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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Horror em Brumadinho: novo livro de Daniela Arbex é duríssimo e necessário

Bombeiros trabalham após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. O desastre é tema do novo livro de Daniela Arbex. - Washington Alves
Bombeiros trabalham após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. O desastre é tema do novo livro de Daniela Arbex. Imagem: Washington Alves
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

24/01/2022 04h00

"Quando, afinal, conseguiu puxar o ar para os pulmões, passou as mãos no rosto, na tentativa de limpá-lo e entender o que acontecia. Foi quando sentiu que havia lama dentro da sua boca, dos olhos e dos ouvidos. Exausta, olhou para trás, onde deveria estar sua casa. Não havia mais nada, só enxurrada. O mundo dela tinha desaparecido".

Gritou pela família. Ninguém respondeu. "Embora visse sangue misturado ao barro, não se dava conta de que fraturara o nariz e o esterno e de que sofrera cortes da cabeça aos pés, como se houvesse sido mutilada com gilete". Questionou a própria condição. "Teve dúvidas: estava viva?".

Após revelar os horrores do maior hospital psiquiátrico que o país já teve em "Holocausto Brasileiro", reconstruir o pavor do incêndio da boate Kiss em "Todo Dia a Mesma Noite" e de sair um pouco do nosso terror cotidiano com a biografia "Os Dois Mundos de Isabel", Daniela Arbex volta ao que sabe fazer de melhor.

"Arrastados - Os Bastidores do Rompimento da Barragem de Brumadinho, o Maior Desastre Humanitário do Brasil", que acaba de sair pela Intrínseca, é mais um livro duríssimo. Seria melhor se não tivesse razão para existir, mas, se existe porque crimes disfarçados de tragédias seguem destruindo o país, que a leitura nos ajude a não esquecer, a descobrir novas nuances do horror e, quem sabe, a algum dia evitá-los.

No dia 25 de janeiro de 2019, uma barragem da mineradora Vale se rompeu. A lama tóxica arrastou consigo casas, vilarejos, árvores, humanos, animais, trens, caminhões... 270 pessoas morreram impactadas, soterradas ou dilaceradas pelos rejeitos; seis corpos permanecem desaparecidos. Brumadinho foi a cidade mais atingida pelo crime resultante de uma série de negligências e descasos dos responsáveis pela barragem. Não é por acaso que Daniela joga com o nome da empresa no título de um dos capítulos do livro: "O que vale é o lucro" .

Arrastados, o novo livro de Daniela Arbex. - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A autora se debruça sobre as razões e as consequências do rompimento da barragem num ponto mais avançado da obra. Antes de se dedicar aos culpados, olha para as vítimas. É reconhecido o talento de Daniela para, a partir de momentos de pandemônio, construir narrativas dolorosas, com cenas bem detalhadas, ritmo intenso e personagens cativantes. Durante boa parte de "Arrastados", a sensação é que o leitor está ali nas montanhas mineiras, ora vendo a tragédia muito de perto ora sofrendo junto com aqueles que, apesar de tudo, tiveram a sorte de sobreviver.

Entre a falta de compreensão do que ocorria entre os impactados instantes após a ruptura da barragem, a iminência da morte e a angústia de familiares procurando saber se seus filhos, maridos e esposas sobreviveram ou não, são diversos os momentos emocionantes de "Arrastados". O papel de bombeiros que pareciam mandados para a própria morte, tamanho os riscos que corriam nos resgates em meio a pedaços de corpos, carcaças de animais e lama movediça, também é tratado com bastante cuidado pela jornalista.

Num livro com diversos detalhes chocantes, chama a atenção a forma como até os profissionais do IML ficaram profundamente abalados com os corpos tomados pelo minério de ferro que entupiu o encanamento do prédio após as primeiras lavagens das vítimas. Sob a lama, outra surpresa impressionante: ninguém poderia ser distinguido pela cor; a força do tsunami de barro havia arrancado as camadas superficiais da pele dos finados. As lesões dos corpos destroçados eram piores do que as causadas em desastres aéreos.

Como escreve Daniela no posfácio de "Arrastados", "enquanto o modelo de negócio não mudar e a política da mineração priorizar o produto, em vez da vida humana, não haverá lugar seguro para ninguém". As notícias vindas de Minas Gerais nas últimas semanas, com o risco de outras barragens romperem, indicam que é questão de tempo para que desastre semelhante volte a nos abalar.

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