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Ricardo Feltrin

Opinião: SBT "passa pano" para Marcão do Povo, mas pune mulheres

Marcão do Povo, do SBT, defendeu "campos de concentração" para infectados por coronavírus - Reprodução / Internet
Marcão do Povo, do SBT, defendeu "campos de concentração" para infectados por coronavírus Imagem: Reprodução / Internet
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

08/04/2020 15h21

Resumo da notícia

  • Ele defendeu campos de concentração para infectados por coronavírus
  • Para bajular Jair Bolsonaro, defendeu também prisão de governadores
  • SBT diz que a opinião de Marcão "não reflete" a da emissora
  • Mas puniu Sheherazade após ela emitir opinião no próprio canal no YouTube

A TV aberta brasileira desceu mais um degrau em seu já baixo nível nesta quarta-feira (08).

Os responsáveis pela "façanha" foram Marcão do Povo, âncora do telejornal "Primeiro Impacto", e sua emissora, o SBT.

Marcão fez um patético e tresloucado "desabafo" ao vivo, defendendo que o governo crie "campos de concentração" para isolar todas as pessoas com coronavírus.

O objetivo "nobre" de Marcão seria a reabertura do comércio, como Jair Bolsonaro não cansa de defender —ao contrário do resto do mundo.

"Atenção presidente. Não seria interessante pegar o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e criar um campo de concentração, de cuidados, com equipamentos mais sofisticados, os melhores profissionais, e colocar essas pessoas com sintomas (lá dentro)? (...)

"Porque aí, presidente, acaba com esse negócio de espalhar dinheiro pelos Estados?", vituperou o "politizado" apresentador ao vivo.

Marcão seguiu despejando dejetos verbais em rede nacional:

"Então, presidente, é uma dica: o senhor é o presidente da República! Dá (sic) um decreto aí, põe o Exército nas ruas, Marinha e Aeronáutica? e aí, o governador que descumprir, faz igual (ele) tá fazendo com o povo: Cana!", vociferou, voltando a defender em seguida a abertura do comércio e a "prisão" dos infectados em um campo de concentração.

A coluna consultou o SBT nesta quarta, para saber se a emissora tomaria alguma medida.

A resposta inicial foi:

"O SBT não se responsabiliza pelas opiniões pessoais de seus contratados e artistas. A opinião dele não reflete o posicionamento da emissora".

Depois da péssima repercussão, no entanto, a emissora decidiu suspender o apresentador na tarde desta quarta-feira (08)

Âncora pródigo em asneiras

O que chama mais a atenção é não só o uso vergonhoso da expressão "campo de concentração", ainda mais em uma emissora de propriedade de um judeu (cujos antepassados foram perseguidos e massacrados justamente nesses lugares macabros).

Marcão já é conhecido por proferir estultices publicamente (Deus nos livre de ouvi-lo privadamente).

O âncora está sendo processado pela cantora Ludmilla por racismo, pois a chamou de "macaca" ao vivo quando era âncora da Record em Brasília.

Com essa "passada de pano" para ele, o SBT demonstra claramente ter dois pesos e duas medidas em relação ao seu quadro televisivo.

De um lado, uma "política" machista e punitiva que faz vistas grossas para bobagens masculinas, mas pune e rebaixa as mulheres.

Silvio Santos já havia provado isso quando contratou o próprio Marcão, a despeito de sua evidente limitação como comunicador —provada com a fala deplorável sobre Ludmilla.

Provou novamente quando puniu Rachel Sheherazade "exemplarmente" no ano passado, porque ela deu uma opinião em seu canal pessoal no YouTube, criticando indignada a carcereiros depois de um massacre de presos em Altamira, no Pará.

Sheherazade foi retirada da apresentação do "SBT Brasil" um dia por semana, como "punição" por Silvio Santos.

A emissora também correu punir e afastar recentemente Lívia Andrade porque ela divulgou uma notícia errada no "Fofocalizando", uma "fake news" religiosa —uma idiotice da internet que falava de um álcool gel ungido vendido" por religiosos.

Lívia foi sumariamente afastada, depois de ser humilhada na TV por bispos da Igreja Universal do "parceirão" de Silvio, Edir Macedo.

Ela cometeu um erro? Sim. Mostrou ser uma pessoa sem caráter? De forma alguma.

Podemos até somar Mara Maravilha nesse rol de mulheres injustiçadas do SBT.

É outra que há anos vem sendo humilhada na emissora e tratada como um joguete.

Só mesmo a necessidade básica de Mara de comer, beber e pagar boletos justifica que ela suporte o humilhante tratamento que recebe.

Enquanto isso, Marcão pode espalhar suas convicções fascistas para o público da emissora sem qualquer problema.

Ratinho também está liberado e pode ajoelhar e bajular à vontade ao presidente "destrambelhado" em meio a uma pandemia mortal.

Dudu Camargo, por sua vez, pode achincalhar a própria imagem e tocar os seios de outra apresentadora em uma emissora de TV concorrente, durante o Carnaval.

Nada disso parece ter problema para Silvio.

Para ele nenhum problema com o vergonhoso e descarado governismo que sua emissora transborda. Nem com falta de respeito que tem por suas mulheres artistas.

E, obviamente, muito menos com seus cada vez mais escassos telespectadores com senso crítico.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL