PUBLICIDADE
Topo

Página Cinco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A Bíblia também será banida da Fundação Palmares?

Pintura de Lucio Massari - Arquivo
Pintura de Lucio Massari Imagem: Arquivo
Conteúdo exclusivo para assinantes
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

07/06/2021 10h12

Difícil esperar alguma atitude decente de certas pessoas, mas nem por isso devemos aceitar ou normalizar absurdos vindos de alguém à frente de instituições ligadas ao Estado.

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, voltou ao noticiário com o seu obscurantismo. Desta vez, papagaiou que excluirá dos arquivos da instituição todo os livros de Carlos Marighella, ex-deputado federal que recorreu à guerrilha para lutar contra a ditadura. Também prometeu fazer uma limpa em cerca de 300 títulos cheios de "marxismo e perversão sexual". São obras que promovem pedofilia, sexo grupal, pornografia juvenil, sodomia e necrofilia, informa. Só não aponta quais títulos são esses.

Perseguição e censura viraram temas corriqueiros na Fundação Palmares desde que Camargo assumiu a instituição. Diálogo, lido com o divergente, pluralidade de ideias e um entendimento menos tosco da arte definitivamente não fazem parte das virtudes de Sérgio. O que há é subserviência ao chefe supremo dele (Jair Bolsonaro) e completo desprezo pela história da Fundação e de tudo o que ela representa. Subverter a função de órgãos públicos faz parte da estratégia macabra do bolsonarismo.

O duro é que essas atitudes com jeitão de Idade Média têm lastro. Só olhar para a sociedade que encontramos rapidamente episódios de ignorância empoderada. Semana passada mesmo, pais de alunos do Móbile, colégio paulistano para abastados, queixaram-se da versão em quadrinhos escolhida pela escola para trabalhar com os alunos de "O Diário de Anne Frank", um dos livros mais importantes sobre a perseguição aos judeus durante a ascensão da Alemanha nazista.

Acharam um absurdo que seus filhinhos tivessem contato com curiosidades e desejos sexuais escritos por uma garota entre seus 13 e 15 anos, enquanto estava trancafiada num esconderijo para tentar sobreviver ao horror. Em outras ocasiões, livros como "Meninos Sem Pátria", de Luiz Puntel, e "O Menino que Espiava Pra Dentro", de Ana Maria Machado, sofreram truculência semelhante.

Não coloco no mesmo balaio bizarrices em escolas particulares com absurdos de agentes da esfera pública. Em todo caso, uma situação ajuda a explicar por que a outra acontece com a anuência ou cumplicidade silenciosa de tanta gente. Se continuar assim, não demorará para que um outro livro acabe banido de nossa sociedade. É um cheio de passagens bem pesadas: tem pai matando filho, incesto, assassinatos em massa, um leque enorme de violências e até um dos personagens principais sendo escorraçado, torturado e assassinado num ritual brutal, sangrento, desumano. "Bíblia" é o nome da obra.

Você pode me acompanhar também pelas redes sociais: Twitter, Facebook, Instagram, YouTube e Spotify.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL