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Opinião: Série do Discovery+ contra igreja Hillsong é rasa e forçada

Hillsong, igreja nascida na Austrália nos anos 80, está no Brasil desde 2017 Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Colunista do UOL

20/05/2022 00h27

O serviço de streaming Discovery+ anunciou com certa insistência uma produção original: "Hillsong - O Escândalo por Trás da Megaigreja", que está no ar no serviço neste momento.

Desde o início, e isso fica claro, o objetivo óbvio dos primeiros três episódios desse "documentário" é desconstruir uma igreja evangélica nascida na Austrália há quase 40 anos (1983).

A Hillsong baseia sua doutrina em cantos de louvor e adoração. Prega o amor ao próximo, a educação e gentileza e o "fazer o bem".

Como toda igreja também tem seus defeitos e "defeituosos".

Há pastores ali dentro que ainda consideram a homossexualidade um "pecado". Inclusive na cúpula. Sim, como outras igrejas, ali dentro ainda há entre alguns líderes a mania de se intrometer na sexualidade e orientação dos outros.

Mas, vejam bem: a igreja Católica levou quase 2.000 anos para que um líder (papa Francisco) desse uma palavra de apoio e respeito aos gays.

A Hillsong tem apenas 40 anos. Quem sabe não evolua?

E ela também tem líderes que não fazem na vida privada aquilo que pregam no palco. Enfim, a inevitável hipocrisia.

Os hinos de louvor

Os grupos musicais da Hillsong Church (são vários, como United, Worship, London, Young etc) fizeram tanto sucesso que suas canções são regravadas o tempo todo, em praticamente todo o mundo (inclusive no Brasil).

Vocês, leitores, podem não saber, mas já devem ter ouvido alguma música dessa igreja, seja durante missas católicas ou cultos evangélicos.

Para começar, ao contrário do título do documentário, a Hillsong não é e nunca foi uma "megaigreja". É, no máximo, uma instituição religiosa mediana.

Ela está em 23 países e tem estimados 150 mil membros. Para comparação, a Igreja Universal está em 127 países e tem mais de 1,5 milhão de fiéis, segundo o IBGE.

Mas, até aí, vá lá.

Assédio e crimes

Que toda igreja, independentemente do tamanho, tem seus picaretas, criminosos, assediadores sexuais ou apenas adúlteros, também não é nenhum fato espantoso.

Não precisa nem ser igreja, não? Qualquer empresa os tem.

Que há e houve problemas de comportamento do fundador da igreja, Brian Houston, e de comandantes de "filiais" da Hillsong ao redor do mundo (como em Nova York), também não resta dúvida.

Brian Houston tanto tem culpa no cartório que deixou a cúpula da instituição no primeiro trimestre deste ano, após admitir que se calou sobre um caso de assédio de um comandado, e de ter comportamentos "impróprios" com fiéis e auxiliares.

O problema é que o Discovery+ se propôs a fazer um documentário, mas adotou a posição de "promotor" desde o primeiro minuto e na escolha dos entrevistados.

São cerca de 20 ex-fiéis ou ex-colaboradores cheios de rancor, ódio e mágoas. Muitos ali têm razão em ter ressentimentos.

Porém, entre eles há alguns que beiram o comportamento ridículo.

"Música hipnótica"? Faz-me rir

Por exemplo, logo no primeiro episódio uma entrevistada "acusa" a Hillsong de "entorpecer" os fiéis com sua música.

Ela diz que as canções entoadas na igreja provocam uma espécie de "lavagem cerebral" nos fiéis, que aquele "som maligno" causa uma espécie de "hipnose".

Ora, vejam só, leitores e leitoras.

Temos cerca de 1.000 anos de música oriental e ocidental relativamente bem documentados atualmente.

Mas, justamente essa ex-fiel descobriu que uma igrejinha australiana, ao fazer música com acordes maiores e menores, e sobrepô-los com uma melodia bonita, é algo "hipnótico" ou demoníaco.

É patético.

Isso lembra os tempos da Inquisição, quando organistas das igrejas que se atrevessem a tocar um trítono (conhecido como "acorde do diabo", que nada mais é que um acorde com intervalos específicos, como por exemplo dó maior / fá sustenido / dó maior) podiam ser levados a julgamento e até parar na estaca (não é exagero).

Esse depoimento, que traz de volta a Idade Média, e logo no início do documentário, já acende um alerta sobre o que virá a seguir.

Constrangedor que uma grife do porte e importância do Grupo Discovery use isso como "argumento" para desconstrução de seu "alvo".

Filme sem "outro lado"

Aliás, não há nem um mísero depoimento a favor da igreja, exceto "notas oficiais" esparsas aqui e ali.

Não parece um filme, mas uma demonização preconcebida.

Inclusive com uso de imagens de ex-líderes absolutamente inocentes de qualquer acusação, como as cantoras Brooke Ligertwood e Darlene Zschech (que deixou a igreja em 2010), sob uma narrativa sensacionalista e acusatória em "off".

