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Disco Elysium é um RPG surpreendente e um dos marcos narrativos da geração

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Daniel Esdras

Do GameHall

02/01/2020 04h00

Em filmes, jogos e livros, já vimos policiais investigadores que resolvem mistérios impossíveis e encontram assassinos em série com um QI acima da média. Já vimos policiais heróis que encaram máfias e outras organizações criminosas sozinhos. Já vimos também policiais corruptos que não são lá muito diferentes dos vilões convencionais.

Na grande maioria dessas obras, o foco é sempre na ação policial e suas consequências diretas, mas poucas trataram do ser humano por trás da farda, suas fraquezas, seus problemas com a família, seus questionamentos políticos. É aqui que entra o jogo mais surpreendente que joguei em 2019, "Disco Elysium", que surgiu "do nada" e conquistou prêmios do The Game Awards.

Amnésia psicogênica ou alcoólica?

Quem sou, onde estou, e como faço para tentar sair daqui? - Reprodução
Quem sou, onde estou, e como faço para tentar sair daqui?
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A introdução de "Disco Elysium" já dá o tom do que virá adiante. Em vez de um momento marcante de ação ou a introdução de algum vilão, os primeiros minutos narram um confuso conflito do protagonista com sua mente e corpo, um duelo sobre a necessidade de estar vivo, uma busca em saber quem, de fato ele é, e uma breve retomada nada literal sobre o seu passado. Aqui, o jogador já tem poder de escolha no diálogo e entra de paraquedas nessa discussão entre corpo, mente e memórias. "Disco Elysium" não é para os fracos.

Ao acordar dessa espécie de pesadelo, nosso protagonista não parece um policial e muito menos um herói, mas um coitado quase nu, estirado em um quarto de hotel. Para piorar a situação, ele perdeu todas as suas memórias e não lembra sequer do seu nome. Tudo isso, ao que parece, graças ao uso indiscriminado de bebidas e drogas durante a vida, hábito que, ao que parece, finalmente cobra o seu preço. Se por um lado a cena é triste, por outro o evento abre uma nova oportunidade: o personagem agora é um papel em branco que será moldado de acordo com as nossas escolhas.

Assim seguirá toda a aventura do policial pela cidade de Revachol: uma luta minuto a minuto com o seu presente sem conseguir afastar os fantasmas do seu passado

Só que, após a meia-idade, não tem futuro quem nunca teve um passado. Assim que recuperamos nossas roupas (jogadas pelo quarto e até arremessadas pela janela) e descemos as escadas, descobrimos que já causamos um impacto de forma irreversível no local. A nossa vizinha de quarto e o atendente foram testemunhas das nossas misteriosas últimas noites. Aguardando no saguão está o detetive Kim Kitsuragi, que veio de outra delegacia para nos auxiliar em uma investigação sobre um assassinato no local e vai funcionar como um clássico parceiro de narrativas policiais.

Assim seguirá toda a aventura do policial pela cidade de Revachol: uma luta minuto a minuto com o seu presente sem conseguir afastar os fantasmas do seu passado. Qual é o seu nome? Quem é a sua família? Eles te amam? Onde você mora? Qual a sua delegacia? Alguém lá gosta de você? Você era um bom policial? O que, diabos, você está fazendo nessa cidade? Cadê seus equipamentos e carro? São mistérios a serem resolvidos tanto quanto o caso para o qual você foi designado.

Communards, Coallition e Traditionalists

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O jogo é ambientado no fictício distrito de Martinaise, uma das áreas de Revachol, a antiga capital do mundo. Revachol já foi um paraíso da desigualdade com um monarca no poder. A cidade passou por uma revolução comunista que suprimiu direitos e, por sua vez, foi fuzilada por uma intervenção internacional em conjunto com o exército local. Hoje, a cidade é um experimento libertário onde o livre mercado reina acima do interesse coletivo. O lugar continua com uma bota sobre a cabeça dos menos favorecidos, especialmente por conta das interferências dos estrangeiros que exploram o trabalho local.

O resultado é um mar de conflitos políticos e desolação por todos os lados. As corporações são o clássico vilão que busca riqueza e individualismo enquanto pobres morrem de fome na sarjeta. Os sindicatos são corruptos, seus líderes descritos como "socialistas caviar" que utilizam o submundo do crime para ficarem mais ricos e se manter no poder. A força policial tem pouco o que fazer, já que o estado é coadjuvante em toda essa história e ficou ausente do distrito por anos.

O resultado é um mar de conflitos políticos e desolação por todos os lados. As corporações são o clássico vilão que busca riqueza e individualismo enquanto pobres morrem de fome na sarjeta

Como toda e qualquer ideologia de extremos fracassou aqui e aqueles que se posicionaram no centro serviram apenas para justificar a ascensão de uma ou outra parte, o ser humano comum de Revachol parece não ter salvação. Por conta de todas essas falhas da sociedade, você verá de tudo um pouco, de gente que venera o capital, a seguidores de ideologias falidas no século passado. Vários deles utilizando essas experiências ideológicas para justificar racismo, xenofobia e crimes hediondos como assassinatos.

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A cada conversa em busca de pistas sobre o homem assassinado atrás do seu hotel, sua missão aqui, você será questionado sobre seus valores e ideais. Você será zombado por alguns e idolatrado por outros. Às vezes até mesmo zoado pelos pensamentos do seu personagem.

Ao chafurdar no mar de lama que sindicatos, corporações e trabalhadores criaram neste distrito, você vai descobrir que a política está interligada com tudo, como na vida real. Vai questionar o que acredita, vai descobrir sobre o mistério do homem enforcado, vai descobrir mais ainda sobre você e também sobre os desenvolvedores da ZA/UM, um estúdio da Estônia: um país que foi governado por monarquia, se juntou a revolução russa e foi duramente reprimida pelo exército local, ficou livre, foi invadida pela URSS, pela Alemanha e novamente pela URSS até se tornar livre muitos anos depois. A semelhança com a Revachol de Disco Elysium não é coincidência.

Você será questionado sobre seus valores e ideais. Você será zombado por alguns e idolatrado por outros. Às vezes até mesmo zoado pelos pensamentos do seu personagem.

A ambientação dos cenários deixa todo esse pano de fundo bem visível. Os prédios antigos, que antes eram baluartes da riqueza, agora estão caindo aos pedaços, repletos de sinais da guerra violenta que foi travada pelos Communards contra os gringos da Coallition. Estátuas antigas mostram o que restou dos reis do passado. A indústria, fechada por uma greve, esconde segredos sobre cada classe social ali presente. As pessoas com quem você interage são reflexos do que herdaram desse passado.

"Disco Elysium" não tem medo de ser político. Embora tente sem muito esforço, não esconde o lado dos desenvolvedores, o que não é nenhum problema, já que é bem escrito como poucos e deixa nas mãos do jogador decidir no que acredita. Independentemente dessa escolha, ele provoca e coloca os credos à prova.

E o gameplay?

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"Esse não é um jogo para todo mundo" é talvez a pior descrição para um game, já que no geral nenhum título agrada 100% dos jogadores. No entanto, "Disco Elysium" é, definitivamente, um jogo que destoa bastante do mainstream e pode ser chato para muitos jogadores que não tiverem paciência.

O primeiro ponto de conflito será o uso da câmera isométrica. Se você já teve contato com essa orientação, seja em jogos mais recentes, como "Divinity Original Sin 2", ou em clássicos com os antigos Fallouts, já sabe o que esperar. Caso contrário, pode ser um ponto de desgaste.

Outra pedra no caminho é o foco no texto, muitas vezes sem dublagem, o que exige longas sessões de leitura, em que cada detalhe importa, e as decisões não são nada gratuitas. Como por enquanto o jogo só está no PC, a movimentação do personagem é no clássico "point and click". Clique em um local e veja seu personagem se mover até ele pelo "melhor caminho possível". Também não há combate ou mecânicas de ação que exijam destreza com os controles.

Todos esses pontos devem afastar muitos jogadores mais casuais, acostumados só com a fórmula repetida à exaustão dos Triple A do mercado, mas indico a experimentação por conta da ótima narrativa e especialmente seus sistemas de interação.

Costumo criticar os jogos que abrem mão de gameplay para abusar das cinematics, algo muito frequente nas duas últimas gerações, mas não é o caso aqui. "Disco Elysium" tem foco narrativo, mas os diversos sistemas na sua complexa árvore de diálogos focam na interação. Você quase nunca é um jogador passivo: precisa fazer sempre escolhas e colhe quase que imediatamente alguma consequência pelos seus atos. É apenas uma forma diferente de executar ações a que estamos acostumados.

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Durante toda a jornada, o protagonista coloca em ação suas perícias para auxiliar na resolução de crimes. São várias delas: físicas, motoras, intelectuais e de psique. Quanto mais níveis em uma destas habilidades, mais "auxílio" você vai recebendo nos diálogos. Ao interrogar um suspeito, a habilidade de 'drama' pode te auxiliar a descobrir se ele está contando uma mentira ou não. Habilidades físicas permitem maiores chances de vencer um inimigo em uma briga ou ainda aumentar sua tolerância a danos causados por entorpecentes. Já habilidades de 'psique' permitem ter uma melhor relação com as pessoas, ser mais empático.

Ao interrogar um suspeito, a habilidade de 'drama' pode te auxiliar a descobrir se ele está contando uma mentira ou não

Com o passar do tempo, você acaba se tornando um detetive clássico de livros, com uma intuição afiada e apto a realizar mais tarefas, como invadir casas ou deduzir cenários a partir de pistas obscuras. Como você nunca será perfeito, algumas habilidades mais fracas podem acabar te enganando e te enviando para uma furada, como impulsos corporais para dar em cima de alguém que não te deseja. É um conflito interno eterno e divertido, já que cada uma dessas habilidades tem uma voz interna na sua cabeça.

O sistema de equipamentos conta com roupas que melhoram seus atributos nessas perícias. No fim do dia você será um personagem completo de um RPG de mesa, com uma build focada em alguma tarefa e que vai enfrentar os perigos, aqui narrativos, com o que escolheu. Nesse ponto o jogo brilha, já que dá uma gama enorme de possibilidades de resolução para cada problema, fazendo qualquer escolha de build funcionar de alguma maneira interessante.

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Explorar os distritos de Revachol é outro ponto alto do jogo. Os diferentes locais escondem segredos, itens preciosos, dinheiro - muito importante aqui, e uma enormidade de missões secundárias interessantes, que contam mais sobre o mundo e abrem novos caminhos na campanha principal. Coisas simples como cantar num karaokê ou passar um trote se tornam experiências inesquecíveis en "Disco Elysium". No caminho para novos locais você pode solucionar novos crimes, decidir se será corrupto ou não, acumular novos pensamentos que definem o seu personagem em uma aba de aprendizado muito interessante e muito mais.

Cada NPC é uma alegoria literária de encher os olhos, personagens profundos e com diálogos dignos de nota. Conhecer todos é tão divertido quanto encontrar todos os itens, e cada conversa é um embate de ideias que pode fazer você se dar bem ou mal. Com o tempo você se torna um cidadão do local e divide as preocupações dos locais. É um mundo crível e muito instigante.

Infelizmente, o jogo ainda não conta com localização para o português. Com a provável chegada aos consoles de mesa no ano que vem e as boas vendas do jogo após suas premiações no The Game Awards, quem sabe não role uma tradução. No momento o jogo só é indicado para quem domina bem o inglês, já que em vários pontos a linguagem é bem rebuscada.

Resumo

Sem medo de ser político, "Disco Elysium" está inserido em um universo crível e cheio de nuances. Com uma escrita primorosa e bem acima da média para a mídia, conta a jornada de um policial sem memória, uma página em branco, mas que para construir o amanhã precisa lidar com o que fez no passado. Nessa aventura o jogador vai descobrir um pouco de tudo: sobre o caso de assassinato, as intrigas políticas do local e também sobre ele mesmo, já que seus valores e crenças serão testados a todo minuto nesse que é um dos jogos mais memoráveis do ano e quem sabe da geração.

Lançamento: 15/10/2019
Plataformas: PC (futuramente para consoles)
Preço sugerido: R$ 75,49 (PC, via Steam)
Classificação indicativa: 14 anos (Violência, Linguagem Imprópria, Drogas, Drogas Ilícitas)
Desenvolvimento: ZA/UM
Publicação: ZA/UM

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