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Pedro Antunes

Quero ser como a Rita Lee quando crescer

Quem não queria ser como Rita Lee aos 73 anos?  - Guilherme Samora / Montagem: Pedro Antunes
Quem não queria ser como Rita Lee aos 73 anos? Imagem: Guilherme Samora / Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

28/09/2021 12h00

O conservadorismo tem medo de gente como Rita Lee. Inquieta, espevitada, despirocada. A ex-ruiva e hoje grisalha era um assombro na infância, assim o foi ao lado de Os Mutantes e, depois, fez um rebuliço no pop nacional ao lado da grande paixão Roberto de Carvalho.

Aos 73 anos, Rita Lee desfere mais um tabefe bem dado na cara do conservadorismo musical - quem ficou parado no tempo e repete a mesma fórmula, vez após outra, amedrontado ou, pior ainda, confortável demais para experimentar algo novo.

Eis "Change", música com refrão em francês que "encarnou" pelo corpinho já magro de Rita quando ouviu a melodia criada por Roberto de Carvalho, como ele contou em um comunicado enviado à imprensa, e com outros versos cantados em inglês.

A produção é de Gui Boratto, DJ e expert em house, techno e suas nuances eletrônicas. A faixa tem um sabor pop, com a guitarrinha de Nile Rodgers, e uma voz entorpecida de efeitos de Rita.

O surgimento de "Change", aliás, é diretamente ligado ao projeto Classix Remix, todo dedicado à remixar os principais sucessos da carreira de Rita, coordenado pelo filho DJ do casal, João Lee - o próprio Boratto remixou duas músicas para o projeto.

Rita Lee, figura incrível, apresenta uma sede invejável pela arte até hoje.

Ao mesmo tempo em que olha para o seu passado, com o álbum de remixes e principalmente com a exposição no MIS (no Museu da Imagem e do Som), ela também quer saber do futuro, representado aqui pelo som pop house.

Queria escrever como Rita Lee, cujos livros ou mesmo entrevistas por escrito, são verdadeiras delícias pop, de ideias unidas por uma fluidez invejável.

Mesmo quando enfrenta o lado ruim de envelhecer, caso do câncer no pulmão da fumante inveterada, responde à doença com graça.

Rita viveu intensamente sua música. Com Os Mutantes, esteve ali ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil para estabelecer o que conhecemos como a Tropicália - justo ela com sobrenome gringo e tudo.

Depois, fez mais. Virou o pop rock brasileiro do avesso, primeiro com a Tutti Frutti (no álbum "Fruto Proibido", de 1975) e, já com Roberto de Carvalho, fez um estrago do bem (com os álbuns que levavam o nome dela, mas conhecidos pelos fãs como "Mania de Você" e Lança Perfume", de 1979 e 1980).

Rita soube a hora de parar, de deixar os palcos. O fez quando ainda tinha lenha para queimar vivendo a vida que queria, cercada de bichos, plantas e do companheiro.

Mais do que qualquer outro feito, Rita Lee amou. E ama, intensamente, como fica claro até no vídeo de "Change", nos projetos juntos, nas entrevistas em conjunto ou no pouco que mostram da vida deles pelo Instagram.

Com 73 anos, Rita amou, viveu, tocou, transou, rabiscou, reclamou, revolucionou e descansou, também.

Quando crescer, quero ser como Rita Lee.

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes), no Twitter (também @poantunes) ou no TikTok (@poantunes, evidentemente).