O pai pedófilo do pastor

Como disse acima, Brian Houston, o fundador da Hillsong, pediu o boné após admitir que se omitiu em denúncias internas de assédio e de ter, ele mesmo, assediado mulheres.

Bem-feito para ele.

Porém, o documentário gasta um enorme espaço acusando-o que seu pai (Frank, morto em 2004) abusou sexualmente de uma menor em 1970, em Auckland, Nova Zelândia.

Brian, que já era um líder das Assembleias de Deus na Austrália, acabou demitindo o pai, assumindo a igreja dele e recriando outra, com o nome Hillsong.

No filme, para o Discovery+, quem "criou" a Hillsong foi o pai pedófilo de Brian. Além disso, também parece tentar culpar o filho pelo crime do pai.

O pastor bonitão

Boa parte do documentário também se debruça sobre Carl Lentz, o "pastor bonitão de Nova York" que teria "convertido" Justin Bieber. Para começo de conversa, o filme "debocha" e duvida da conversão.

Tudo teria sido "armado" para levantar a carreira de Bieber. Juízo puro e sem provas.

Quando ao pastor Lentz, sim, ele é (era) cheio de si, dono de um enorme ego e dono de uma fortíssima retórica religiosa nos cultos.

Pois Lentz, hoje com 42 anos, pisou na bola em 2020 porque, mesmo casado, passou a ter um caso com outra mulher. Foi expulso por isso.

Mas, em meio às "denúncias" do documentário, ele também é achincalhado —vejam só— por ter um tórax trincado e andar de calção baixo na praia ao lado de Bieber.

Sai o "jornalismo" documental, entra o moralismo raso.

"Máquina de dinheiro"

Outra coisa que o filme martela é que a Hillsong é a "igreja das celebridades", e que se trata de uma "usina de dinheiro".

Repete-se três ou quatro vezes o nome de Bieber para "provar" que é o lugar dos famosos", e que seu único interesse é se expandir ("dominar o mundo", segundo um entrevistado), além de arrancar dinheiro dos fiéis.

Ora, a igreja Católica, Espírita, a Universal, a Batista ou a Umbanda têm em seu seio muito mais famosos que qualquer Hillsong.

E também arrecadam dinheiro de fiéis ou recebem dízimos ou doações. Ou isso também é pecado ou crime dessas instituições?

Aqui abro um parênteses pessoal: não sou e jamais fui fiel da Hillsong ou de qualquer outra igreja, mas sou um curioso e estudioso de religiões desde os 12 ou 13 anos de idade. É minha grande paixão (muito mais que televisão ou mídia).

Inclusive já produzi um especial UOL Tab somente sobre novas religiões (aquelas surgidas nos últimos 50 anos; inclusive a Hillsong está lá).

Eu não só estudo a doutrina e história das igrejas, mas as frequento (todas) para entendê-las e vivenciá-las.

Sobre a Hillsong ser uma "máquina de tirar dinheiro de incautos", pessoalmente, posso dizer que assisti a três cultos da igreja em Londres num domingo de março de 2011, no famoso Dominion Theatre, na Tottenham Court.

E vi também dois outros cultos em São Paulo, logo que a igreja aportou no país, em 2017/2018.

Em nenhum desses cinco cultos alguém me pediu dinheiro ou dízimo ou qualquer ajuda ou colaboração financeira.

Em Londres, passei o dia com os fiéis: tomei café, lanchei, fiz amigos. Mas, não vi pedidos de dinheiro nem mesmo para bancar o que eu estava comendo e bebendo

Fato: a Hillsong deixa umas "sacolinhas" de vinil embaixo das poltronas do teatro em Londres, mas não se vê nenhum pastor "exigindo" ou "cobrando" colaboração dos fiéis (como em muitas igrejas neopentecostais brasileiras).

Quem quer, ajuda. Quem não quer ou não pode, tudo bem. Continua sendo bem-vindo.

Antidocumentário?

Não tenho conhecimento ou frequência suficiente para afirmar que não existam outras eventuais graves ou gravíssimas acusações contra indivíduos da Hillsong Church, ou contra a própria instituição.

Falo do que sei até hoje e do que assisti no streaming nessa primeira "temporada".

Porém, se o Discovery+ lançar novos e eventuais episódios usando o mesmo formato e roteiro condenatórios, a coisa vai ficar triste.

Para o Grupo Discovery, não para a Hillsong Church.

A certo ponto, parece que o objetivo é transformar a Hillsong em uma "Cientologia" —essa, sim, uma igreja repleta de famosos e de polêmicas, sendo que muitas são realmente comprovadas.

Parece uma fórmula (acusatória) pronta e parcial.

Há uma diferença entre fazer um documentário sério e isento, e simplesmente querer demolir uma pessoa ou instituição com qualquer argumento que venha à mão.

É decepcionante que uma grife como o Grupo Discovery tenha produzido (até agora) algo tão raso, forçado, enfadonho e, muitas vezes, apenas sensacionalista.

Mas, aguardemos os próximos capítulos.

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