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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Construção das cidades do futuro começa agora com combate às desigualdades

Prédio de apartamentos de luxo no bairro do Morumbi, em São Paulo, faz divisa com a favela de Paraisópolis - Tuca Vieira/Folhapress
Prédio de apartamentos de luxo no bairro do Morumbi, em São Paulo, faz divisa com a favela de Paraisópolis Imagem: Tuca Vieira/Folhapress
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

12/06/2021 04h00

Nas últimas semanas, nossos olhos estiveram voltados para o espaço, talvez como uma estratégia para fugir dos desafios que estão muito presentes aqui na Terra. Começando com a saga do foguete chinês, que trouxe inspiração para vários memes, passando pelas primeiras imagens do Rover Zhurong, em Marte, o repertório de notícias sobre a exploração espacial está bastante rico e potente para estimular nossa imaginação.

Uma notícia, em especial, me chamou a atenção. A ABIBOO Studio, empresa de arquitetura, e a Sustainable Offworld Network, uma rede de especialistas dedicados à pesquisa de moradias em outros planetas, divulgaram o projeto da primeira cidade marciana.

Chamada de Nüwa City, a cidade deve permitir a manutenção da vida de aproximadamente 1 milhão de habitantes sem qualquer dependência em relação ao planeta Terra. Trata-se, portanto, de uma cidade sustentável e resiliente, a primeira a ser desenvolvida com a junção de conhecimentos arquitetônicos e, principalmente, científicos sobre as condições de vida em Marte.

Como entusiasta da tecnologia, confesso que a perspectiva da Nüwa City me parece encantadora. Tem sido incrível acompanhar o quanto a exploração espacial nos faz avançar, como sociedade, na construção de soluções que podem pôr um fim nos maiores desafios enfrentados no em nosso planeta.

Mas o encantamento com as possibilidades do futuro da humanidade divide espaço com a minha preocupação com os problemas atuais de nossa geração. E eles são crescentes e ameaçadores.

Musk ou Gates: quem tem razão?

Elon Musk, fundador da Tesla, foi responsável por um importante passo em prol da exploração comercial do espaço, com a criação da SpaceX - falei sobre como a iniciativa é um excelente exemplo de parceria público-privada. Musk também é autor de um audacioso plano: garantir que o planeta Marte seja o novo lar de 1 milhão de pessoas até o ano de 2050.

A tese de que o futuro da humanidade dependerá de nossa capacidade de conquistar outros planetas, no entanto, não é consenso.

Do outro lado do debate está um também bilionário responsável por feitos igualmente surpreendentes: Bill Gates, fundador da Microsoft, não se mostra tão entusiasmado com a possibilidade de povoar Marte, reforçando seu interesse em investir em soluções que possam ajudar a enfrentar os desafios que ainda temos aqui, na Terra.

Nessa disputa entre gigantes, prefiro acreditar na possibilidade de um caminho do meio, ou seja, há espaço para o desenvolvimento de soluções para explorar o universo —muitas delas, a história nos mostra, foram responsáveis por avanços em nosso planeta— ao mesmo tempo em que trabalhamos com afinco para resolver problemas conhecidos, atuais e que podem impedir nossa possibilidade de existência.

Isso inclui, sobretudo, rever a forma como vivemos nas cidades. Os centros urbanos são lar da maior parte das pessoas —84,7% no Brasil, segundo a PNAD contínua de 2015, do IBGE— e são tanto causadoras como receptoras dos efeitos das mudanças climáticas.

A emissão de poluentes das cidades contribui para as transformações ambientais que vivenciamos e elas também sofrem os problemas decorrentes desse processo: inundações, o surgimento de doenças e a escassez de recursos.

E já não há dúvidas de como a tecnologia será a grande protagonista para alcançarmos cidades do futuro. Já falei sobre o tema aqui na coluna, discutindo o conceito de smart cities (cidades inteligentes) e como as soluções digitais estão sendo aplicadas para aprimorar sistemas de iluminação, trazer maior fluidez ao trânsito, com a ajuda de semáforos inteligentes, ou melhoria na mobilidade urbana, graças ao desenvolvimento de meios de transportes que não dependem de combustíveis fósseis altamente poluentes.

Cidades do futuro precisam ser construídas hoje

A pandemia escancarou problemas que, antes, talvez passassem despercebidos. Ações relativamente simples para alguns, eram impossíveis para outros. Afinal, como garantir o isolamento de doentes que habitam uma mesma casa com somente dois cômodos? Ou como assegurar condições básicas de higiene para pessoas que vivem em situação de rua ou sem acesso aos serviços de saneamento básico?

Diante disso, afirmo que as cidades do futuro serão aquelas nas quais as desigualdades sociais são coisa do passado.

A excelente notícia é que há diversas tecnologias para apoiar a construção de cidades sustentáveis, resilientes e, principalmente, justas.

Um exemplo é o Senseable City Lab, da Universidade de Massachusetts (MIT). Com o projeto Favelas 4D, pesquisadores vão utilizar uma tecnologia de mapeamento digital para registrar e analisar a morfologia da favela da Rocinha, a maior do Rio de Janeiro e uma das maiores do mundo, com quase 26 mil moradias e aproximadamente 120 mil habitantes.

O esforço busca garantir que o "informal se torne visível": conhecer a estrutura do espaço vai permitir que políticas públicas antes inexistentes possam ser implementadas no território.

O projeto "Unequal scenes" também utiliza o registro de imagens para expor a desigualdade dos espaços urbanos. A iniciativa foi criada por Johnny Miller que utiliza drones para fotografar as disparidades dos espaços urbanos.

Visitando localidades de todo o mundo —como Cidade do México, África do Sul, Mumbai e Brasil— o fotógrafo registra, do alto, as linhas tênues que separam residências milionárias de favelas sem acesso a recursos básicos.

E o esforço de trazer mais igualdade para as cidades também precisa envolver as universidades.

Um exemplo desse tipo de iniciativa é o Barcelona Urban Lab, que desde 2008 tem proposto intervenções urbanísticas para a cidade espanhola - você pode conhecer mais sobre a iniciativa no artigo elaborado pelo BrazilLAB aqui.

E também o Laboratório Arq. Futuro, uma iniciativa do Insper que tem desenvolvido pesquisas e propostas concretas para o desenvolvimento urbano e sustentável do país.

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Em um mundo com tantos avanços tecnológicos e, em uma mesma medida, desigualdades que afligem a existência humana e de outros seres vivos, não podemos nos dar o direito de não tomar uma atitude.

O futuro das cidades e as cidades do futuro devem começar a existir hoje.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL