Topo

Reviews


"Fire Emblem: Three Houses" agrada com gameplay denso e intrigas políticas

Fire Emblem Three Houses - Banner - Divulgação
Fire Emblem Three Houses - Banner
Imagem: Divulgação

Tiago Alcântara

Colaboração para o START

31/07/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Jogo de RPG tático combina batalhas com gerenciamento de tempo e recursos
  • Além de formar seu exército, é preciso treinar alunos e planejar atividades
  • Jogo de Nintendo Switch trabalha com sistemas complexos e exige muitas horas de dedicação
  • Nos níveis mais difíceis, a morte de um personagem é permanente

Não existe uma forma simples de dizer isso: se você não consegue colocar um jogo de lado antes de curtir tudo o que ele tem a oferecer, "Fire Emblem: Three Houses" vai roubar várias horas da sua vida. Mais especificamente, dezenas de horas.

O novo RPG tático da Intelligent Systems não teria um momento melhor para chegar ao Nintendo Switch. É a primeira vez em mais de uma década que o jogo é lançado em um console de mesa da fabricante japonesa. Depois de quase ter sido extinta e ver seu renascimento nos portáteis - e seus gráficos simplificados - temos a primeira experiência da franquia com gráficos em alta definição. Mas não se engane: há muito mais em "Three Houses" do que apenas seu visual.

A nova entrada surfa na onda de popularidade da série e é uma das mais ambiciosas que já foram lançadas no ocidente.

O game investe em várias das características que chamaram a atenção dos fãs recentemente. A principal delas é a mistura de um cenário de fantasia medieval com protagonistas carismáticos, desenvolvidos ao estilo anime. Para os fãs mais tradicionais, temos, claro, mapas e mais mapas de RPG tático com um nível de dificuldade que vai no normal ao modo lunático - este último deve chegar em breve, após o lançamento.

Mas, primeiro, vamos falar de...

Três corações, uma história

Reprodução
Imagem: Reprodução

O argumento de "Three Houses" tem fortes contornos políticos. Você inicia sua jornada no papel do mercenário Byleth (ou mercenária, você é quem escolhe), auxiliando os três futuros líderes do continente de Fódlan. Logo de cara, o jogador precisa escolher se irá oferecer seus serviços para Edelgard (Black Eagles), Dimitri (Blue Lions) ou Claude (Golden Deer). Quem também faz companhia para você é Sothis, uma misteriosa garotinha que só você vê.

Por padrão, cada uma das casas privilegia um tipo de unidade, por isso a decisão é tão importante. É nesses minutos iniciais do game que você é alistado como professor de um dos membros do trio e de seus comandados.

O jogo exclusivo de Switch traz uma inspiração forte em "Genealogy of the Holy War", um dos títulos favoritos dos fãs antigos da série, que só foi lançado no Japão. Há aqui, claramente, uma igreja com poder demais nas mãos e interesses de inimigos sobrenaturais para apimentar o enredo.

A escolha também significa que o seu personagem deve se alinhar com uma das visões disponíveis no conflito que vai ameaçar a paz do continente após um salto temporal. A história é separada por capítulos e os seus dias são divididos entre as atividades como professor, o relacionamento com alunos e outros membros do mosteiro e uma porção de atividades disponíveis (desde pesca até banhos na sauna).

Primeiro dia de aula

Quem nunca jogou um título da franquia "Fire Emblem" pode achar a versão de Switch um pouco opressora no início. Tudo é apresentado, praticamente, de uma vez para os jogadores: desde mecânicas novas até os personagens ao lado de quem você vai passar diversas horas.

A única dica possível é: muita calma, é realmente um primeiro dia de aula. Tome o tempo necessário para se ambientar com a navegação (e use os atalhos de viagens rápidas sem o menor pudor). Como ponto de entrada, no entanto, "Three Houses" tem a preocupação de deixar vários caminhos disponíveis. Ou seja, é possível passar o tempo fazendo amizade e conversando com todos os membros possíveis do monastério ou simplesmente focar em aulas automáticas e passar mais tempo em batalhas.

Reprodução
Imagem: Reprodução

No fim das contas, você escolhe o tipo de professor que quer ser: desde aquele mais dedicado e que segue à risca o conteúdo do livro didático ou mais livre, deixando a bola com os alunos na educação física.

Com poucas horas de gameplay, é possível perceber quanto o time criativo da Intelligent Systems caprichou no argumento dos personagens em "Three Houses". Além de personalidades bem distintas, cada uma das casas tem um mix de características para agradar todos os gostos. E, como é de se esperar, as aparências podem enganar - e muito - conforme você vai se aprofundando nos dilemas e traumas de cada um nos seus relacionamentos.

As cenas animadas que intercalam os diálogos e as batalhas também são um show à parte. Os créditos vão todos para o Studio Khara, responsável pelos longas da animação Rebuild of Evangelion, fundado por Hideaki Anno.

Lembra dos gráficos em alta definição? Esse é um ponto que ficou devendo aqui. As animações e cutscenes que usam a engine do game estão bonitas, mas os gráficos, em geral, não são lá dos mais atraentes. No modo portátil, "Three Houses" é bonito, mas seus gráficos parecem rústicos demais em uma TV.

Ah, um outro alerta: a trilha sonora orquestrada do game vai ficar na sua cabeça por um bom tempo. Notadamente, o game cresceu para abraçar elementos de outros games do gênero, como "Persona". Esse também é o primeiro "Fire Emblem" completamente dublado em dois idiomas. Já as legendas ficam devendo o idioma português, dificultando a vida dos jogadores BR.

