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Razão X Emoção: embate está no centro de novo romance de Elena Ferrante

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Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

14/10/2020 09h54

Não tinha rolado com "A Amiga Genial" nem com "Dias de Abandono". Agora, na terceira chance à autora, finalmente me entendi com a italiana Elena Ferrante. Isso graças ao romance "A Vida Mentirosa dos Adultos", que acaba de ser lançado no Brasil pela Intrínseca. A tradução é de Marcello Lino.

Ao escutar o pai chamá-la de feia, Giovanna, uma adolescente de doze anos, começa a entender a complexidade da vida adulta, calcada em mentiras, meias palavras e sentimentos velados. A conversa entreouvida acaba por levá-la a conhecer Vittoria, a tia que lhe apresentará um mundo bastante distante do qual fora criada.

Giovanna cresceu numa casa de intelectuais que se alternam entre a escola e a universidade e apostam na razão como forma de compreender o mundo. Emocionalmente equilibrados, falam baixo e pregam os bons modos. Vittoria é o oposto: religiosa, visceral e impulsiva, aparenta não domar as emoções. É o embate entre esses dois universos, também representados nas distintas cidades dentro de uma mesma Nápoles e nas diferenças que há entre o norte e o sul da Itália no imaginário dos personagens, que está no centro do romance.

Na narrativa de Ferrante, aos poucos percebemos o cinismo e a desfaçatez que há sob a fachada daqueles que se fingem adeptos somente da razão. Quando os desejos deixam de ser reprimidos ou os maiores segredos são revelados, notamos que Vittoria talvez só seja vista com maus olhos por conta da maneira honesta como se coloca no mundo. Buscando compreender as contradições, Giovanna nota que a realidade é bem mais complexa, confusa e distante do que seus pais a fizeram supor. Nota que, no mundo adulto, muitas vezes há um abismo entre o que se diz e o que se faz.

Vida mentirosa - Reprodução - Reprodução
A Vida Mentirosa dos Adultos
Imagem: Reprodução

Ao mesmo tempo, Giovanna se rebela, tateia sua forma de interpretar o mundo, procura estabelecer a própria personalidade. Amadurece. Paixonites, descobertas afetivas e idealizações lhe perturbam os sentimentos. Já os homens adultos que olham com cobiça para seus peitos recém-crescidos e os abusos dos rapazes mais jovens (e seus pintos sujos fedendo latrina) obrigam a garota a também compreender como os desejos sexuais podem moldar as relações.

Desde que lançou "A Amiga Genial", em 2011, primeiro volume da Tetralogia Napolitana, Elena Ferrante se estabeleceu como um raro e bem-vindo caso de sucesso de crítica e público. A adaptação para o audiovisual de sua série mais famosa contribuiu para que a obra da autora chegasse a ainda mais gente. E a promessa é que "A Vida Mentirosa dos Adultos" também se torne série.

Mergulhando em seu texto, encontramos elementos que podem indicar os motivos de tamanho sucesso. Ferrante sabe o valor de uma narrativa clara e bem cadenciada. Sem malabarismos estilísticos, entrega um romanção envolvente, de leitura fluida e prazerosa. Personagens bem definidos também ajudam a fazer com que o leitor avance pelas páginas.

Agora que me entendi com a italiana, posso dizer: é bom para a literatura ter um fenômeno como Elena Ferrante

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL