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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na COP26, levamos tecnologias que ajudam o clima, mas é preciso ir além

Kelly Sikkema/ Unsplash
Imagem: Kelly Sikkema/ Unsplash
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

30/10/2021 04h00

Há muito tempo a questão ambiental está na minha lista prioritária de interesse e estudo. Como mãe de três crianças pequenas, me preocupo cada vez mais com o mundo que estamos vivendo. Nosso modelo econômico é incompatível com a sustentabilidade do planeta e faz com que caminhemos com velocidade para um cenário no qual a existência humana passa a ser insustentável.

Isso é o que mostra o recente relatório publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA): os esforços das diferentes nações em prol da redução da emissão de gases do efeito estufa não estão sendo suficientes para alterar a trajetória de aumento da temperatura global. Especialistas estimam que ela possa alcançar 2,7°C até o final do século.

O valor é bem acima do que aquele pactuado no Acordo de Paris —de 1,5°C— e, caso se consolide, teria consequências catastróficas para o clima e, consequentemente, para as diferentes formas de vida em nosso planeta.

Estamos falando da completa extinção de espécies, eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, além da piora das condições de vida das populações mais vulneráveis dos países em desenvolvimento [veja o vídeo abaixo]

Nos próximos dias, o debate sobre as mudanças climáticas ganhará um destaque tão necessário. Isso acontece graças à chamada COP 26, a 26ª Conferência do Clima das Nações Unidas.

Ao todo, mais de 190 lideranças globais e aproximadamente 10 mil participantes, entre delegados, representantes governamentais, especialistas e cidadãos devem participar da programação do encontro que tem como tarefa produzir consensos para alcançar quatro metas principais:

  • Reduzir a emissão de gases poluentes,
  • Proteger comunidades e habitats naturais
  • Garantir recursos para o combate aos efeitos das mudanças climáticas e,
  • Trabalhar conjuntamente para implementar as disposições do Acordo de Paris.

Sem sombra de dúvidas, este é um dos principais encontros multilaterais para a agenda ambiental em todo o mundo.

Participação brasileira

Terei a grande honra de participar presencialmente da COP26, integrando a comitiva brasileira da The Civitech Alliance —e vou compartilhar todas as novidades do evento em minhas redes sociais.

Criado durante a pandemia, o projeto tem como objetivo apoiar o desenvolvimento de startups atuando com governos, especialmente em iniciativas inovadoras, tecnológicas e disruptivas que sejam capazes de transformar a oferta de políticas públicas.

Por aqui, o BrazilLAB e organizações parceiras foram responsáveis pela "CivTech Alliance COP26 Global Scale-up Programme", uma iniciativa que selecionou cinco startups com soluções para o combate às mudanças climáticas. Elas serão apresentadas a lideranças globais na COP26 e você pode consultar quem são as selecionadas aqui.

Se por um lado o Brasil pode ser uma referência no desenvolvimento de soluções para o combate às mudanças climáticas, por outro chegamos cientes de estarmos longe de alcançar as metas necessárias, especialmente relacionadas à redução do desmatamento das florestas.

Para se ter uma ideia, dados da plataforma TerraBrasilis mostram que em 2015 a taxa acumulada de desmatamento da Amazônia Legal era de 6.207,00 km². Em 2020, esse indicador foi de 10.851,00 km².

A área de exploração madeireira na Amazônia entre agosto de 2019 a julho de 2020 chegou a 464.759 hectares, o que representa uma extensão quase três vezes maior que a cidade de São Paulo.

Segundo especialistas que participaram do seminário "Impactos Potenciais da COP26 no Agro Brasileiro", liderado pelo Insper, embora o Brasil tenha alcançado feitos e inovações relevantes —como a Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), o Sistema de Plantio Direto (SPD) e o Programa Nacional de Bioinsumos— os péssimos resultados alcançados nos últimos anos pelo país na proteção do meio ambiente devem direcionar o debate para temáticas como o desmatamento de florestas, a agricultura como vetor da mudança climática e o impacto para as populações tradicionais, especialmente indígenas.

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Não há mais tempo a perder. Conforme afirma António Guterrez, secretário-geral da ONU, a COP26 é um verdadeiro marco para combater as catástrofes climáticas. Estamos diante de um evento histórico e decisivo para o futuro de todo o planeta.

O Brasil tem diante de si uma situação desafiadora na COP26. Discursos vazios e sem evidência não serão suficientes para apaziguar o justo questionamento que surge: qual será a nossa contribuição diante da urgente missão de reduzir os efeitos das mudanças climáticas?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL