. Mas é uma espécie de DUT —documento único de transferência, emitido pelos Detran— que não vale para nenhum automóvel que trafegue pelas ruas e estradas do mundo, mas sim, para coisas do mundo digital.

Ou um cálculo matemático que garante a possibilidade de transacionar esses itens colecionáveis (obras de arte, terrenos em metaversos, roupas para os avatares etc), passíveis de serem transacionados, mas que, ao contrário das várias moedas —dólar, euro, real, iene ou até bitcoins— não podem ser trocadas.

Escassez digital

Uma dos lugares comuns da economia é a dita 'lei da oferta e procura', que diz que o valor das coisas tem a ver com a quantidade de coisas à venda contra a quantidade de gente disposta a comprar. Isso só acontece porque no mundo físico, os recursos são limitados. Se eu te der a minha maçã, eu fico sem maçã. Se eu te der metade, só sobra a outra metade.

No mundo digital, isso não é assim e uma maçã digital pode, em tese, ser multiplicada infinitamente e nesse caso, o custo, tende a zero.

O mundo já vem criando formas artificiais de controlar esse fenômeno faz algum tempo.

As DRM (Digital Right Managements) são tecnologias que controlam à força o direito de cópia, impedindo que você reproduza um bem digital ou transfira ele livremente, de um espaço para outro.

Isso acontece, por exemplo, quando você compra um livro no Kindle e ele fica preso e restrito àquela única conta. Ou quando você adquire um filme no Google Play e não pode disponibilizá-lo para seu amigo depois de assistir.

Ainda assim, é impossível garantir a escassez, (com controle ou sem controle), pois as cópias continuam podendo ser feitas e não existe forma de garantir que alguma daquelas é 'a original'.

Os NFTs chegaram para mudar tudo isso. A função principal de um token NFT é exibir a propriedade. Essencialmente criando uma espécie de escassez digital.

Isso vale para uma bolsa Louis Vuitton, um quadro de Picasso, um livro raro e antigo ou mesmo ouro ou diamantes. Todos são bens valiosos apenas com base no fato de que nem todos podem tê-los e há muitos que apenas os desejam.

Os NFTs permitem que esse mesmo tipo de função exista em um mundo digital.

É verdade que qualquer pessoa pode ter uma cópia, mas apenas uma pessoa pode possuí-la.

Conexão com videogames

Na maioria dos videogames hoje, os jogadores têm a opção de comprar skins (peles) que são aparências, roupas e identidades para seus avatares.

As skins são tão importantes que em vários jogos esse mercado é a maior e, às vezes, a única fonte de receita. Fortnite é o maior exemplo disso e, em 2020, eles conseguiram arrecadar US$ 2,5 bilhões em receita somente com a venda de skins e customizações.

Para facilitar essas transações, as plataformas fazem com que os jogadores comprem moeda virtual. Cada jogo tem uma moeda diferente, Fortnite tem V-Bucks, GTA tem os Shark Cards, Roblox tem Robux e por ai vai.

Os jogadores precisam usar 'dinheiro real' para comprar essas moedas, e todas essas moedas funcionam apenas no jogo.

Os NFTs têm potencial para substituir todas essas economias digitais e trazer uma série de novos benefícios.

NFTs e o metaverso

A gente vem escrevendo sobre metaverso já tem algum tempo e a aposta é que, no futuro, existirá, de fato, um (ou vários) metaverso(s) onde vamos aprender, conversar, jogar, fazer compras, enfim, uma espécie de outro mundo que vai existir juntamente com esse de carne e osso (mais osso do que carne nos dias que correm).

Quando o metaverso se concretizar, ter uma moeda diferente para cada plataforma será um problema.

Em um mundo onde os ativos digitais podem ser transferidos de um mundo para outro, faria sentido ter uma moeda uniforme ou alguma forma de tornar essas transferências mais fáceis. É aí que entram os NFTs.

Repetindo, os NFTs permitem que um indivíduo mostre a prova de originalidade de um ativo digital. Se todas as coisas de um metaverso estiverem vinculadas a NFTs, tais bens poderão ser facilmente negociados entre jogos e mundos.

A parte importante é que não haverá mais necessidade de os jogos criarem sua própria moeda. Os NFTs serão comprados com criptomoeda ou diretamente com a moeda tradicional.

A combinação dessas duas inovações tecnológicas criará a economia digital mais robusta e avançada que o mundo já viu.

Quão longe estamos?

Grandes empresas como Google, Facebook, Microsoft e Epic Games estão investindo bilhões de dólares e enormes quantidades de capital humano para construir o metaverso.

Ao mesmo tempo, outras companhias, como a NBA e a ByteDance, dona do TikTok, estão vendendo seus próprios NFTs e ajudando os criadores a desenvolver NFTs também.

Quando essas duas inovações se encontrarem deverão criar uma das maiores produções de valor —e de dinheiro— - que o mundo já viu. Com toda a pressão de grandes empresas para torná-lo realidade, a economia do NFT metaverso chegará antes que você perceba.