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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tecnologia leva bilionários ao espaço, mas também combate pobreza na Terra

Frantisek_Krejci/ Pixabay
Imagem: Frantisek_Krejci/ Pixabay
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

28/08/2021 04h00

Os últimos meses foram muito difíceis para a maioria dos países e das nações. A crise trazida pela pandemia gerou impactos para os diversos setores, aprofundou problemas já existentes e, em muitos casos, causou retrocessos duros de se conceber. O principal deles, sem sombra de dúvidas, é o retorno massivo da pobreza extrema e um dos seus mais graves sintomas, a fome.

Em 2014, o Brasil alcançou uma importante conquista, a saída do chamado Mapa da Fome, ranking elaborado pela Organização das Nações Unidas (FAO), mas, atualmente, enfrenta um triste regresso na segurança alimentar da população: entre 2018 a 2020, uma em cada quatro pessoas sofreu com a falta de comida de forma moderada ou severa.

Esse fenômeno não acontece exclusivamente no Brasil, é verdade. A pandemia revelou e intensificou de forma abrupta a insegurança alimentar e a pobreza nas populações mais vulneráveis.

Segundo o relatório "O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo", houve um agravamento da fome mundial no ano de 2020, em que mais de 811 milhões de pessoas foram registradas em situação de desnutrição.

Para mais de 2,3 bilhões de pessoas, número que equivale a 30% da população global, o que deveria ser um direito fundamental, a alimentação, ainda é um desafio diário.

Amartya Sen, vencedor do Prêmio Nobel de economia, argumenta que a pobreza é a privação de oportunidades e capacidades básicas de um indivíduo. Ela vai muito além, portanto, da simples falta de dinheiro.

Com as lentes de Sen, é possível entender a repercussão negativa da exploração espacial liderada por grandes líderes da indústria tech.

No dia 11 de julho de 2021, Richard Branson, fundador da Virgin Galactics, foi o primeiro bilionário a ir ao espaço em um foguete da sua própria empresa. Os 20 minutos de Branson até ao espaço custaram cerca de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,2 bilhões).

Nove dias depois foi a vez do Jeff Bezos, CEO da Blue Origin, dono da Amazon e atual homem mais rico do mundo. E em setembro será a vez de Elon Musk, CEO da SpaceX e da Tesla Motors.

O tema é altamente controverso —já falei sobre ele aqui e também em minhas redes sociais— e, para muitas pessoas, os investimentos faraônicos dedicados à exploração comercial do espaço soam quase como absurdos frente à crise global que vivemos atualmente.

Para se ter uma ideia, o Programa Mundial de Alimentos (PMA), iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), estima que seriam necessários US$ 3,6 bilhões anuais para alimentar 52 milhões de crianças desnutridas com menos de cinco anos.

Apesar do desafio, felizmente há diversas organizações governamentais, não governamentais, multilaterais, bem como empresas privadas que trabalham na luta contra a fome e extrema pobreza.

As novas tecnologias desempenham um papel essencial nesse esforço. Da inteligência artificial, drones, blockchain até aplicativos, a inovação digital está fazendo a diferença em áreas atingidas pela pobreza e pela fome.

À medida que especialistas avançam na oferta de soluções inovadoras, identificar e combater o problema está se tornando um objetivo senão mais fácil, cada vez mais atingível.

Exemplos em ação

O "Hunger Map LIVE", criado pela ONU e pelo Alibaba Group, é um exemplo do uso da tecnologia na luta contra a extrema pobreza.

Ele consiste em um inovador sistema de monitoramento global, que utiliza inteligência artificial e análise de dados para prever e rastrear a magnitude e severidade da fome em mais de 90 países.

A análise é altamente precisa, acontece em tempo real e se desdobra em nível global, nacional e subnacional.

O intuito do programa é o de oferecer informações atualizadas e centralizadas sobre a segurança alimentar, para que as organizações humanitárias e as lideranças globais possam aplicar projetos eficientes e efetivos com base em evidências confiáveis.

A Hewlett Packard Enterprise (HPE) é outro exemplo de organização atuante no combate à fome e, juntamente com o Fórum Econômico Mundial, criou a joint venture Tech Impact 2030, cuja missão é erradicar a fome no mundo até 2030 e transformar os sistemas alimentares utilizando inovação e tecnologia.

Este projeto está focado em impulsionar a sustentabilidade no ecossistema agrícola, incentivando empresas, universidades e governos a trabalharem juntos em soluções que possam eliminar a insegurança alimentar.

No Brasil, o tamanho do desafio da pobreza é tão grande quanto nossa extensão territorial e diversidade regional. Segundo dados de abril de 2021, nosso país possui mais de 14 milhões de famílias na extrema pobreza inscritas no Cadastro Único. Estamos falando de mais de 40 milhões de pessoas —ou seja, 20% da população— que vivem com uma renda de até R$ 89 mensais por pessoa.

Considerando isso, o BrazilLAB, hub de inovação que acelera govtechs desde 2016, também buscou dar sua contribuição para a agenda de combate à pobreza.

Em 2020, por exemplo, foi lançado o Força-Tarefa Covid-19, um programa de aceleração em busca de startups que tivessem soluções para o desafio da inclusão produtiva.

Foram mais de 200 inscrições recebidas pela iniciativa e dez startups aceleradas no tema, como a Meu Entrevistador, uma plataforma online e com um serviço de streaming de vídeos direcionados para o tema empregabilidade e mercado de trabalho.

(Um lembrete importante: estão abertas as inscrições para a 6ª turma do Programa de Aceleração do BrazilLAB).

A Comida Invisível é um exemplo de tecnologia social voltada ao combate ao desperdício de alimentos. Certificada pela "Save Food" da Organização das Nações Unidas (ONU), a organização é definida como "um hub de soluções tecnológicas contra o desperdício".

Partindo de uma estratégia de geolocalização, a ideia é aproximar quem tem alimentos bons para serem doados daqueles que precisam desses recursos.

Outro exemplo é o trabalho do Banco da Providência, organização que atua na cidade do Rio de Janeiro e que desenvolveu uma tecnologia social para estimular a inclusão produtiva de pessoas em situação de extrema pobreza e vulnerabilidade.

Os participantes do programa recebem formação em diferentes áreas, além de apoio para atuar com empreendedorismo —você pode acessar alguns depoimentos aqui.

Enfrentar um problema tão complexo depende da conjunção de várias iniciativas.

Conforme apontam especialistas do Insper, dentre eles Ricardo Paes de Barros, é preciso aliar políticas públicas de distribuição de renda e inclusão produtiva focalizadas, unificadas e adaptadas ao contexto local.

Pelos diversos e bem-sucedidos exemplos que temos observado, estou convencida de que a tecnologia será cada vez mais uma protagonista neste esforço.

——

O bem-estar das pessoas é uma questão ética.

Enquanto houver cidadãos em situação de pobreza e de insegurança alimentar, não conseguiremos avançar e prosperar.

Temos, como sociedade, uma histórica dívida no combate a esses males. Que possamos, de uma vez por todas, nos esforçar para, finalmente, quitá-la.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL