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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para qual escritor você gostaria de mandar uma carta?

O carteiro Roulin, pintura de Vincent Van Gogh - Reprodução
O carteiro Roulin, pintura de Vincent Van Gogh Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

23/06/2021 09h56

Para qual escritor você mandaria uma carta? Para qual escritor eu mandaria uma carta?

Fiquei com essa pergunta na cabeça ao receber "Autores, Leitores & Cartas" (Instituto Oldembug de Desenvolvimento/ Câmera Books), livro que nasceu do Prêmio Literário Estação Leitura. Escritores no início da carreira foram incentivados a escrever cartas para seus pares já consagrados. Das cem missivas destinadas a nomes tão diferentes quanto Thalita Rebouças, Olavo Bilac, Pedro Nava, Gabriel Chalita, Castro Alves e Rachel de Queiroz, vinte foram selecionadas para a obra.

Giovanna Genghini, por exemplo, escreveu a Natalia Borges Polesso para declarar seu amor pelo livro de contos "Amora". Diego Alves antecipou o pedido de desculpas pela intimidade com Guimarães Rosa para depois comentar como "Primeiras Estórias" o impactou. Mayumi Maciel dividiu com Carolina Maria de Jesus a busca por tentar construir uma sociedade em que os direitos básicos sejam respeitados, onde ninguém passe fome.

No concurso, o primeiro lugar ficou com Sinval Farias com sua carta para João Cabral de Melo Neto ("Dia desses, mergulhei no desamparo da depressão. Se o confesso com naturalidade, é porque muito já superei, sobretudo pelo aconchego da boa leitura. As lições de tua pedra me foram providenciais nesse processo"). O segundo, com Manuela Carvalho Velloso por mensagem a Carlos Drummond de Andrade ("Nossos meses estão sendo parecidos, principalmente em relação aos sentimentos. O medo está marcando presença constante, 'o medo que esteriliza os abraços'").O terceiro, com Juliana Berlim por carta a Bernardo Carvalho ("Em havendo este país com futuro, onde estarão alojados os índios, nossa presença do passado, nossa vergonha do presente? [...] Bem faria o Brasil em querer ser Brasil um dia, Bernardo").

Há um ponto importante: para escritores vivos dá para mandar uma carta (ou e-mail, mensagem em rede social, seja lá o que for) a qualquer momento. Claro que pode ser mais difícil fazer com que a mensagem chegue a uma Joan Didion ou a um Houellebecq da vida. A língua e o alfabeto também são eventuais barreiras. Mas se o sujeito admirado está vivo, a chance existe. Por isso penso nos que se foram.

Aberta a possibilidade de mandar cartas aos finados, rapidamente a caixa de entrada de Machadão, Clarice, Graciliano ficariam abarrotadas. Deixaria esses gigantes para outros leitores. Dentre os brasileiros, penso num contista fantástico lembrado com menos frequência do que merece: Murilo Rubião. Na mensagem, mencionaria as transformações de Teleco e diria que os dragões sofreriam ainda mais com o atraso dos nossos costumes caso aparecessem pelas cidades do Brasil de 2021.

Mantenho a lógica na hora de pensar em algum gringo. Shakespeare, Cervantes, Gabo, Borges, Virginia, Dante, Homero, Jane, Kafka, todos seriam sufocados por cartas. Minha primeira opção talvez recebesse muitas correspondências, mas em volume menor, creio. Adoraria que Buchi Emecheta lesse o que tenho a dizer sobre ela, sobre como admiro a maneira de levar para a literatura a complexidade e as contradições de povos africanos que habitam o território nigeriano conflitados pelas culturas tradicionais e a cultura europeia.

Outra iria para o polonês Ryszard Kapuscinski, jornalista que merecia ter sido o primeiro escritor de não ficção a ficar com o Nobel de Literatura. Não sei se o questionaria logo de cara sobre a veracidade de tudo o que colocou nos livros. Talvez deixasse o papo de jornalismo mágico para depois de firmada a amizade. Ia preferir bajulá-lo pelos muitos encontros e aventuras que me fez vivenciar pela África, Ásia e América Latina em livros como "A Guerra do Futebol", "Ébano: Minha Vida na África" e "Minhas Viagens com Heródoto".

E você, para qual escritor gostaria de mandar uma carta?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL