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Na treta de artistas contra a Disney, quem ganha é a Netflix

Laysa Zanetti

De Splash, em São Paulo

05/08/2021 04h00

A batalha está lançada: de um lado, o streaming. De outro, os artistas. Quem vence essa disputa?

A treta, que já vinha esquentando desde dezembro do ano passado, ganhou um novo desdobramento com Scarlett Johansson processando a Disney por quebra de contrato, pelo lançamento de "Viúva Negra" no Disney+. O imbróglio parece ter aberto caminho para outros artistas pensarem em fazer o mesmo. E este pode ser só o começo.

Mas a disputa não é nova. Seus primeiros indícios estavam lá no final de 2020, quando a Warner anunciou que lançaria todos os filmes de 2021 nos cinemas e na HBO Max ao mesmo tempo. Na época, a notícia repercutiu, com alguns bem empolgados, e outros nem tanto.

Entre os primeiros detratores estavam Denzel Washington, Denis Villeneuve e Christopher Nolan. Denzel ficou irritado porque seu próximo filme, "Pequenos Vestígios", sequer tinha estratégia de divulgação; já Villeneuve e Nolan queriam mesmo era preservar a experiência cinematográfica.

Zendaya e Timothée Chalamet estrelam próximo filme de Villeneuve, a aguardada adaptação de "Duna"  - Warner Bros./Divulgação - Warner Bros./Divulgação
Zendaya e Timothée Chalamet estrelam próximo filme de Villeneuve, a aguardada adaptação de "Duna"
Imagem: Warner Bros./Divulgação

Quem se deu bem foi Gal Gadot. Como "Mulher-Maravilha 1984" estreou o modelo simultâneo, a intérprete de Diana Prince teve o seu contrato renegociado. Tanto ela quanto a diretora Patty Jenkins receberam uma compensação pela mudança.

O problema é que a cortesia não foi estendida aos envolvidos em todos os outros filmes. Segundo os advogados de Scarlett Johansson, algo semelhante aconteceu com a intérprete de Natasha Romanoff. A Disney contesta.

Por isso, a briga agora é entre gigantes. Atores e diretores estão saindo no prejuízo?

Alguns analistas acreditam que sim.

"No fim das contas, os talentos apenas querem ser pagos", afirma o analista Brendan Brady. "Eles querem uma parcela do arrecadado com VoD [video on demand]. Um executivo da Marvel teria garantido a Scarlett Johansson que o filme teria um lançamento exclusivo nos cinemas. Se for verdade, temos um problema."

A origem da treta

No centro dessa disputa está a negociação dos contratos. Todos esses filmes foram planejados para um lançamento cinematográfico, pré-pandemia. Por isso, os incentivos salariais eram baseados em bilheteria.

Quando o lançamento multiplataforma foi adicionado por causa do fechamento dos cinemas, os estúdios tiveram uma nova fonte de lucro, da qual os atores não conseguiram tirar proveito, porque os contratos já estavam assinados.

Daí, nasceu a confusão.

Netflix vitoriosa?

Paralelamente, um viés a se considerar é o da Netflix. Enquanto sua concorrente ganha manchetes desfavoráveis por causa de disputas financeiras com seus astros, a gigante do streaming rouba os holofotes pelo motivo oposto.

Para Scott Stuber, diretor de filmes originais da Netflix, a estratégia é fazer de tudo para que os grandes talentos enxerguem a companhia como sinônimo de liberdade criativa e equidade.

Stuber está determinado a atrair Christopher Nolan para a Netflix, ainda mais após o diretor de "Tenet" (2020) não ter poupado críticas à Warner. Um dia antes de o processo da Disney virar notícia, ele era destaque na mídia internacional dizendo justamente isso.

Farei tudo o que eu puder [para lançar o próximo filme de Nolan]. Neste mercado, não podemos ter ego. Levo um soco, caio e me levanto novamente - Stuber, em entrevista concedida à "Variety"

Alguns acreditam que o caos na Disney faz bem para a concorrente.

Quando toda a indústria diz: 'Vamos migrar para o streaming', e a Netflix diz: 'Somos um streaming, mas abrimos uma exceção para você, Christopher Nolan [ou quem quer que seja]', parece uma vitória de imagem para a Netflix - Julia Alexander, analista de estratégia da companhia de estudo de dados Parrot Analytics

Outros afirmam que a comparação não cabe.

"A Netflix não está gerenciando um serviço de vídeo sob demanda ao lado de ativos com um legado, como a Disney e a Warner", explica um agente que prefere não se identificar. "Stuber deveria estar mais preocupado em construir uma franquia de sucesso do que em conceder entrevistas."

Quem está mal?

Cena de 'Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis', da Marvel - Reprodução/Marvel - Reprodução/Marvel
"Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis" é o próximo lançamento da Marvel nos cinemas
Imagem: Reprodução/Marvel

Para a Disney, não é nada bom brigar com alguém da Marvel diante dos olhos do mundo. Esta não é primeira vez que um estúdio se desentende com um artista, mas é o maior caso até agora, na era do streaming.

Independentemente de Johansson ter ou não razão —e advogados divergem quanto a isso—, é uma rusga que a Casa do Mickey Mouse preferia não ter. Se a moda pega...

Entre investidores, a postura da Disney está sendo lida como "indiferente aos artistas". Mas existe uma preocupação em não deixar essa indiferença chegar até o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige —o cara que transformou os Vingadores numa franquia bilionária. Os próprios advogados de Scarlett pontuam no processo que o problema dela não é com Feige especificamente.

"Esse é o primeiro dominó caindo, o resto vai cascatear Hollywood afora", conclui Alexander. "As pessoas estão bravas. O que acontecer [neste caso] vai afetar todas as futuras negociações."