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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Mais para burro, mesmo': nossa música e a censura que nunca acaba

Pintura de Oswaldo Guayasamín - Reprodução
Pintura de Oswaldo Guayasamín Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

17/01/2022 04h00

"Não foram muitos os encontros entre Caetano Veloso e os censores, mas os que ocorreram serviram para que o artista formasse sua opinião sobre o cargo. Opinião que, aliás, é compartilhada por grande parte dos entrevistados para este livro. 'A tendência é mais para burro, mesmo', diz ele, referindo-se aos censores em geral. 'A censura é um negócio arriscado. As pessoas mais inteligentes não entram na atividade da censura porque é uma atividade bastante ridícula'".

Caetano fala sobre os patrulheiros após lembrar de casos com a censura. Casos como o da música "Nine Out of Ten", que caiu na malha fina por conter a palavra "reggae", estilo musical então recém-nascido e que estava distante do léxico dos burocratas da ditadura. O cantor é um dos 29 artistas que relataram suas histórias de silenciamentos oficiais aos jornalistas João Pimentel e Zé McGill. Essa memória de um autoritarismo que ganhou novos contornos a partir do golpe de 1964, se intensificou após o AI-5 e teoricamente arrefeceu com o fim do período de exceção, mas, na prática, segue a dar o ar da desgraça por aí, está no recém-lançado "Mordaça - Histórias de Música e Censura em Tempos Autoritários" (Sonora).

Se reggae gerava desconfiança por não estar nos dicionários dos censores, outras palavras figuravam no índex que fazia com que uma música fosse imediatamente proibida de chegar aos ouvidos do público: bebida, bêbado, desquitar, amigar... As apresentações dos artistas também precisavam passar pelo crivo dos "guardiões da moralidade", que podiam encasquetar até com um Ney Matogrosso descamisado no palco caso a mulher de algum general melindrasse com a cena.

Ney também deu seu depoimento a Pimentel e McGill. O time de artistas ouvidos para o livro, aliás, impressiona. Estão lá Chico Buarque, Gilberto Gil (dois dos mais perseguidos), Ivan Lins, João Bosco, Jards Macalé, Alceu Valença, Odair José, Beth Carvalho e, dentre outros, Martinho da Vila, que lembra da transição dos tempos de militar para a carreira artística.

O clima que permeia boa parte dos relatos é o do horror de uma época de perseguições, agressões, prisões arbitrárias, torturas, exílio e desaparecimento de colegas e amigos. A forma como os artistas reagiram ao golpe e foram paulatinamente impactados pela escalada da estupidez dos militares acompanha as lembranças das canções banidas e das negociatas. Neste ponto, é curiosa a história de Genilson Barbosa, funcionário de uma gravadora que, de tanto pleitear a liberação de composições, virou amigo dos censores.

Sintomático do obscurantismo da profissão é que nenhum censor procurado pelos autores quis prestar depoimento. Quando estavam em atuação, por outro lado, pareciam gostar de ser os responsáveis por tutelar o que poderia chegar ao público. Em alguns casos, a censura vinha acompanhada de papagaiadas com lições de moral, como no caso do veto à letra original de "Partido Alto":

Mordaça - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"Se é engraçado ou infelicidade para o autor ter nascido no Brasil, país onde ele vive e encontra este povo tão generoso que lhe dá o sustento comprando e tocando seus discos e pagando-o regiamente nos seus shows, afirmo que ele está gozando ou então estará entre uma ínfima minoria, desde que milhões se orgulham desta terra onde o progresso aos olhos do mundo é inegável", escreveu o tolhedor em seu parecer para a música de Chico.

Acerto dos autores foi não limitar o olhar somente aos tempos de ditadura. Se artistas como Evandro Mesquita, da Blitz, Philippe Seabra, da Plebe Rude, e Clemente, dos Inocentes, falam sobre os vetos que ocorriam já no ocaso dos militares então no poder, as histórias contadas por BNegão mostram como diferentes frentes da sociedade seguem tentando amedrontar e silenciar artistas.

Não bastassem as perseguições ao Planet Hemp nos anos 90, no recente 2019, quase 35 anos após os militares darem um tempo de Brasília, BNegão precisou abreviar uma apresentação do BNegão e Seletores de Frequência em Bonito, Mato Grosso do Sul, após agressões e ameaças vindas da polícia local. Já Léo Jaime, que durante certo período dos anos 80 tinha todas as suas músicas censuradas, afirma: "ameaçado de morte eu só fui pela turma do Bolsonaro, mas durante a ditadura, não".

A discussão sobre uma possível volta da censura oficial, dos caminhos tomados pelos tipos mais autoritários em nossos dias e o que representa o governo de Bolsonaro e sua claque militar é uma das camadas mais importantes da obra. De certa forma, "Mordaça" trata de um episódio ainda não encerrado da história do país. Daí que ganha força um depoimento como o de Beth Carvalho, concedido pouco antes de sua morte:

"A minha escolha pelo samba, lá no início da carreira, teve a ver com o sentido revolucionário e popular, com sua importância social-histórica. Por isso, me deixa muito triste ver sambista votando num sujeito como Jair Bolsonaro, um cara preconceituoso, racista, apoiado pela mesma turma que sustentou a ditadura militar: a igreja, o empresariado e os ruralistas. Tanta gente lutou, dedicou a vida a pensar nos excluídos. Agora teremos mais uma onda de desinformação, de obscurantismo cultural, de menosprezo pela nossa história".

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