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Diretor de 'Amor de Mãe': 'Trazer de volta a novela é quase como um afago'

José Luiz Villamarim e Manuela Dias, autora de "Amor de Mãe"
José Luiz Villamarim e Manuela Dias, autora de "Amor de Mãe"
Divulgação

Débora Miranda

De Splash, em São Paulo

08/09/2020 14h00

"A gente quer valer o nosso amor, a gente quer valer nosso suor." Poucas vezes uma música de abertura fez tanto sentido para uma novela quanto "É", de Gonzaguinha, faz para "Amor de Mãe". E, pós pandemia, isso se acentuou.

A equipe da novela retomou as gravações há um mês e está trabalhando sob um rígido protocolo de segurança, por causa dos riscos do coronavírus. Em entrevista exclusiva ao UOL, o diretor José Luiz Villamarim falou dos desafios de filmar em segurança e de como a equipe tem se emocionado ao retornar ao estúdio.

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"Após essa suspensão, trazer de volta a novela é quase como um afago. Tem sido uma sensação muito boa, de volta a um mundo que nós conhecíamos. Espero que o público sinta isso também."

A trama, bastante aguardada, volta ao ar em 2021.

Após reformulação, ficou combinado que seriam feitos apenas mais 23 capítulos —metade do que faltaria originalmente. Mas o diretor garante que será suficiente. Os fãs aguardam, ansiosos. Afinal, "a gente quer do bom e do melhor".

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

Agora que a Globo decidiu retomar as gravações, quais são as suas principais preocupações?

A minha preocupação era em manter a qualidade da novela, porque o protocolo é muito rígido para a segurança dos atores. Todos estamos expostos, mas eles tiram a máscara na hora de gravar. A decisão era como fazer, ser seguro e ainda assim não perder o DNA da novela, que tem muito contato físico. Agora que já rodamos várias cenas vejo que não vamos perder a qualidade. Está dando certo.

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Saudade de dar um abraço, né, minha filha?

Um dos itens do protocolo é evitar a afetividade, que é uma marca da novela. A Lurdes abraça todo o mundo, está sempre perto da família. Como vocês estão fazendo?

O que eu decidi, a partir de testes que fizemos, foi eleger cenas de beijo, ou de maior contato que precisam ser gravadas. Acho que usar truques faz com que elas fiquem falsas, não tem a ver com a novela. Então, a gente confina os atores em um hotel, faz teste de covid-19 e antes de gravar eles retestam. Aí, sim, a gente faz essas cenas.

O que significa para a produção adotar todos esses protocolos, em termos de tempo e de gasto, com relação ao que era antes?

A gente filmava um bloco por semana —do capítulo um ao seis. Antes, tínhamos quatro frentes de trabalho. Agora a gente tem duas frentes apenas e a equipes não se misturam. Se alguém ficar doente, a gente para essa frente por 21 dias. Assim, temos mais controle sobre os risco. Isso faz diminuir a produção, a gente deve fazer dois capítulos por semana. Ou seja, um terço da produtividade de antes.

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Os gastos aumentaram, não vou dizer que não. É um investimento grande em roupa [de proteção], testagem, acrílico, tudo isso impacta. Mas também diminuiu em outros lugares. Temos uma equipe muito mais enxuta, com muito menos figuração.

Nanda Costa e o diretor José Luiz Villamarim nos bastidores de "Amor de Mãe" - João Miguel Junior/Divulgação - João Miguel Junior/Divulgação
Nanda Costa e o diretor José Luiz Villamarim nos bastidores de "Amor de Mãe"
Imagem: João Miguel Junior/Divulgação

Como está sendo a postura dos atores, tanto no absorver as orientações como nessa parte de eventualmente terem de ficar confinados?

Todos estão muito dispostos. É cansativo o processo, mas os atores estão felizes de voltar a trabalhar, de poder exercer seu ofício. Sobre a questão do confinamento, tivemos muitas reuniões, expliquei a eles, que entenderam e toparam. Isso, no fundo, tem sido uma experiência fascinante. Estes dias foram bons. Difíceis, com algumas questões mais complicadas, mas bons.

Você disse que tem sido uma experiência fascinante. Em que sentido acha que isso vai transformar o seu trabalho?

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É fascinante no sentido de que estamos fazendo coisas que nunca imaginamos. E isso gera uma nova linguagem. Se você coloca um acrílico na cena, por exemplo, o ator não cruza, não passa na frente do outro. Se a emissão de voz for mais alta, pode emitir perdigoto. Tudo isso aponta para novos caminhos. Agora, a maneira de realizar o trabalho não vai mudar, as premissas seguem as mesmas,

O diretor José Luiz Villamarim e a atriz Adriana Esteves - Divulgação - Divulgação
O diretor José Luiz Villamarim e a atriz Adriana Esteves
Imagem: Divulgação

Pessoalmente, como essa experiência mexeu com você?

A questão do tempo mudou muito. A gente sempre acha que tem que fazer várias coisas e agora talvez possa pensar que a gente não "tem que" tanta coisa. A pandemia mostrou esse excesso de consumo, de estresse, de realizações. Isso vale a pena não perder. Espero que a gente consiga ressignificar coisas a partir dessa experiência. É o mínimo diante dessa quantidade de mortes no mundo.

O que vocês estão preparando para a volta da novela? Como espera atrair de novo a atenção do telespectador?

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Tem acontecido um negócio fascinante. Eu gosto de colocar música no estúdio e, na primeira cena que fomos gravar, quando eu pus a música, todos nós nos emocionamos. Eu, Regina Casé, Nanda Costa e quem mais estava lá. Após essa suspensão, trazer de volta a novela é quase como um afago. Tem sido uma sensação muito boa, de volta a um mundo que nós conhecíamos. Espero que o público sinta isso também.

Você sente alguma frustração com relação à novela?

Essa pandemia mostrou que a vida não está sob controle. E nós, diretores, adoramos controlar tudo. Por isso digo que não há frustração, há que se pensar sobre isso. Quando eu vi o protocolo, falei: 'É impossível. Como é que vamos fazer uma novela com os atores a dois metros de distância um do outro?'. Mas nosso ofício trabalha com a magia. E isso está se realizando. Espero que o público goste.

Todo o mundo que gosta da novela está sofrendo em ter só mais 23 capítulos. Não vai ser pouco?

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Todos queríamos que fosse mais, mas esse é um bom tamanho. Sem mexer no arco dramático da novela e no caminho dos personagens, a gente conseguirá fazer muito bem [o fim]. Não dá para relaxar. Essa doença tem risco de morte, a gente não pode esquecer isso. Não é uma brincadeira, não é uma gripezinha.

Qual é o seu olhar daqui para a frente? Acha que a tendência é que as produções sejam todas mais curtas?

Acredito que vai existir uma vacina e que a gente poderá voltar ao normal. Mas não vamos passar ilesos por isso, do ponto de vista da maneira de levar a vida. Precisamos repensar. Tenho feito pausas durante a gravação para trocar a máscara. Então a gente para, respira, sai do estúdio. É uma prática que não existia e estou achando produtiva e saudável. Talvez eu inclua nos próximos projetos.

Está sendo muito legal voltar. É bonito ver as pessoas, entre aspas, se arriscando em busca de realizar seu ofício. É de uma dignidade enorme. Voltamos a trabalhar conscientes e com respeito. Acho isso admirável.