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'Bolsonaro começou a destruir o continente': rapper Residente explica por que destacou presidente brasileiro em clipe

Trecho do clipe de "This is not America" - DIVULGAÇÃO / SONY
Trecho do clipe de "This is not America" Imagem: DIVULGAÇÃO / SONY

Ronald Ávila-Claudio - @ronaldavilapr

BBC News Mundo

22/03/2022 17h31

O rapper porto-riquenho lançou uma nova música junto com um videoclipe que mostra os abusos no continente e denuncia o que ele identifica como uma intervenção do governo dos EUA. Em uma das cenas, um ator representa o presidente Jair Bolsonaro limpando a boca com a bandeira do Brasil.

"Estamos aqui, ei / Estamos aqui / Olhe para mim, estamos aqui".

O novo single do porto-riquenho René Pérez, mais conhecido como Residente, pede que o mundo preste atenção aos abusos e sofrimentos que ele atribui aos Estados Unidos da América.

Mas, sobretudo, This is Not America mostra, segundo o artista, como os Estados Unidos se apropriaram do nome que pertence a toda uma região caracterizada pela diversidade de suas centenas de milhões de habitantes.

"Do ponto de vista dos Estados Unidos, tudo o que está presente no vídeo não é a América", diz em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Com isso em mente, o artista tentou retratar a América de ponta a ponta, para deixar claro que "é da Terra do Fogo ao Canadá".

A produção, que veio a público na quinta-feira e que já conta com milhões de visualizações no YouTube, une a voz de Residente à dupla Ibeyi, formada pelas irmãs de ascendência cubana Naomi Díaz e Lisa-Kaindé.

No clipe, ele encena protestos na Venezuela, Colômbia e Porto Rico; apresenta imagens de guerrilheiros, narcotraficantes e favelas; gangues que oram a um Cristo crucificado na praia e uma mulher que, separada de seu filho, o amamenta através de uma cerca; coloca pirâmides pré-colombianas no meio das cidades e substitui a Estátua da Liberdade por outra de uma pessoa de um povo originário. E também critica o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PL).

Também mostra eventos históricos específicos de forma crua, como o assassinato do músico chileno Víctor Jara, que foi baleado na cabeça em 1973 pela ditadura militar de Augusto Pinochet, após ter sofrido tortura.

A BBC News Mundo conversou com o artista sobre o simbolismo por trás de sua nova música. Confira trechos da entrevista abaixo.

BBC - O vídeo e a letra da música estão cheios de simbolismos. O que é a América para você?

Residente - O vídeo começa com uma obra do artista chileno Alfredo Jaar, que fez a mesma afirmação há cerca de 30 anos: a América é todo o continente, e não apenas um país. Foi nisso que me inspirei para dar o nome à música.

Do ponto de vista dos Estados Unidos, as situações que apresento no vídeo não fazem parte da América.

Obviamente, é a América e todos nós sabemos disso. Mas é um segredo aberto que as pessoas ouvem e deixam passar.

Quando você o interioriza, dentro do seu corpo, do seu ser e do seu espírito, incomoda saber que os Estados Unidos carregam um nome que pertence a todo um continente.

Nesses tempos em que as palavras e seus usos estão sendo modificados, o que as palavras significam, (...) pode ser um bom momento para buscar alternativas para a palavra 'América', em inglês. Quando se referem ao seu país, não precisam dizer 'América', podem dizer Estados Unidos. Fácil.

BBC - No vídeo, você apresenta acontecimentos em sua maioria trágicos ou que remetem ao inconformismo nos diferentes países da América Latina. Por que você decidiu mostrar este lado do continente?

Residente - Porque a maioria das situações que apresento no vídeo estão ligadas a intervenções dos Estados Unidos.

Qual a melhor maneira de dizer: 'irmão, você está levando o nome depois de ter feito a Operação Condor e ter matado meio milhão de pessoas, e ter causado indiretamente a morte de Víctor Jara durante a ditadura de Augusto Pinochet'.

Também é um bom momento para tocar em diferentes situações que ocorreram na Colômbia, na Venezuela e rever os importantes acontecimentos na América.

BBC - O vídeo é uma resposta ao clipe This is America, de Childish Gambino, que fazia uma crítica ácida ao racismo nos Estados Unidos?

Residente - Sou fã do Gambino. Meu vídeo mostra o que estava faltando em This is America. Estou completando-o, ajudando-o.

Eu canto com aborrecimento, porque eu faço rap do começo ao fim da música, e enquanto eu estou fazendo isso, é difícil parar e ser uma pessoa legal, como no final de uma piada.

Mas é por isso que digo "meu irmão" na letra. Eu o considero um irmão como todos os afro-americanos. Tem que haver uma unidade entre afro-americanos e latinos também.

BBC - A música de Gambino é de 2018. Há alguma razão para você lançar This is not America agora?

Residente - Esse é um tema que me ocorreu há muito tempo, desde antes da pandemia. A pandemia paralisou muitos lançamentos. A primeira parte do álbum foi a música René, que saiu há dois anos.

Parece que é uma resposta tardia, mas não, eu fiz a música rapidamente. Eu disse 'deixe-me contribuir com a ideia para preencher o que está faltando'. E foi isso que fiz.

BBC - Onde você gravou o vídeo?

Residente - Gravei o clipe em Tijuana, no México. Eu odeio voar. Eu odeio voar em todos os tipos de aeronaves. Foi fácil chegar lá por terra porque eu estava em Los Angeles na época. Tijuana é bem colorida, tem uma equipe de produção super boa, porque eles produzem muita coisa para Hollywood.

Todos os países latino-americanos compartilham visualmente muitas coisas: a cor dos bairros, as pessoas, nossa aparência física.

O México tem isso, é como um funil latino-americano onde tudo que passa pela América Latina tem que passar por lá antes de chegar aos Estados Unidos, e um pouco de tudo fica lá.

BBC - Por que você decidiu começar o vídeo com a líder nacionalista porto-riquenha Lolita Lebrón? (Ela foi presa em 1954 junto com outras três pessoas por atirar no Congresso dos Estados Unidos).

Residente - Para que outras pessoas possam conhecê-la, e quando perguntarem, possam falar sobre ela e sobre a situação colonial de Porto Rico. É uma boa maneira de começar o vídeo, com aquele evento do ataque ao Congresso.

É forte, sou porto-riquenho e estamos próximos do governo dos Estados Unidos. Nosso presidente é Joe Biden.

Mas a ideia principal é contar a história para pessoas que não a conhecem.

BBC - Essa ideia de culpar o colonizador pelos eventos que ocorrem na América Latina e em outras partes do mundo se tornou muito difundida.

Residente - Eu disse isso na música: 'Eu perdoo, mas nunca esqueço'. Eles (colonizadores) foram perdoados, mas não podemos esquecer a raiz de por que as coisas aconteceram.

É como dizer aos afro-americanos para esquecer todas as atrocidades cometidas contra eles. Você não pode esquecer isso. Você pode perdoar, viver em paz com isso, mas não esquecer.

Muitos brancos nos Estados Unidos também não esquecem disso e estão cientes, e têm o cuidado com os afro-americanos quando vão falar deles, mas é normal que haja essa coragem.

E não é contra os Estados Unidos, um país brutal. Eu tenho americanos na minha banda que amam This Is Not America. A música não é sobre criar uma ideia e um clichê de que nós odiamos os Estados Unidos.

Estamos apontando como o governo dos Estados Unidos doutrinou muitas pessoas a acreditar que eles são a América e como eles colonizaram todos os países e estiveram envolvidos na maioria das atrocidades que ocorreram na América Latina.

O mesmo vale para a Rússia e seus países adjacentes. O mesmo vale para a China. Países grandes sempre fazem isso.

Muitas pessoas se perguntam por que eu critico os Estados Unidos e ainda vivo no país.

Essa é uma pergunta bem boba. É como dizer a um venezuelano que se ele mora na Venezuela não pode criticar seu país.

BBC - Mas o que você responde quando alguém faz essa pergunta?

Residente - Há muitas maneiras de responder. Acredito na independência dos países, estou vivendo em um país independente, uma república. Mas eu não moro nos Estados Unidos integralmente, moro em Porto Rico. Essa é a coisa mais importante, o que acontece é que as pessoas inventam qualquer história. Eu trabalho nos Estados Unidos, às vezes por vários meses.

Mas se eu tenho uma casa em Porto Rico, isso não aparece. 'Ele comprou uma casa em Los Angeles'... Bem, é assim que dão a notícia. Mas minha casa fica em Porto Rico, eu voto em Porto Rico, estive em Porto Rico durante a pandemia. O que acontece é que tenho uma equipe de trabalho em Los Angeles, me reúno com ela, fico um tempo e volto para Porto Rico.

BBC - Das cenas e símbolos que você apresenta no vídeo, há alguns que se destacam, como o assassinato de Víctor Jara. Quais são os mais significativos para você?

Residente - Sim, é uma das mortes mais fortes. Mataram um músico por tocar música. É como se tivessem matado Nina Simone... Mas acho que há muitas imagens poderosas. A Estátua da Liberdade com os latino-americanos, acho forte. Bolsonaro também, comendo e limpando a boca com a bandeira do Brasil.

BBC - Por que você escolhe Jair Bolsonaro e não dá destaque a outros líderes latino-americanos?

Residente - Poderíamos fazer um vídeo de todos os presidentes lavando a boca com a bandeira. O que acontece é que havia apenas um espaço, e para mim quem ganhou o prêmio este ano por tudo que fez foi Bolsonaro.

Embora existam muitos, Bolsonaro tem algo particular. Por mais que esses líderes tenham cometido atrocidades, alguém que eu imagino limpando a boca com bandeiras é Bolsonaro. É alguém que incendiou a Amazônia, entende? Começou a destruir o continente.

Além disso, o Brasil é sempre excluído quando as coisas latino-americanas acontecem. As pessoas se esquecem do Brasil porque a população não fala espanhol. Então foi bom representá-lo desse modo. Mas acho que Daniel Ortega (presidente da Nicarágua) também mereceu, assim como muitos outros presidentes... Nicolás Maduro. Há uma lista de presidentes que merecem ser destacados pelo que fazem em seus países.

BBC - Tem uma parte com alguns jovens baleados na cabeça...

Residente - Esse trecho representa muitos dos jovens latino-americanos, estudantes, que foram assassinados. Estudantes que se manifestaram na Venezuela, em Cali, na Colômbia. Na Argentina, em todos os lugares.