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Wolfenstein: Youngblood continua a saga antinazi com brutalidade e humor

Makson Lima

Colaboração para o START

01/08/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Jogo de tiro é um spin-off de "The New Colossus", que acontece 20 anos depois do jogo
  • No futuro distópico, o nazismo venceu e montou exércitos de robôs e supersoldados
  • "Youngblood" traz a história de duas irmãs que lutam juntas para libertar uma Paris sitiada
  • Brutalidade e senso de humor marcam o jogo, que está dublado em português brasileiro
  • Modo cooperativo permite convidar amigos que só tenham a versão demo do jogo

O novo "Wolfenstein" continua sendo o que você esperava: um jogo de trucidar nazistas em um combate brutal. Ele chega a ser bem diferente de seus antecessores, mas não me entenda mal: o tiroteio intenso, o design de fases complexo, cheio de possibilidades, e o grafismo (leia-se: tripas e sangue), continuam intactos. Acontece que a MachineGames não está sozinha nessa nova empreitada e se junta ao estúdio Arkane, de "Dishonored" e do mais recente "Prey", para reformular a resistência.

O resultado da parceria é dos mais polarizados: tem lá seus grandes momentos, mas cai na armadilha dos maneirismos incômodos vistos em tantos outros jogos recentes. Como, por exemplo, a suposta "profundidade" atrelada a elementos de RPG. O combate continua fluido e visceral, mas talvez seja o capítulo mais fraco em termos de personagens e narrativa.

Fodásticas e empoderadas

Soph e Jess são filhas de BJ Blazkowicz e Anya, o casal mais antinazismo do entretenimento eletrônico - Reprodução
Soph e Jess são filhas de BJ Blazkowicz e Anya, o casal mais antinazismo do entretenimento eletrônico
Imagem: Reprodução

"Youngblood" é o resultado de décadas de luta. A força nazista foi totalmente desmantelada de alguns países, como os Estados Unidos. Lá, mais precisamente no Texas, BJ Blazkowicz e Anya, o casal mais antinazismo do entretenimento eletrônico, teve suas filhas gêmeas, Soph e Jess.

São os anos 1980 e a França continua ocupada. BJ desaparece, misteriosamente, e as irmãs Blazko, escondidas da mãe e juntamente a melhor amiga especialista em tecnologia, Abby, partem em busca do pai, para uma "eurotrip" no coração de Paris. Lá, juntam-se à resistência nas catacumbas da cidade, que é onde a base de operações está instalada. O lugar é um ossário que, paradoxalmente, respira vida.

Escolher entre Soph e Jess não faz qualquer diferença, pois as duas personagens têm desempenho idêntico, o que foi uma decisão proposital. No entanto, seria uma boa ideia se houvesse particularidades específicas de cada uma delas. Já de início, é possível sentir a influência da Arkane em "Youngblood", mas isso não é, necessariamente, motivo de comemoração.

Parece que alguém já reservou a sala de reunião - Divulgação
Parece que alguém já reservou a sala de reunião
Imagem: Divulgação

"Youngblood" é cooperativo do início ao fim. Jogar com a IA, com um amigo ou um desconhecido são suas opções. Sim, você precisa de uma conta Bethesda para ingressar nas partidas, mas o incômodo é compensando com o Buddy Pass, que funciona muitíssimo bem. Quem tem o jogo e se torna anfitrião pode convidar qualquer amigo para participar quando e o quanto quiser. Duas coisas: o convidado precisa baixar a demo de "Youngblood" para conseguir ingressar e só ganha troféu/conquista quem é dono do jogo.

Quem tem o jogo e se torna anfitrião pode convidar qualquer amigo para participar quando e o quanto quiser.

Não tive muitos problemas com o desempenho da inteligência artificial. Como Jess, Soph sempre me acudiu quando necessário, sempre surgiu magicamente quando precisei acionar cansadas mecânicas de progressão em jogos cooperativos, tipo apertar dois botões ou puxar duas alavancas ao mesmo tempo. Ela também sempre tinha a piada certa, no momento certo. É claro que tudo funciona muitíssimo melhor com um amigo ou amiga "ao seu lado" (aspas porque o coop de sofá não é opção).

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É assim que eles fazem no Texas

As execuções corpo-a-corpo continuam brutais - Reprodução
As execuções corpo-a-corpo continuam brutais
Imagem: Reprodução

Quando "Youngblood" foi anunciado durante a conferência da Bethesda na E3 do ano passado, as expectativas foram às alturas, principalmente para fãs de "Dishonored". A parceria com Arkane deveria elevar a forma de se contar aquela história a um novo patamar. Não que fosse preciso: a MachineGames vinha fazendo um trabalho excepcional também nesse departamento.

Infelizmente, são poucos momentos marcantes nesse aspecto. A reviravolta é bastante previsível, o desenvolvimento das irmãs vai do cômico à galhofa, e a própria motivação ao desaparecimento de BJ parece só um gancho nada inspirado ao inevitável próximo capítulo da saga.

Infelizmente, são poucos momentos marcantes. A reviravolta é bastante previsível, e o desenvolvimento das irmãs vai do cômico à galhofa.

Jess e Soph foram treinadas para a guerra e com a seguinte ideologia: não há absolutamente nada positivo no nazismo. Nada. E que essa mensagem fique encrustada a ferro e fogo em futuras gerações. Suas realidades são mais esperançosas quando comparadas às de seus pais, mas como o roteiro conduz tais arcos narrativos, do primeiro assassinato (com direito a cérebro na boca, vômito e comemoração) a banalização completa e absoluta da valorização da vida, é feito de forma simplória.

"Youngblood" é um jogo de trucidar nazistas, assim como os "Wolfenstein" anteriores também o foram. "Make America nazi-free again", como a Bethesda bem colocou quando divulgou "The New Colossus", é sinceridade brutal. Fazer da França livre só poderia ter rendido mais momentos memoráveis, como foram as jornadas de Blazko pai, o assassino de Hitler. Aliás, os pesadelos de BJ estão de volta, só que na forma de fliperama, acessado por quem tiver saudades de bater um Wolfenstein clássico, ali no cantinho escuro da Catacumba.

Tempos modernos: grind e RPG

Não tem Street Fighter II, mas tem o Wolfenstein clássico - Reprodução
Não tem Street Fighter II, mas tem o Wolfenstein clássico
Imagem: Reprodução

"The New Order" havia sido um choque meio que brutal. A ideia da Segunda Guerra vencida pelos países do eixo é o pesadelo no qual a retomada de Wolfenstein (e pelas mãos de ex-membros do estúdio Starbreeze, dos excelentes "The Chronicles of Riddick" e "The Darkness") fez questão de se inserir, com "The Old Blood" e "The New Colossus" indo ainda mais fundo nessa realidade pandemônica. Não à toa, temos aí alguns dos momentos mais memoráveis (e traumatizantes) que um FPS pôde conceber nos últimos anos.

Ao contrário dos últimos "Wolfenstein", que remetiam a tempos distantes dos FPS, com progressão linear e estágios bem definidos, "Youngblood" é mais aberto, conduzido por intermédio de missões principais e paralelas, designadas por nível de dificuldade. É como se aquilo que tem impregnado a Ubisoft de uns anos para cá, de "Assassin' Creed" a "Ghost Recon", tivesse alcançado a Bethesda. E isso significa o seguinte: viu a caveirinha sobre a cabeça do inimigo? É melhor escolher outro nazista para esbugalhar.

Ao contrário dos últimos 'Wolfenstein', que remetiam a tempos distantes dos FPS, com progressão linear e estágios bem definidos, 'Youngblood' é mais aberto.

Das mórbidas catacumbas para diversos bairros de Paris e via metrô, Soph e Jess, enquanto desvendam o sumiço do pai, ajudam a resistência a tomar a cidade das forças alemãs. Enquanto algumas vizinhanças mostram claros sinais de luta, com edificações destruídas e escombros para todos os lados, outras continuam conservadas e comportam a elite (a escória) nazista. No entanto, todas, sem exceção, estão repletas de soldados inimigos, que são repostos constantemente, como se a máquina de guerra continuasse muitíssimo bem lubrificada, pouco importando suas ações.

Ninguém aqui curtiu a pavorosa Torre Eiffel nazista - Reprodução
Ninguém aqui curtiu a pavorosa Torre Eiffel nazista
Imagem: Reprodução

A concepção de "grind" em jogos de RPG, do mais antigo dos "Dragon Quest" ao mais recente dos "The Division", é um tanto quanto famigerada - trata-se de uma forma bem preguiçosa (para não dizer arcaica) de estender a duração do jogo, na ideia de manter quem joga sempre ocupado. Missões secundárias acabam se tornando obrigatórias caso você não queira se frustrar com oscilações brutais na dificuldade. É o conceito de "esponja de bala" elevado à enésima potência. Por sorte, tais missões são quase sempre bem arquitetadas, levando a locais ainda não explorados e nos forçando a realizar novos feitos.

Apesar disso, custei a cansar de explorar os cenários, dado o alto nível de detalhes e a quantidade de colecionáveis interessantes. Você sempre vai encontrar um apartamento ainda não vasculhado, um ponto de controle ainda não revirado ou uma estátua de Hitler ainda não fuzilada. Moedas de Prata estão espalhadas para todos os lados, seja em containers protegidos por senha, seja no bolso de suas vítimas; assim com pontos de XP, concedidos a todo momento, por toda e qualquer ação - fazer uso de furtividade (e a armadura especial das irmãs detém até capacidades de invisibilidade) por uma área inteira, pode render uns bons pontos de experiência extras.

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Gameplay impecável

É tipo um show do Rammstein - Reprodução
É tipo um show do Rammstein
Imagem: Reprodução

A Bethesda tem caprichado nas localizações de seus jogos para o Brasil e "Youngblood" não faz diferente. As gêmeas soltam todos os palavrões necessários nos momentos mais cabidos (ou nem tanto), e há até um sotaque afrancesado em alguns NPCs, algo raro para o idioma ptBR, mas muitíssimo bem-vindo aqui. Ainda há alguns poucos problemas de concordância, advindos de frases continuadas num mesmo diálogo e que parecem desconexas por terem sido gravadas e traduzidas de forma independente. É questão de ajuste fino, e isso tem acontecido mais e mais em todo processo de dublagem aqui para nossos lados.

O esquema de "perks", nascido em "The New Order", dá espaço a algo mais convencional: árvore de habilidades, dividida por categorias. Bem qualquer coisa mesmo e que, no final das contas, afunila para o truculento, como costuma ser nesse tipo de jogo. A exemplo de "The New Colossus", o traje ultratecnológico das irmãs carrega surpresinhas na manga, relevadas só lá pelo final do jogo. Fora isso, é mesmo o básico da abordagem mais direta ou mais furtiva.

Acontece que a fluidez do combate em "Youngblood" é tão incrível, com direito a pulo duplo de fábrica e o sentimento de que podemos bater de frente seja lá com quantos Übersoldados aparecerem pela, que dá para fazer vista grossa para todos os problemas que eu já citei.

A fluidez do combate em 'Youngblood' é incrível, com direito a pulo duplo e o sentimento de que podemos bater de frente seja lá com quantos Übersoldados aparecerem.

As já mencionadas moedas prateadas servem para aprimorar ainda mais um arsenal tão poderoso quanto enxuto - são poucas as armas, mas são muito mais que suficientes, e até abrem possibilidade a um aspecto um tanto quanto metroidvania na forma como exploramos os mapas. Até mesmo a pouca diversidade nos inimigos (até robôs gigantes chefões repetem) e os soldados ciborgues, nada inspirados em design e função, é problemática menor dado o quão excepcionalmente bons são os tiroteios. E nada como mandar um "devil horns" para acalorar ainda mais os genocídios.

Sim, chifrinhos do metal marcando presença - Reprodução
Sim, chifrinhos do metal marcando presença
Imagem: Reprodução

"Wolfenstein: Youngblood" acaba sendo o mais fraco em termos de narrativa e personagens, o que é triste quando pensamos ter o envolvimento da Arkane no projeto, e todo aspecto de RPG, acaba como ruído, como algo sobressalente. Jess e Soph são o destaque, assim como a capacidade sobre-humana de seus trajes e o arsenal, levando a um combate fluido, visceral, cortesia da sempre ótima MachineGames.

Wolfenstein: Youngblood

Divulgação
Imagem: Divulgação
"Youngblood encara o nazismo distópico com um combate fluido e visceral, mas acaba sendo o episódio mais fraco em termos de narrativa e personagens."

Lançamento: 25/07/2019
Plataformas: PC, PS4, Xbox One (e Google Stadia)
Preço sugerido: a partir de R$ 115,00
Desenvolvimento: MachineGames, Arkane Studios
Publicação: Bethesda

*O Review foi realizado com uma cópia do jogo cedida pela Bethesda.

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