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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Literatura, política, família: os amigos Jorge Amado e Graciliano Ramos

Abertura do relato que Jorge Amado escreveu para a revista Status sobre o encontro com Graciliano. As ilustrações são de Chico Caruso. - Arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado
Abertura do relato que Jorge Amado escreveu para a revista Status sobre o encontro com Graciliano. As ilustrações são de Chico Caruso. Imagem: Arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

17/11/2021 04h00

Quando os originais de "Caetés" caíram nas mãos de Jorge Amado, então com pouco mais de 20 anos e autor do ainda fresco "Cacau", o jovem se apaixonou. Em meados de 1933, pegou um navio, deixou o Rio de Janeiro, então capital federal e coração literário do país, e partiu para Alagoas. O objetivo era um só: conhecer aquele tal de Graciliano Ramos.

Na época, as pessoas que escreviam no Brasil "não eram mais de 300. Tínhamos tudo e nos conhecíamos todos", recordou Amado em 1984, num artigo sobre os 50 anos de "Caetés". O primeiro encontro com Graciliano aconteceu num bar em Maceió. Cercado por outros intelectuais, o escritor tomava café preto numa xícara grande. Nos dias seguintes, ciceroneado por Aurélio Buarque de Holanda, Jorge passeou, comeu sururu e conversou, conversou muito. Na capital alagoana, fez uma amizade que carregaria para o resto da vida.

"De 1933 a 1953, quando ele morreu, fomos, Graciliano e eu, amigos de todos os dias e em todas as situações. Situações por vezes bem difíceis, duras ou complicadas, pois esses vinte anos incluíram, em seu bojo, uma guerra mundial e, no Brasil, pequenas guerras locais". São palavras de Jorge publicadas numa edição de 1961 do jornal "Diário de Notícias". No texto, o baiano enaltece a literatura do alagoano. Ao falar de sua maestria, o coloca ao lado Aluísio de Azevedo e Machado de Assis.

Nesse mesmo artigo, Jorge indica "Vidas Secas" como um "livro de densidade incomum, de raro equilíbrio, de comovedora beleza" para depois afirmar que Graciliano "foi, entre os escritores do 'movimento de 30', o que mais se aproximou da perfeição". Sobre o apelido de Graciliano, conta que o chamavam de Velho Graça porque o autor estreou tarde e vivia cercado por escritores mais jovens: "Sempre o chamamos, carinhosamente, de 'velho'".

A amizade de Jorge e Graciliano extrapolou a literatura. Homens políticos, comunistas que lutavam por seus ideais, foram perseguidos e presos pelo governo de Getúlio Vargas - do tempo em que passou na cadeia que nasce "Memórias do Cárcere", um dos livros mais importantes de Graciliano. Famílias se aproximaram quando James, um dos filhos de Jorge, se casou com Luiza, filha de Graça.

Exemplar de "Caetés" dedicado por Graciliano para Jorge. - Arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado - Arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado
Imagem: Arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado

Essa amizade será festejada ao longo da quinta edição da Flipelô, a Festa Literária Internacional do Pelourinho, que começa hoje, vai até domingo, 21, e neste ano acontece em formato híbrido, com mesas e oficinas transmitidas via Youtube e parte da programação espalhada por diferentes pontos do Centro Histórico de Salvador. Dentre os convidados, nomes como Amara Moira, Beth Ramos, Kleber Mendonça Filho, Geni Guimarães, Ronaldo Corria de Brito e Ryane Leão - aqui há mais informações. O homenageado da vez no evento realizado pela Fundação Casa de Jorge Amado em parceria com o Sesc será justamente Graciliano Ramos.

Logo após se conhecerem, a aproximação de Jorge e Graciliano já se registrava em livro. Em "Jorge Amado - Uma Biografia" (Todavia), Josélia Aguiar lembra que a primeira edição de "Caetés" chegou às livrarias com dedicatória a Alberto Passos Guimarães, Santa Rosa e Jorge Amado. "Desconfia-se que tal ideia não veio de Graciliano, pois outros livros seus não incluem agradecimentos. Há quem acredite que foram os próprios homenageados - ou um deles, em nome de todos - que providenciaram tais dizeres", conta a jornalista.

No artigo sobre os 50 anos do livro de estreia de Graciliano, Jorge assume que toda memória deve ser vista com desconfiança. Pouco depois, relata a intromissão em causa própria. "Nós dedicamos 'Caetés' a nós próprios. Graciliano, deve-se dizer, manteve a dedicatória pelo resto da vida, o que prova que além de tudo ele era um homem generoso e bom".

Com o passar das décadas, Jorge reconheceria tanto a qualidade das demais obras de Graciliano quanto a evolução da escrita daquele que apontava como um de seus autores favoritos. A admiração e o carinho por "Caetés", contudo, permaneceriam inabalados. Após uma releitura do livro, registrou:

Jorge sobre "Caetés" - Arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado - Arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado
Imagem: Arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado

"Fiquei empolgado: Li o manuscrito de 'Caetés', voltei a ler o romance de estreia de Graciliano não há muito tempo, a atmosfera de cidadezinha pacata, de vida limitada, mais uma vez exerceu sobre mim sedução da primeira leitura, quando deparei com um romancista. Outros livros de Graça são maiores, o romancista cresceu, mas 'Caetés' persiste inteiro em cada linha da escrita admirável".

No texto de 1961 para o "Diário de Notícia", Jorge também colocou a maneira como enxergava Graciliano além de sua literatura. Era um homem "seco e difícil", com algo de "senhor feudal e de cangaceiro reivindicador"; ainda assim, um dos homens mais "doces e ternos" que conheceu. A amizade do autor de "Angústia" era "moeda de câmbio alto", reservada apenas para alguns. Segundo Amado, o Velho Graça tinha a lealdade como "virtude fundamental". Foi alguém que começou a escrever já maduro e morreu cedo, "em plena força criadora".

Graciliano Ramos se foi em 1953, aos 60 anos. Naquela altura, tanto ele quanto Jorge, então com 40, já eram grandes nomes da literatura brasileira. Na hora de despedida, Amado foi chamado para discursar frente ao corpo do Velho Graça. Não conseguiu. A perda do amigo fez com que o autor de "Jubiabá", "Mar Morto" e "Capitães da Areia" ficasse sem palavras.

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