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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Roubo do fogo: uma história de 160 mil anos - papo com Alberto Mussa

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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

18/06/2021 08h18

Na 84ª edição do podcast da Página Cinco:

- Entrevista com Alberto Mussa, autor de "A Origem da Espécie - O Roubo do Fogo e a Noção de Humanidade" (Record).

- Nova temporada do Paiol Literário.

- "Upstate", de James Wood (Sesi-SP) e "Nomear Para Combater - Uma Tentativa de Organizar a Raiva Para Virar Pensamento", de Nicole Aun (Atreva-se), nos lançamentos.

Alguns destaques da entrevista:

O roubo

Desde muito cedo, comecei a achar estranho o fato de o fogo ser quase sempre roubado, enquanto outros bens da cultura entram nas sociedades, na mitologia de diversos povos do mundo, em geral como doação de um Deus, de um demiurgo. Por que essa especificidade? Por que o fogo em geral é roubado? Isso sempre me chamou a atenção.

As mais antigas do mundo

Há certas histórias que, me parecem, são muito recorrentes. Além do roubo do fogo, outra história que aparece em tudo que é lugar é a do dilúvio. Há também histórias muito frequentes sobre visitas aos mortos.

História que acompanha a humanidade

Só existe uma única explicação: ela tem origem comum. É uma história só. Surgiu num determinado momento e foi sendo carregada pelas populações humanas conforme se espalharam pela face da Terra. Por isso que é tão antiga. Se a humanidade tem no máximo 330 mil anos, mais ou menos, essa história tem no máximo 330 mil anos e, no mínimo, 160 mil anos, que é a data que se diz da Eva Mitocondrial, uma mulher africana ancestral de toda a humanidade viva. Todo mundo que está vivo hoje descende dessa mulher.

Somos só uma continuação

Nós somos só descendentes dessa humanidade primordial e temos tecnologias, como a escrita, o alfabeto, o papel, o livro. A gente pode fazer coisas que eles não faziam, mas não somos melhores do que eles nem criamos coisas mais bonitas do que eles criaram. Somos só uma continuação. Modificada pela tecnologia, mas a essência é igual. Temos uma noção muito presente de que os homens antigos, a humanidade arcaica, era brutal e selvagem, como se a moral tivesse melhorado. E eu não acredito nisso... Eu tenho certeza de que evolução nós não temos. A gente modifica, mas não melhora.

Sociedade que compartilha

O roubo do fogo traz uma ideologia fundamental que é a do compartilhamento do bem. Ele cria a ideia de sociedade humana, que é baseada no compartilhamento. A base social é a troca. A troca de esposos, porque existe a regra do incesto, e a troca de bens.

Roubo

Nós estamos usando uma palavra ocidental que traz uma ideia de propriedade privada, mas o que o mito do fogo diz é que bens fundamentais não podem ser exclusivos. Eles têm que ser públicos, têm que ser coletivos. É uma ideologia muito forte, e acho que por isso ele permaneceu por pelo menos 160 mil anos. Pois ele traz uma ideologia fundamental à sociedade humana que é da solidariedade e do parentesco de aliança.

Atenção no leitor

A gente não pode perder a noção de que o escritor é um profissional. E, como qualquer profissão, ele tem que ter uma utilidade social. Penso muito nessa questão. Acho que preciso escrever coisas que as pessoas querem ler. É claro que vou me colocar, colocar minhas ideias, minha maneira de ser, meus fantasmas. Se eu puder fazer isso estabelecendo um diálogo mais intenso com o público, é melhor. Então, comecei a fazer um esforço para me tornar mais popular, para conseguir ser lido sem prejudicar o que quero dizer ou determinada forma literária, estética. É possível tentar conjugar. E não tenho medo dessa coisa de mercado. O mercado existe. Isso não é uma coisa desprezível: prestar atenção no leitor.

A foto de Aberto Mussa foi tirada por Paula Johas.

O podcast do Página Cinco está disponível no Spotify, na Apple Podcasts, no Deezer, no SoundCloud e no Youtube.

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