O senhor do tempo

Planejar sua semana, e seus domingos, é fundamental para não perder tempo - Reprodução
Planejar sua semana, e seus domingos, é fundamental para não perder tempo
Imagem: Reprodução

A principal novidade para o game é o sistema de calendário, no qual você pode selecionar as atividades que vai realizar com seus alunos de segunda a sexta e também explorar o monastério durante os fins de semana. A mecânica parece bastante inspirada em "Persona", com a diferença da ambientação de fantasia medieval. Um ponto positivo da organização por calendários é a possibilidade de realizar pequenas sidequests.

Por outro lado, o estilo de missão "leva e traz" não costuma dar muito incentivo além de adições de status e recompensas pouco atraentes. Ou seja, é um dos pontos que pode cansar depois de algumas horas.

Ah, dá para convidar os alunos para eventos sociais, como jantares e chás. Além de enriquecer a trama, esse tipo de relacionamento se reflete no suporte entre as unidades no campo de batalha.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Prontos para morrer (ou não)

Em grande parte, "Fire Emblem" se notabilizou tanto por suas batalhas épicas quanto por seu crescente nível de desafio. Nos games antigos, unidades perdidas em batalhas morriam de forma permanente e, bem, nunca mais voltavam. Isso aumentava consideravelmente a dificuldade dos mapas e punia cada decisão errada.

Nos jogos recentes, a fórmula foi aprimorada com requintes de crueldade: ao colocar o jogador no papel de estrategista - e envolvê-lo com os personagens - perder um de seus aliados em batalha fica ainda mais dramático. Se você jogar "Three Houses" no modo clássico, vai viver um pouco dessas situações.

Some a isso o fato de que, além de perder seus alunos, em alguns pontos da história você precisa derrotar unidades formadas por estudantes de outras casas do monastério. Pronto: temos uma das histórias mais emotivas de um "Fire Emblem".

Reprodução
Imagem: Reprodução

Mas nem tudo é dureza na vida de Byleth em Fire Emblem. Para não perder os jogadores casuais, o game tem alguns refrescos: há a volta do modo casual, no qual as unidades derrotadas retornam no fim dos mapas. Durante cada desafio, há ainda uma nova mecânica, chamada de Divine Pulse. Com ela, é possível voltar brevemente no tempo para refazer alguma das ações que podem levar seu time para a derrota - ou uma perda importante. O recurso refina uma ideia de "Fire Emblem Echoes: Shadows of Valentia", último game de 3DS da franquia.

Além da navegação pelo monastério, fica claro o auxílio da Koei Tecmo Games na produção com o uso de batalhões. A companhia, conhecida por ter criado o gênero de games musou, na qual você controla exércitos gigantescos, ajudou a Intelligent Systems no novo "Fire Emblem". Basicamente, cada um dos seus personagens pode controlar um mini-exército, que confere golpes especiais e alguns outros bônus no tabuleiro.

Para finalizar o tópico combate, há ainda uma quantidade incrível de classes de guerreiros diferentes. Isso torna as possibilidades de balanceamento e de abordagens bem distintas para enfrentar cada um dos mapas.

Como ponto negativo, há pouca variação entre os objetivos das missões. Basicamente, você precisa derrotar todos ou o general inimigo. Há pequenas diferenças, como um mapa envolto em neblina ou a exigência de vencer em uma quantidade de turnos ou proteger um aliado específico. Nada de novo para a série. Não que isso estrague a diversão, principalmente com a evolução no nível de dificuldade.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Um épico digital

Combinando os melhores elementos de seus antecessores em uma aventura intrigante, o novo "Fire Emblem" soa ao mesmo tempo como uma volta ao lar e uma evolução na franquia. A adição do sistema de calendário e das mecânicas para tornar o combate mais acessível são bem-vindas, mas devem ser refinadas ao longo dos próximos títulos.

Com uma história independente, esse é um ótimo momento para experimentar o mundo e os personagens de "Fire Emblem".

Já os desdobramentos da guerra em Fódlan e da influência da igreja na trama prometem surpreender quem achava que essa seria uma versão de Harry Potter - estamos muito mais na linha de Game of Thrones. Ao terminar a história, a curiosidade de viver os outros lados do conflito pode ser saciada jogando novamente - aumentando o valor de replay.

Se, de cara, o game dirigido por Toshiyuki Kusakihara não é o representante mais atraente da série, a impressão que fica é a de que "Three Houses" é um ambicioso gigante. A evolução do RPG tático deve figurar como uma das melhores adições ao já ótimo catálogo do Switch em 2019 e entregar horas deliciosas para qualquer fã - e até mesmo para quem é novo no gênero. Se a mistura de elementos e possibilidades parece demais à primeira vista, estamos falando de um jogo que rapidamente se torna irresistível.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Fire Emblem: Three Houses

Divulgação
Imagem: Divulgação
"Combinando os melhores elementos de seus antecessores em uma aventura intrigante, o novo 'Fire Emblem' soa ao mesmo tempo como uma volta ao lar e uma evolução na franquia."

Lançamento: 26/07/2019
Plataformas: Nintendo Switch
Preço sugerido: R$ 250,79
Desenvolvimento: Intelligent Systems
Publicação: Nintendo

*O Review foi realizado com uma cópia do jogo cedida pela Nintendo.

Mais Reviews