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Covid-19, HIV, dengue: como está a ciência para derrotar diferentes vírus

Chokniti Khongchum/ Pixabay
Imagem: Chokniti Khongchum/ Pixabay
Daniel Schultz, Monica Matsumoto e Shridhar Jayanthi

sobre os colunistas

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. É formada em engenharia pelo ITA, doutora em ciências pela USP e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi

Shridhar Jayanthi é agente de patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO). Tem doutorado em engenharia elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de engenheiro de computação pelo ITA. Atualmente, trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

20/10/2020 04h00

Este ano, o Prêmio Nobel de Medicina foi para pesquisadores que descobriram o vírus da hepatite C e desvendaram seus mecanismos de ação. A hepatite C é causada por um vírus letal que se manifesta no fígado, levando a cirrose e câncer hepático.

Apesar de ter sido descoberto na década de 70 por Harvey J. Alter, o vírus teve seu genoma descrito apenas em 1989 por Michael Houghton, e o mecanismo de infecção foi descoberto na década de 90 por Charles M. Rice. Estes três cientistas foram reconhecidos pela descoberta do vírus e premiados este ano.

Apesar de ser conhecido há quase meio século, tratamentos efetivos para esta doença viral começaram a aparecer no mercado apenas em 2011. A grande dificuldade da hepatite C foi trabalhar com um grande número de genótipos da doença.

Os primeiros medicamentos eram agentes virais não específicos. Os resultados mostraram percentual de cura menor que 50% e efeitos colaterais fortes.

Drogas mais modernas surgiram entre 2013 e 2016, chamadas agentes antivirais de ação direta (DAAs). A administração de uma combinação de dois ou três destes agentes chegavam a um percentual de cura maior que 95%, um sucesso terapêutico!

Observe que em um curto espaço de três anos, drogas mais eficientes surgiram no mercado, mas isso se deve à evolução constante das pesquisas, entendimento científico e testes clínicos.

A investigação de doenças causadas por vírus nem sempre é bem-sucedida. Afinal, existem doenças já conhecidas há décadas que não têm cura, tratamento ou vacina. No rol destas doenças estão o HIV/AIDS, vírus respiratório sincicial, dengue, zika e Epstein-Barr.

Assim, os cientistas pesquisam novos conhecimentos tanto para tratamentos definitivos como para vacinas para esses vírus. Devido à complexidade de cada vírus, não se sabe o que trará resultados.

Um dos grandes mistérios ainda são os vírus que ficam latentes e são persistentes no organismo. Eles ficam escondidos em células do nosso sistema. Um exemplo é o vírus HIV.

Os cientistas entendem que existem locais (reservatórios) que o vírus se aloja e podem ser desconhecidos ou conhecidos como linfonodos, olhos e fluido cérebro espinhal. Podem ficar anos com sua carga genética parada, até ressurgir muito tempo depois e recomeçar a atacar o organismo hospedeiro.

O problema é que não se sabe onde se escondem e passam indetectáveis por testes. Assim como o vírus da hepatite C, os vírus de HIV, ebola e hepatite B também são persistentes.

Existem algumas estratégias sendo investigadas por cientistas para tratamentos:

  • Estratégia usando células com receptores quiméricos
    Esta linha de investigação tem acontecido com receptores quiméricos de antígenos (CARs).
    Células que detectam o vírus nos reservatórios e tentam despertá-los têm se mostrado promissoras para HIV.
    Atualmente, os CARs específicos para HIV estão sendo aplicados a células T, células NK e células-tronco para aumentar o reconhecimento e a morte de células infectadas com HIV.
    Essa é uma das estratégias "shock and kill", em que se desperta o vírus dos reservatórios e logo em seguida ele é alvo de drogas antivirais.
  • Estratégia com CRISPR-Cas9
    Essa técnica recente de edição do material genético é promissora. A estratégia é alterar diretamente os linfócitos B, células que produzem anticorpos. Seria um atalho para as vacinas pois, ao invés de criar memória no organismo para atacar o vírus, a estratégia da edição genômica traria a produção direta de anticorpos. Mas é muito difícil acertar a resposta de anticorpos que realmente inativariam o vírus, porque há literalmente bilhões de possibilidades. Os cientistas veem um futuro promissor, apesar de esta estratégia não garantir a cura da infecção.

Apesar de todo desenvolvimento científico e testes, nem sempre as vacinas e tratamentos passam nos testes clínicos. Ou não se mostram tão eficazes. Foi o caso do remdesivir, essa droga antiviral não específica foi desenvolvida originalmente para a hepatite C, porém se mostrou ineficaz. Foi usado em outras doenças virais recentes como ebola, Sars-CoV e Mers. E mostrou-se especialmente eficaz em doentes mais avançados de covid-19.

De acordo com o último estudo publicado no The New England Journal of Medicine, os pacientes mais críticos que receberam o remdesivir tinham em média dez dias de recuperação, mais rápido do que os pacientes que receberam placebo, com recuperação de 15 dias.

Tempo para desenvolver vacina ou tratamento

No caso da hepatite C, que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina este ano, a descoberta em si da doença e seus mecanismos tomou aproximadamente duas décadas. E o desenvolvimento de antivirais eficazes para a cura da doença foi bem recente (2013).

Hoje, o avanço da ciência torna o processo científico muito mais rápido. As pesquisas como da hepatite C não teriam financiamento por terem tomado tanto tempo para obter resultados.

Se tomarmos o exemplo do Sars-CoV-2, o novo coronavírus, a descoberta e mapeamento genético foram muito rápidos, especialmente por haver parentes da doença já estudados. E muito dinheiro já foi investido em tratamentos, vacinas e testes clínicos, especialmente pelos impactos econômico e humano desta doença.

Encontrar uma vacina, tratamento ou cura, entretanto, tem outra natureza do que descobrir o vírus. É um processo que envolve entender o mecanismo da doença —e para o coronavírus ainda não se sabe— e ainda haver diversas tentativas de fármacos e vacinas.

Tudo indica que a resposta não será de um dia para o outro, mas temos que aplaudir a ciência por ter tantas ferramentas e conhecimento à mão para encontrar tratamentos e vacinas para a cura viral.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL