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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nossas crianças ficaram expostas demais à tecnologia na pandemia; e agora?

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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

07/08/2021 04h00

O Brasil vive um momento muito importante esta semana. Finalmente, e após mais de um ano de aulas presenciais suspensas ou com retornos gradativos, as escolas —tanto da rede pública quanto da privada— estão voltando a receber os estudantes.

O Brasil é um dos países que ficou mais tempo sem aula. Segundo dados da Unesco, mundialmente, as escolas estiveram fechadas —total ou parcialmente— por um período médio de 5,5 meses. Nos países da América Latina, a média observada para esse mesmo indicador foi de aproximadamente 10 meses, ao passo que, no Brasil, ela é de 13 meses. Isso mesmo, mais de um ano de escolas fechadas e, em muitos casos, aulas completamente interrompidas.

O impacto dessa interrupção está sendo e ainda será devastador para a educação brasileira. E ele será especialmente sentido no âmbito da aprendizagem dos alunos, um tema que antes mesmo da pandemia já era especialmente grave.

Segundo especialistas, os jovens que cursam o ensino médio vivenciaram uma perda significativa de aprendizagem. Em 2020, ela foi de 10 pontos na escala Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), podendo chegar a 20 pontos caso nenhuma medida específica seja feita ainda em 2021.

Para se ter uma ideia do que isso significa, "perder" 20 pontos implica que não houve nenhuma aprendizagem nos três anos de ensino médio de toda uma geração de jovens.

Mesmo diante dos esforços de redes de ensino e das famílias em manter o processo de ensino-aprendizagem à distância e em casa, o impacto do fechamento das escolas é profundo e real.

Como discuti aqui na coluna algumas vezes e também em minhas redes sociais, a pandemia ampliou ainda mais o abismo de desigualdades que caracteriza o nosso país: a possibilidade de continuar os estudos foi privilégio de poucos, enquanto estar longe das salas de aula penaliza ainda mais aqueles que já estão em posições de vulnerabilidade socioeconômica e de aprendizado.

Nesse cenário, o uso de tecnologias foi a principal estratégia para garantir a continuidade dos estudos em muitas localidades do país. Elas foram essenciais e pudemos testemunhar o nascimento de soluções disruptivas dedicadas à educação.

O BrazilLAB, por exemplo, lançou um programa específico de aceleração para govtechs com soluções educacionais para o contexto da pandemia —e recebemos 83 inscrições de empresas de todo o país atuando neste tema.

O momento agora é de uma nova transição. Depois de meses tendo aulas online, pela tela de um celular ou computador —e, em alguns casos, não tendo aula alguma—, estudantes de todo o país voltam ao ambiente "analógico".

Analisar os impactos dessa nova fase e pensar uma transição suave após meses de afastamento é uma questão de primeira ordem.

Os impactos

Não há dúvidas de que a tecnologia foi uma aliada fundamental para garantir acesso à educação durante a pandemia. Mas a singularidade deste momento gerou um verdadeiro dilema: sem alternativas, crianças, muitas vezes em idade de alfabetização, e adolescentes aumentaram consideravelmente o número de horas conectadas diariamente, gerando um excesso de exposição às tecnologias.

Segundo pesquisa da empresa SuperAwesome, crianças entre 6 e 12 anos passaram cerca de 50% do seu tempo de quarentena em frente a telas. Isso representou um aumento de duas a três vezes o consumo habitual.

Simplificando a análise, implica dizer que, quando não estão fazendo tarefas básicas como dormir, as crianças estão conectadas a telas.

Já há estudos que apontam os impactos negativos para a saúde física e mental que isso pode gerar.

Sete em cada dez médicos entrevistados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia identificaram progressão da miopia em crianças durante a pandemia. A pesquisa entrevistou 295 profissionais e 75,6% avaliam que o uso de dispositivos eletrônicos pode ter correlação com a piora da doença.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por sua vez, tem alertado sobre a existência de uma "dependência virtual", doença reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em um momento em que discutimos a importância do cuidado com a saúde mental, há indícios de que a excessiva exposição a telas pode ter correlação com problemas como ansiedade, irritabilidade e depressão.

Pesquisa realizada pelo Datafolha, a pedido da Fundação Lemann e do Instituto Natura, aponta que 94% das crianças tiveram algum tipo de mudança de comportamento durante a pandemia.

Dentre elas, 44% se sentiram tristes, 38% ficaram com mais medo e 34% perderam o interesse pela escola. E neste grupo, 37% das crianças e adolescentes estão jogando videogame ou celular com mais frequência do que antes da covid-19 e 43% aumentaram as horas em frente à TV.

Os efeitos da excessiva exposição à tecnologia são altamente negativos. Ao mesmo tempo, devemos observar níveis cada vez mais intensos de utilização de soluções digitais por crianças e adolescentes.

Diante deste cenário, o que podemos fazer?

Diálogo aberto urgente

Sou uma entusiasta da transformação digital e entendo que temos ganhos superiores aos riscos que ela traz. Mas não podemos ignorá-los; é preciso que todos reconheçam a gravidade da exposição excessiva às tecnologias e possam construir, conjuntamente, formas de interação que sejam mais seguras e frutíferas para todos.

Eu, como mãe de três filhos em idades escolares distintas, sei o quanto foi desafiador orientá-los durante a pandemia e o quanto tivemos que nos apoiar no tempo de aulas online como o único recurso para manter o aprendizado.

Observei e vivi de perto muitos destes dilemas e a verdade é que outros efeitos colaterais deste processo ainda serão sentidos no futuro.

Fica agora a esperança de um retorno seguro, com maior interação e menos dependência completa dos dispositivos.

A volta às aulas deve ser um espaço valioso para promover uma discussão entre profissionais da educação, família e alunos e para a revisão de alguns hábitos que foram adquiridos ao longo desses últimos longos meses.

É urgente iniciarmos e mantermos vivo um diálogo aberto sobre os limites da exposição à tecnologia para crianças e adolescentes.

Por fim, torço para que o cenário fatalista descrito no início do texto não se concretize e que possamos, nos próximos meses de 2021, reverter, ao menos parcialmente, o profundo impacto negativo que o fechamento das escolas trouxe para os alunos brasileiros, especialmente aqueles mais vulneráveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL