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Deuses e heróis das mitologias africanas que seriam campeões de bilheteria

Mitologia negra: fonte de inspiração
Mitologia negra: fonte de inspiração
Helen Oliveira/Divulgação

Silvia Nascimento

Colaboração do Mundo Negro para Splash

15/09/2020 04h00

O advogado e ativista Silvio Almeida, sempre tão sério, surpreendeu o público durante uma palestra quando confessou sua paixão pelos filmes da Marvel e descreveu, com muito entusiasmo, a primeira vez que viu "Homem de Ferro" no cinema. Em seguida, jogou no ar uma provocação: "A gente acha o Thor legal, mas não acha legal o Xangô, né?".

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"Fato é que não se pode falar de Xangô sem falar de poder. Ele expressa a autoridade dos grandes governantes, mas detém o poder mágico, já que domina o mais poderoso de todos os elementos da natureza: o fogo."

Essa é a descrição de Xangô, deus do Trovão, do livro "Candomblé, o Segredo da Panela" (Pai Cido de Osun, editora ARX).

A mitologia dos orixás renderia filmes e séries incríveis. As divindades iorubá, como o deus Xangô, representam os elementos da natureza e agora mais que nunca, sentimos a necessidade de estar conectados ao mundo dessa forma.

Divindades que representam os elementos da natureza, como a água, poderiam ter suas histórias contadas.

O escritor Durval Arantes, autor de "O Último Negro" (editora Vermelho Marinho) e de "O Enigma de Ashanti" (independente) diz que, se tivesse um projeto para o cinema, apostaria justamente nas histórias dos orixás.

Para uma melhor compreensão do imaginário afrocoletivo do Brasil, eu faria um filme com deidades do candomblé: Iansã, a orixá dos ventos e dos raios; Iemanjá, a orixá que reina nos mares e oceanos; Xangô, o orixá do poder, que comanda o fogo; e Ogum, o orixá das guerras, que domina o ferro.

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Arantes reflete sobre o apagamento das narrativas negras no contexto mitológico. "A mitologia egípcia influenciou a mitologia grega. A mitologia grega, por sua vez, influenciou a mitologia romana. E a mitologia romana lançou as bases para as doutrinas e uma boa parte do pensamento hegemônico eurocêntrico."

Os orixás do fotógrafo americano James C. Lewis - Reprodução - Reprodução
Os orixás do fotógrafo americano James C. Lewis
Imagem: Reprodução

Fábio Kabral autor de "Ritos de Passagem", "O Caçador Cibernético da Rua 13" e "A Cientista Guerreira do Facão Furioso" (editora Malê), referência nacional em afrofuturismo, ajuda a entender um pouco sobre deuses, deusas, heróis e heroínas tão venerados na literatura e nocinema, destacando que a mitologia africana é múltipla, assim como a europeia.

Os mitos existem. Não fisicamente, mas metafisicamente. Ao contrário da perspectiva europeia, que contraria a ciência, na perspectiva africana original os mitos são metáforas que complementam fatos científicos.

Kabral destaca personagens ele gostaria de ver no cinema ou na TV:

"O mito ambundu de sudika-mbambi, do garoto-prodígio com poderes mágicos que enfrenta os makishi [ogros], torna-se rei e é jogado no mundo dos mortos para enfrentar monstros terríveis. Ou então o mito do povo basuto lituolone, sobre a garota-deusa que nasce da última sobrevivente da Terra para enfrentar o devorador de mundos."

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Vários contos mitológicos, sejam na África ou nas Américas pré-colonização, têm função educativa, explica Ale Santos, afrofuturista e autor do livro "Rastros de Resistência (editora Panda). "São histórias que tentam ensinar jovens a se tornar adultos, a transmitir os valores e a importância de alguma casta social."

O guerreiro africano no cenário apocalíptico de Paul Louise Julie - Reprodução - Reprodução
O guerreiro africano no cenário apocalíptico de Paul Louise Julie
Imagem: Reprodução

A dinastia salomônica etíope é a grande paixão de Santos, sobretudo a narrativa de Makeda, que no ocidente é chamada de Rainha de Sabá. Em "American Gods", série da Amazon Prime, Makeda aparece na forma de Bilquis, uma versão de Neil Gaiman bem distante de quem ela realmente foi na história original.

No livro etíope, ela tem um filho com Salomão. Ele leva a arca da aliança para seu país, após conhecer a profecia de que o sol brilharia mais forte na Etiópia. Até hoje existe lá uma igreja que diz proteger esse artefato. Seria uma das histórias que eu teria o prazer de contar.

Enquanto essas histórias incríveis não chegam as telas, você pode saber mais sobre elas por meio dos livros:

"O Herói com Rosto Africano"
Clyde W. Ford
Editora Selo Negro

"Mãe África Mitos"
Lendas, fábulas e contos de Celso Sisto
Editora Paulus

"Mitologia dos Orixás"
Reginaldo Prandi
Editora Companhia das Letras

"Lendas Africanas dos Orixás"
Pierre Fatumbi Verger
Editora Fundação Pierre Verge

Errata: o texto foi atualizado
A imagem dos orixás do fotógrafo americano James C. Lewis foi publicada errada. A versão correta já está atualizada na reportagem.