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70 anos de TV

A história da televisão no Brasil


Cadê o Bob Esponja que estava aqui? Por que não há infantis na TV aberta

Programas infantis: 70 anos da TV no Brasil - Carol Malavolta/UOL
Programas infantis: 70 anos da TV no Brasil Imagem: Carol Malavolta/UOL

Felipe Pinheiro

De Splash, em São Paulo

22/09/2020 04h00

Qual programa infantil marcou a sua infância? Depois de um período de ouro, as atrações para as crianças acabaram no museu da história da TV brasileira. Os 70 anos da TV aberta no Brasil são povoados de programas inesquecíveis e de estrelas que marcaram a infância de tantas gerações —de Xuxa a Maisa.

Canais como Globo, SBT, Record e especialmente TV Cultura foram responsáveis por grandes momentos da programação infantil brasileira, inclusive com uma acirrada disputa de audiência pelo público mirim.

Até uma rainha descendo de uma nave...

Mas por que as emissoras não produzem mais programação infantil como antes?

"Tirando a TV Cultura e poucas outras iniciativas, a TV brasileira tem uma dívida com a programação infantil", decreta Cao Hamburger, criador do "Castelo Rá-Tim-Bum".

Considero a televisão brasileira uma das melhores do mundo, mas com as crianças sempre falhou. Ela foi preguiçosa, ficou mais nos enlatados. Os desenhos animados nem eram brasileiros. É difícil fazer programação infantil de qualidade.

Talvez essa dificuldade tenha a ver com o fato de as emissoras abertas terem praticamente desistido das crianças. Mas, conforme o mercado foi se transformando e se afastando dos pequenos telespectadores, uma resolução sobre publicidade infantil saiu em 2014, ressaltando os danos da propaganda dirigida para as crianças.

Fátima ocupou o lugar do Bob Esponja e até hoje muita gente não superou

Já se passaram vários anos, mas sempre tem alguém lamentando...

Será que a legislação que visa proteger as crianças da exploração comercial é a responsável pelo fim dos programas infantis na TV aberta? Trata-se de uma questão polêmica.

Precisamos desmistificar de que só dá para fazer programação infantil com publicidade. Até porque, se fosse do interesse real das empresas de telecomunicação, elas poderiam financiar de outras formas. A grande pergunta é, por que se insiste na realização de publicidade infantil? Porque é a estratégia mais fácil de venda de produto, mas não é ética, justa e legal

Pedro Hartung - coordenador do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana

Na Globo, o "Encontro com Fátima Bernardes" enterrou a TV Globinho, em 2012, o último programa infantil da maior emissora do país. Hartung lembra que isso aconteceu no mesmo ano da criação do Gloob, canal infantil da Globosat com conteúdo direcionado exclusivamente ao público infantil.

"Isso [a criação do 'Encontro'] possibilitou com que a faixa antes destinada às crianças passasse a ser dirigida a um público maior. É uma mudança de estratégia do modelo de negócio".

Um mimo para as crianças

A programação infantil sobrevive no SBT com o "Bom Dia & Cia", além das novelas para esse público. A apresentadora Silvia Abravanel lembra que nem todas as crianças têm TV por assinatura em casa, onde os canais infantis fazem muito sucesso.

"As crianças quase não têm a que assistir na TV aberta e muitos não possuem acesso aos canais fechados. Então, mantemos nossos desenhos. Com tantos programas jornalísticos, de culinária, com linguagem e conteúdo adulto, reportagens recheadas de tragédias, as crianças ficam sem opção. O SBT tem esse mimo para elas."

No início, quando assumiu o programa, ela diz que sentiu certa resistência dos telespectadores

"O público não me entendia, não entendia o que uma mulher adulta estava fazendo ali, apresentando um programa para crianças. Porém, o SBT encontrou em mim essa fórmula mágica de colocar uma mãe para falar com as crianças e me incubiu de ser a mãe das crianças do Brasil."

A família de Silvio Santos é quem abraça com carinho a programação infantil do SBT. Além de Silvia, Íris Abravanel é quem assina as novelas infantis que fazem sucesso na emissora. Leva sua assinatura "Carrossel", "Chiquititas" e "As Aventuras de Poliana", entre outras.

Bum, bum, bum

Cao Hamburger criou um dos programas infantis mais emblemáticos da história da TV, feito sob medida para as crianças: o "Castelo Rá-Tim-Bum".

Era educativo sem ser chato, estimulava a imaginação e foi produzido no Brasil. Orgulho!

Ele lembra que, embora a TV Cultura acumulasse anos de experiência no ramo, levou quase um ano entre os primeiros esboços e a versão final da história do feiticeiro Nino e companhia.

O programa nasceu para ser uma continuação de outro sucesso: "Rá-Tim-Bum"

Mas acabou ganhando vida própria

"Fizemos um outro projeto, mas ficou muito caro. Percebi que os limites da produção, às vezes, são benéficos, porque era um programa muito caro e muito grande. Quando soubemos que não dava para fazer daquele tamanho, achamos o tamanho certo e melhorou", avalia Hamburger.

Os bonecos na TV

Fernando Gomes deu vida a três personagens no "Castelo Rá-Tim-Bum" (Relógio, Gato Pintado e Fura-Bolos) e a tantos outros de programas infantis que marcaram época, como o Júlio, de "Cocoricó".

Júlio também é youtuber!

Para ele, que também dirigiu o programa "Eliana e Alegria", na Record, os bonecos fazem sucesso independentemente da plataforma —seja na TV ou na internet—, porque falam a língua das crianças.

É possível encontrar uma criança brincando com lápis e caneta fingindo que são dois heróis. É fácil para uma criança imaginar vida em objetos inanimados. Quando vê um boneco com vida própria, a identificação é muito rápida. O maior segredo do trabalho com bonecos está nos adultos: a gente recupera a infância deles. É encantador

Fernando Gomes, diretor de TV e manipulador de bonecos