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Pedro e Paulo Markun

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cada um no seu metaverso? Divisão em várias plataformas desafia tecnologia

Martin Sanchez/ Unsplash
Imagem: Martin Sanchez/ Unsplash
Pedro Markun e Paulo Markun

Pedro Markun é hacker e ativista pelos dados abertos, pai da Maria e da Tereza e trabalha com transparência e participação política. Criou o Laboratório Hacker, o Ônibus Hacker e o Jogo da Política. É autor dos livros para crianças "Quem Manda Aqui?" e "Eleição dos Bichos", além de desenvolvedor Python, fuçador de Arduino e um entusiasta do futuro. Paulo Markun é jornalista e escritor, tem três filhos e quatro netas. Nasceu em 1952 e é jornalista desde 1971. Já fez de tudo um pouco (jornal, revista, rádio, televisão e internet), criou veículos de comunicação, dirigiu outros tantos. Agora, na casa dos 70 anos, Oculus no rosto, busca as portas de entrada para a terra prometida pela tecnologia que, espera, não será apenas dos nativos digitais.

09/01/2022 04h00

O começo de ano está animado no campo do metaverso. Ou pelo menos, nas notícias envolvendo essa ideia —ainda mais falada que compreendida. A socialite Paris Hilton ganhou espaço na mídia ao anunciar que passaria o réveillon numa ilha digital —o Paris World— que lançou no site Roblox. Fez espuma, mas nenhum jornalista perdeu tempo acompanhando o lance.

Jameston, uma empresa de negócios imobiliários que é dona de uma icônica torre de 25 andares e 111 metros de altura em Times Square, recriou a própria na plataforma Decentraland e anunciou que, em parceria com a empresa mais ativa nesse campo dos empreendimentos imobiliários digitais, faria ali a celebração da passagem de ano.

Os press releases conquistaram o deserto noticioso da virada do ano, mas não há registro de qualquer repórter presente na tal festa. (Os colunistas têm um bom álibi: passaram a virada lidando com algo bem mais tangível, o coronavírus. Aos interessados, informam que passam bem agora).

Não foi só isso: outra publicação especializada, o site Futurism, destacou o aparente fracasso de uma série de shows realizados pela Meta na plataforma Horizon Venues, durante o fim de ano.

Entre 26 e 31 de dezembro, três apresentações de grandes estrelas do pop internacional - o rapper Young Thug, o DJ David Guetta e o duo The Chainsmokers passaram pela plataforma, com entrada franca para quem portasse um Oculus Quest 2, mas o público falhou.

O rapper alcançou 125 mil visualizações no perfil oficial do Oculus no Facebook. O Dj apresentou um show feito nas instalações do museu do Louvre de Abu Dabi (sim, isso existe) e teve um milhão de espectadores, mas não era preciso usar os tais Oculus.

O Futurism ainda sapecou:

"Se você pensar sobre isso por apenas um segundo, faz sentido. Assistir a um show sozinho com um fone de ouvido de realidade virtual em casa não é como muitas pessoas querem passar a véspera de Ano Novo - mesmo que sejam grandes fãs de The Chainsmokers por algum motivo. No geral, parece que os shows no metaverso não foram o sucesso que Zuckerberg esperava. E o elefante na sala, é claro, é o show Fortnite de Travis Scott no ano passado, que atraiu dezenas de milhões de participantes e chamou a atenção da mídia."

O fato é que, em torno do chamado metaverso só não correm rios de tinta porque ninguém mais usa tinta para escrever. Um levantamento mencionado em artigo na revista New Scientist indica que quase 160 empresas mencionaram o metaverso em suas declarações de lucros em 2021.

É inegável que o termo está presente em grande parte do que se publica hoje sobre o futuro da internet. E parece que, quanto mais se escreve, menos certeza há sobre qual será realmente esse cenário dentro de pouco tempo.

Para começar, porque talvez fosse melhor usar o plural —metaversos— já que o singular demanda algo essencial: interoperabilidade. Hoje em dia, cada plataforma demanda seu próprio avatar e a adesão a determinadas regras e é impossível sair de um espaço desses e entrar em outro sem ter de começar tudo de novo.

Com isso, ao invés de um grande metaverso, temos dezenas de espaços virtuais competindo entre si pelo tempo, atenção e criação dos usuários: enquanto o show do Travis Scott acontece no metaverso do Fortnite, o evento da Paris Hilton no Roblox e a festa de fim de ano da Jameson no Decentraland.

Somem aí os eventos que acontecem no Horizon World, RecRoom, AltSpace, Mozilla Hubs, VR Chat e companhia limitada e o que temos são territórios virtuais autocentrados que não conseguem ganhar a massa crítica necessária para uma experiência realmente coletiva.

De algum modo esse processo é uma repetição do que vimos antes da propagação da internet comercial, para quem lembra das BBS --serviços baseados em texto que eram uma espécie de protointernet-- traziam o mesmo problema.

As maiores BBSes eram mundos complexos, com serviços como notícias e previsão do tempo, jogos e fóruns de discussão. Mas se o que você buscava não estava naquela BBS em particular, você precisava desconectar, conectar em outra e refazer todo o percurso até chegar na informação.

A internet como a conhecemos só ganhou escala e relevância graças aos padrões abertos estabelecidos e defendidos por uma temporária e instável aliança entre setores da academia, a ousadia de jovens empreendedores em suas garagens no Vale do Silício e as demandas do setor militar em plena Guerra Fria. Uma conjugação de interesses e forças improvável, mas que nos trouxe até aqui.

Esses códigos comuns (em especial o HTTP e a WWW) são o que permitem que você acesse a página desta coluna, nesse momento, com qualquer navegador, servidores e provedores que estejam aderentes aos padrões.

E ainda que, mais recentemente, com a popularização das redes sociais a abertura da internet tenha sido posta em xeque e tenhamos retornado a uma lógica de 'jardins murados', onde as diferentes plataformas —Facebook, Instagram, TikTok, etc.— criam espaços semifechados onde é preciso de um login e uma identidade únicos, o fato de eles seguirem sendo construídos usando os padrões abertos da internet permite que novos serviços surjam e se estabeleçam na rede sem precisar de uma autorização especial dessa ou daquela companhia.

Essa não é uma questão nova. Nos anos 70 e 80 do século passado, o mercado das fitas de vídeo assistiu a uma radical guerra de formatos, entre as fitas VHS e Betamax.

Para ir um pouco mais atrás, trens dos países europeus não conseguiam entrar na Espanha e na antiga União Soviética, porque esses países (bem como Portugal e Finlândia) consideraram arriscado demais adotar a mesma bitola de trilhos --sabe-se lá se os vagões não seriam usados para transportar tropas e tanques.

Outro exemplo foi a corrida espacial, terreno em que a Guerra Fria se afirmou. Mas nesse caso, em 1962, quando os Estados Unidos lançaram seu primeiro astronauta no espaço, o líder soviético Nikita Kruschev enviou um telegrama ao presidente John F. Kennedy, parabenizando o povo americano pelo voo orbital de John Glenn, durante a missão Mercury-Atlas 6, e sinalizando a possibilidade de cooperação espacial num horizonte próximo. A mensagem propunha que a União Soviética e os Estados Unidos investissem esforços no progresso científico, técnico e material para explorar o espaço exterior.

No final da década de 1960, foram assinados o Tratado do Espaço Exterior (1967), o Acordo sobre o Salvamento de Astronautas e Restituição de Astronautas e de Objetos Lançados ao Espaço Cósmico (1968), e o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (1968).

Nem tudo o que foi posto no papel funcionou, mas o avanço é indiscutível, ainda que hoje a China reclame de Elon Musk, cujos foguetes têm obrigado a manobrar sua estação espacial e as viagens orbitais pareçam ser a nova onda dos ricaços, que pouco querem saber de investir no desenvolvimento de vacinas, por exemplo.

De volta ao metaverso, o sonho da interoperabilidade é daqueles que é mais fácil falar do que fazer, embora presente no discurso de boa parte dos atores ainda existem poucos esforços concretos para liberar os diferentes dispositivos das amarras corporativas —nenhuma das empresas que correr o risco de preparar a terra para ver outra semente florescer.

Algumas organizações, como a Fundação Mozilla, responsável pelo navegador Firefox e defensora das tecnologias abertas, apostam na criação de um metaverso que funcione usando os protocolos existentes da internet —mas não conseguiram, até o momento, impulsionar significativamente suas criações para o mercado de massa.

Tecnologias do momento como o NFT, que aparecem na mídia como um remédio para todos os males, se apresentam também como uma possível solução para esse impasse. Cada plataforma poderia permanecer única, mas os ativos digitais —avatares, objetos, construções, terrenos— poderiam ser deslocados de uma plataforma para outra, a partir da ideia de posse digital.

Apesar das dificuldades, há alguns avanços: na União Europeia, a proposta de uma lei que regule os mercados digitais pretende que possamos mandar mensagens para um participante de outra rede social, sem ser obrigado a se tornar um assinante.

Existe na W3C, o consórcio global que regula os padrões da web, um grupo de trabalho focado em padrões para XR (realidade expandida, um conceito que engloba realidade virtual e realidade aumentada, tanto na sua camada de software quanto de hardware) e embora o consórcio reúna, em tese, boa parte dos atores envolvidos, ainda não conseguiu muita tração e efetividade nessa construção.

Há outras iniciativas. O consórcio Oasis, um think tank que trabalha com empresas para acelerar o desenvolvimento de uma Internet melhor e mais sustentável já chegou a uma lista de compromissos que entende capazes de assegurar uma internet ética, onde as gerações futuras possam interagir, cocriar e viver livres do ódio e da toxicidade online.

Mas infelizmente, a lista de empresas que aderiram a essas normas, que podem ser conferidas aqui, ainda é pequena.

Tudo isso para dizer que ainda falta algum tempo para que celebremos a virada de ano no metaverso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL